A Coragem de Rute - Profª Dita

Estamos vivendo em tempo de guerra. Homens e mulheres de todo o mundo se preocupam e tentam de alguma forma erguer sua bandeira pedindo paz. Quando falamos de mulheres atualmente, nos lembramos imediatamente das iraquianas, que sentem na carne o horror da guerra, que sofrem em silêncio ou lutam da maneira como podem. De alguma forma sabemos que são as crianças e as mulheres que mais sofrem em tempos de conflito. Segundo a ONU, 75 % dos refugiados de guerras são mulheres e crianças, seres vulneráveis que sentem com mais intensidade as perdas de seus filhos, maridos e pais. A morte e a destruição de seus lares faz com que elas adquiram uma força sobre-humana para transpor tantas barreiras.

   Acontecimentos envolvendo mulheres que perderam seus maridos, mas que continuaram em frente, vem desde os tempos antigos. Situações sociais de conflitos sempre as envolveram, quase que de uma forma negativa a partir do poder extremamente voltado ao universo masculino. O desrespeito às mulheres e a ausência de justiça e igualdade fazia com que elas ardilosamente ultrapassassem os conceitos comuns da sociedade partindo para a árdua tarefa de resolver elas mesmas seus problemas.    

   Uma história da Bíblia que nos chama a atenção para a força e coragem das mulheres em tempos difíceis, achando alternativas e meios de sobrevivência, mesmo nas adversidades, é a de Rute. Uma mulher exemplar que tenta integrar-se ao seu povo. A história traz à tona o valor da mulher em momentos de crise buscando em suas próprias reservas a coragem necessária para seguir em frente. Tudo começa com Noemi, a sogra de Rute, mulher judia bem casada e com dois filhos, residindo em Belém. Um dia toda a família se muda para Moab, para escapar da fome que assolava seu país. Seus filhos se casam com duas moças moabitas, uma chamava-se Órfa e a outra Rute. Morrem os maridos das três mulheres, uma tragédia irreparável, pois a vida para uma mulher viúva desta época em Israel, era impossível. O homem era o "cabeça" da família e sem ele toda e qualquer possibilidade de vida familiar desaparecia.

    Após algum tempo Noemi resolve retornar à sua pátria, pois chegou em Moabe a notícia de que Deus havia visitado seu povo, trazendo bênçãos, fartura e prosperidade. Órfa decide ficar, ao passo que Rute resolve acompanhar sua sogra. As duas passam a enfrentar a nova situação de retornarem à Belém, sem maridos, posses, ou mesmo lugar para morar. Diante de todas as dificuldades que as aguardava, as duas seguem em frente. Depois de uma longa viagem sem comida ou conforto, as duas chegam em Belém onde foram bem recebidas por antigos parentes que abarrotavam as casas, pois era tempo da colheita da cevada. Para as duas sobreviverem, Rute vai catar as espigas que ficavam para trás na colheita do campo (um direito dos pobres) de Booz, que permite tal atitude, por ser informado de que Rute era nora de um parente seu.    

   As duas continuaram algum tempo em Belém e nos campos de Booz catando os restos da colheita, uma humilhação que não abatia os planos e projetos das duas mulheres. Rute, mesmo sendo uma intrusa, pois era estrangeira, não se abateu com as adversidades, vencendo no final. Casa-se com Booz e torna-se dona daquela terra e livre do estigma da viuvez, presente em sua sociedade. Com sua coragem, recupera sua vida e sua dignidade, tornando-se desta forma bisavó de Davi e, por conseguinte, integrando a genealogia de Jesus o nosso Messias. (Mt 1, 5 - 6). Conhecendo esta história e a situação de muitas mulheres hoje, talvez este seja o pensamento de milhares delas no Iraque, onde a morte e a fome, da mesma forma, ronda em todos os cantos do país, quando os homens vão ao combate deixando atrás de si mulheres desesperadas, mães inconformadas, viúvas desamparadas, e que talvez como Rute busquem outros lugares imaginando e sonhando com uma vida decente e humana, tentando esquecer a tragédia do "assassinato" de seus maridos e filhos, e os horrores de uma guerra que não é delas.    

   Testemunhas de cenas horríveis que possivelmente carregarão em suas mentes e corações por toda a vida, tentando libertar-se dos fardos, sofrimentos e marcas, elas buscam alternativas e saídas, unindo-se a outras mulheres na mesma situação, mudando-se para outros países e acreditando que, de uma forma ou de outra Deus ama e zela por aquele que sofre injustiça, o excluído, o humilde, o pobre, conforme bem nos ensina o Salmista "fui jovem e já estou velho, mas nunca vi um justo abandonado nem sua descendência mendigando o pão". (Sl 37, 25).