A figura de Maria em Pentecostes Profª Dita

Lucas nos coloca Pentecostes (At 2,1-13), como o dia do derramamento do Espírito Santo sobre os apóstolos. 

O texto nos diz que Maria e toda a comunidade estavam presentes no Cenáculo. Foi o dia mais importante e especial na vida daqueles primeiros cristãos, pelo fato de marcar uma "nova era" na história da salvação. Todos tiveram uma experiência extática pela manifestação do Espírito e com resultados imediatos, os quais até hoje repercutem nas comunidades cristãs.

De repente, a igreja tornou-se viva, entusiasta, unida e ligada entre si pela mútua lealdade a Jesus ressurreto e pela vinda do Espírito Santo prometida por ele. "Se me amas, guardarás os meus mandamentos. Rogarei ao Pai e Ele vos enviará o Paráclito (Espírito Santo). Ele vos ensinará tudo e vos trará à memória tudo o quanto eu vos disse" (Jo 14, 26).

Sabemos de antemão que a experiência dos primeiros cristãos com Deus no dia de Pentecostes, não foi algo repentino ou de surpresa, mas havia sido muito bem preparado por Jesus durante o seu convívio com os discípulos; portanto, era a efetivação de uma promessa realizada.

Concretamente o Antigo Testamento descreve inúmeras experiências do povo de Israel com o Espírito do Senhor. 

Vamos recordar aqui a visão de Moisés na cidade de Midiã, quando um dia calmamente pastoreava as ovelhas de seu sogro Jetro (Ex 3,1-6). Moisés sentia-se inútil, culpado e só. Longe do seu povo e de sua terra, não via perspectiva de vida nem objetivos concretos.

De repente, aparece à sua frente algo que mudará sua vida para sempre. Deus se faz presente numa chama de fogo. Um pequeno arbusto ardia, mas não se consumia, transformando aquele espaço num lugar sagrado.

A partir dali, Moisés adquire uma nova força, que o impele ao serviço de Deus. Ele descobre que a sua opção de vida a partir dali, vai trazer-lhe inúmeros riscos, conflitos, incompreensões, mas agora existe nele algo diferente, empurrando-o para a missão. É o Espírito Santo, o mesmo do Pentecostes dos cristãos.

Acredito que sentimentos semelhantes aos de Moisés, brotaram também naqueles que tiveram a graça de "encher-se" do Espírito Santo no cenáculo em Jerusalém.

Os apóstolos e Maria, a mãe do Senhor, os convertidos e as mulheres que seguiam Jesus por toda a Palestina desde a Galiléia (suas discípulas) estavam presentes. Todos em oração, aguardavam e ansiavam por algo maravilhoso que Jesus lhes prometera.

Diante dos fatos, quero compartilhar com vocês, meus sentimentos em relação ao texto de São Lucas sobre o acontecimento de Pentecostes. 

Sabemos que em seu evangelho e no Atos, Lucas nos transmite Jesus, como alguém preocupado em valorizar os pobres, as mulheres e as crianças; todos excluídos e marginalizados no seu tempo.

No relato de Pentecostes descrito por Lucas, ele não se limita a sublinhar a participação de Maria apenas na História da Salvação, mas, na História da Igreja. Maria é a antecipação perfeita de como deve ser a verdadeira comunidade cristã de todos os tempos. Lucas traça o perfil dessa igreja de Jesus Cristo com as qualidades e virtudes espirituais daquela que foi chamada muito justamente de "Rainha dos apóstolos".

Maria no relato de Lucas personifica a pobreza, o serviço, a obediência a Deus acima de qualquer coisa, a consciência da fragilidade no seu corpo de mulher, o seu senso de justiça, sua solidariedade com o necessitado, a alegria e confiança nas promessas do Pai.

Nós, as mulheres do século XXI, como presença maior nas comunidades, juntamente com os homens, devemos levar o exemplo de Maria e de sua presença importante no cenáculo. Mostrar sua visão sábia sobre a atuação do Espírito Santo no mundo, percebendo que a sua atuação não se prendeu somente a fórmulas ou ritos, o que vai nos direcionar e nos impelir à oração, a qual pode desenvolver-se da forma mais pura e simples sem rebuscos ou erudição, mas num colóquio, e eu diria mais, numa conversa em família de filhos para mãe.

Foi a assiduidade da leitura bíblica, ou mais especificamente o livro do Atos dos apóstolos numa perspectiva de "ser igreja no novo milênio", que nos levou a descobrir uma nova forma de ver Maria como presença atuante na igreja primitiva junto aos apóstolos. Sabemos que após a morte de seu filho, possivelmente tenha ido morar com João, mas conviveu com todos os outros apóstolos e com eles perseverou na oração e na espera da promessa.

Que o nosso Pentecostes pessoal, aconteça todos os dias e que ele seja uma abertura maior à inserção do Espírito Santo em nós, numa identificação plena com Maria, modelo inspirador, pelo seu itinerário de fé nesta vida, sua coragem em vencer as dificuldades e provações, e uma fidelidade incondicional a Deus.

Maria como modelo e mãe da igreja, continuamente nos ensina a viver suas virtudes evangélicas: Superar o orgulho, o egoísmo, o preconceito, a aceitar a vontade de Deus em nós, mesmo que às vezes nos parece algo incompreensível; a confiar plenamente no Pai.

Devemos permitir que o Espírito Santo de Deus nos invada pela força transformadora de que tanto precisamos hoje.

Que o exemplo de Maria nos oriente e nos faça enxergar melhor o nosso compromisso como cristãos, convertendo-nos em mensageiros vivos do otimismo, da esperança e da Palavra de vida