A Descida de Cristo ao inferno

Este livro relata o período intermediário entre a morte de Jesus e sua ressurreição, período no qual esteve no inferno para de lá libertar Adão, bem como todos os santos da antiga aliança, incluindo aí os profetas, patriarcas, reis, etc.

O inferno perde sua característica geográfica e personifica uma entidade do mal, contrária ao plano de Deus e que vê na pessoa de Cristo, o mais poderoso personagem do universo.

O texto deixa claro uma cumplicidade entre o inferno e Satanás, na qual ambos levam a cabo a missão de impedir os homens de subirem ao céu.

Em dado momento o inferno deixa claro ao diabo que ele cometeu o maior erro de sua miserável existência ao permitir a morte de Jesus, tendo em vista a existência de enorme material profético anunciando que após sua morte iria ao inferno libertar as almas cativas.

 

Deixamos agora ao leitor um pequeno trecho do livro para sua apreciação:

   

 [...] Então Satanás disse ao inferno: prepara-te para receber alguém que vou trazer-te. Mas o inferno assim respondeu a Satanás: Esta voz não foi outra coisa senão o brado do filho do Pai Altíssimo, pois diante das suas palavras a terra e os lugares do inferno entram em comoção; penso que tanto eu quanto minhas ligações ficaram agora patentes e a descoberto. Mas afirmo-te, ó Satanás, cabeça de todos os males, por tua força e pela minha, que não o tragas a mim, a não ser que, querendo pegá-lo, venhamos nós a sermos  presos por ele. Pois se somente com sua voz minha fortaleza ficou de tal forma desfeita, que fazer quando estiver em sua presença?

Por sua vez, Satanás, o príncipe da morte, assim respondeu: Por que gritas? Não tenhas medo, perversíssimo amigo de outrora, porque fui eu quem incitou o povo judeu contra ele e graças a mim foi ferido com bofetadas, e eu perpetrei sua traição através de um dos seus. Alem disso, é um homem muito temeroso diante da morte, posto que, deixando-se oprimir pela força do temor, disse: Minha alma está triste até à morte. E eu mesmo o trouxe até ela, já que agora está dependurado na cruz.

Então o inferno lhe disse: Se é ele quem somente com o poder de seu verbo fez Lázaro voar das minhas entranhas como uma águia, morto já há quatro dias, esse não é um homem na sua humanidade, mas sim Deus na sua majestade. Suplico-te, então, que não mo tragas aqui. Satanás contestou: Entretanto, prepara-te; não tenhas medo. Agora que já está dependurado na cruz, não posso fazer outra coisa. Então o Inferno respondeu a Satanás da seguinte maneira: Se, então, não és capaz de fazer outra coisa, tua perdição está perto. Em última instância eu ficarei, sim, abatido e sem honra, mas tu serás crucificado sob meu domínio.

Enquanto isso os santos de Deus estavam escutando a contenda entre Satanás e o Inferno; eles ainda não se reconheciam, mas estavam à ponto de começarem a se conhecer. E nosso pai Adão, por sua vez, assim respondeu a Satanás: Ó príncipe da morte, por que temes e te amedrontas? Olha, o Senhor virá e irá destruir agora mesmo todas as tuas criaturas, e tu serás amarrado por ele e ficaras preso por toda a eternidade. Então, todos os santos, ao ouvir a voz de nosso pai Adão e ao ver com que integridade respondia a Satanás, alegraram-se e sentiram-se reconfortados; em pouco tempo, puseram-se a andar em massa ao lado de Adão e reuniram-se a ele. E nosso pai Adão, ao olhar mais atentamente toda aquela multidão, admirava-se de ver que todos haviam sido gerados por ele neste mundo. E então, depois de abraçar todos os que estavam ao seu redor, disse ao seu filho Seth, derramando amargas lágrimas: Meu filho Seth, conta aos santos patriarcas e profetas o que o guardião do paraíso te disse quando caí doente e enviei-te para que me trouxesses um pouco do óleo da misericórdia e me ungisses com ele.

E  Seth disse: Quando me enviaste à porta do paraíso, orei e roguei ao Senhor com lágrimas e chamei o guardião do paraíso para que me desse um pouco desse óleo. Então o arcanjo Micael saiu e disse-me: Seth, por que choras? A propósito, saibas que teu pai Adão não receberá este óleo de misericórdia, senão depois de muitas gerações se haverem passado. Pois descerá do céu ao mundo o filho de Deus e será batizado por João no rio Jordão; aí teu pai recebera este óleo de misericórdia, juntamente com todos que crêem nele; e o reino dos que acreditaram nele permanecerá pelos séculos.

Quando os santos ouviram isso exultaram. E um deles ali presente, chamado Isaías, exclamou em altos brados: Pai Adão e todos os presentes, escutem minhas palavras! Enquanto vivia eu na terra, inspirado pelo Espírito Santo compus um cântico profético sobre esta luz, dizendo: O povo que permanecia nas trevas viu uma grande luz, amanheceu a luz para os habitantes da região das sombras da morte. Ao ouvir isto, Adão e todos os presentes o interrogaram: Quem és tu? Porque é verdade o que estás dizendo. E ele respondeu: Eu me chamo Isaías.

Então alguém que se assemelhava a um religioso aproximou-se. E perguntaram-lhe dizendo: Quem és tu? E ele respondeu com firmeza: eu sou João Batista, a voz e o profeta do Altíssimo. Eu caminhei diante da face do próprio Senhor para converter os desertos e os caminhos ásperos em veredas planas. Com o meu dedo, apontei os jerosolimitas e glorifiquei o cordeiro do Senhor e o filho de Deus. Eu o batizei no rio Jordão e pude ouvir a voz do Pai que trovejava do céu sobre ele e proclamava: Este é meu filho amado, nele regozijo-me. Eu também ouvi dele a promessa de que ele próprio haveria de descer aos infernos......

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