A mulher no livro de Gênesis - Profª  Dita

Estatisticamente a humanidade está dividida entre o sexo masculino e o feminino. Descobre-se a cada dia um mundo de significações, variando o sexo de quem realiza a ação. Portanto, a sexualidade e o confronto de gênero ainda se fundamentam no princípio configurativo. A inferioridade social, biológica e psicológica da mulher era aceita no mundo antigo como um fato indiscutível perdurando ainda hoje em muitas culturas.

Socialmente a mulher é herdeira de uma carga de preconceitos da sociedade patriarcal em todos os tempos. Biologicamente ela é fonte de vida e, economicamente é fonte de renda.

Ao tomar o livro do Gênesis como apoio para a nossa pesquisa da presença da mulher nele, colocamo-nos diante de muitos desafios, pela complexidade do seu conteúdo quase sempre incompreensível, pelos métodos antropológicos sociais e culturais de hoje, mas também pela ausência de dados concretos.

Analisando a importância da mulher no livro de Gênesis pelo menos por dois ângulos diferentes devemos olhar:

1º)  Como aquele povo vivia (costume, tradição, religião, visão política, ideologia e vivência social).

2º)  Como viam o Projeto de Deus e a presença da mulher nele (visão teológica).

Infelizmente, ainda entre os cristãos atuais, costuma-se comumente ler este livro apenas tentando compreender o que está escrito pelo que está escrito, ou seja, literalmente. Nesta circunstância torna-se difícil, eu diria quase impossível, ver-se nele mulheres fortes, decididas, participantes, preocupadas com o progresso e ascensão de sua gente, mulheres lutadoras, ávidas por vencer obstáculos, mulheres de fé.

Segundo alguns exegetas, historiadores e sociólogos do nosso tempo, a maneira mais simples e de fácil compreensão de Gênesis, seria por meio da mulher latino-americana, procurando entender suas mensagens pelo lado social e histórico. Quando dizemos histórico, é lógico que não estamos retrocedendo aos momentos dos escritos da criação no sentido literal; pois infelizmente Deus não trouxe consigo escrivões, repórteres ou redatores no momento em que criou o ser humano e todas as coisas. O que podemos deduzir é que tudo foi idealizado e criado com um plano de vida eterna, harmonia, partilha e paz.

O que a humanidade fez com este "paraíso"? Tentou modificá-lo à sua maneira e adaptá-lo às suas necessidades; e como todo ser humano é falho e passível de erros, transformaram o que seria um projeto de vida, em um projeto de morte e destruição.

Deus em sua infinita bondade e amor ao ser humano, volta a revelar-se a muitos no decorrer dos tempos dizendo-lhes como recuperar o sonho perdido de vida eterna. Surge desta forma o livro do Gênesis. Em princípio de forma oral, transmitido de geração a geração, de pai para filho. Depois pela tradição escrita. E a mulher? Qual a sua parte em tudo isso?

Seguramente ela foi a peça principal deste quebra-cabeças. Foi ela quem levou o homem a aceitar uma situação que a princípio lhe parecia ser a única solução de vida. É a velha história da serpente. E como tudo isso começou?

Retrocedendo os fatos

O israelita do tempo patriarcal, desde Abraão, tentou viver e conviver com outros povos no País de Canaã da melhor forma possível, lutando quando necessário, ou vivendo pacificamente, mas tendo sempre como guia e escudo, a fé no Deus único (monoteísmo).

Historicamente Abraão saiu de sua terra (Ur dos caldeus, sul da Mesopotâmia) entre 2000 e 1800 a .C, tendo como meta principal a busca da Terra Prometida por Deus, Canaã, que em hebraico significa "terra da púrpura". Seu nome vem da tinta extraída de um caracol do mar. Era muita famosa nos tempos antigos. Só os ricos tinham acesso a esta tinta, sendo um dos principais produtos do comércio local.

É evidente que podemos imaginar Canaã semelhante ao "jardim do Éden" descrito na Bíblia, esperando Abraão e sua comitiva; pelo contrário, Canaã era uma cidade moderna mas por demais hostil, povoada e bem guardada. Lá havia pessoas cultas, homens treinados para grandes batalhas, muito bem armados, com estratégias de guerras e com um rei astuto e ambicioso. O que fez Abraão?

Com infinita confiança em Deus, Abraão seguiu em frente (Gn 12,5). Saindo de Harã (hoje Turquia), com destino a Canaã, atravessou o deserto e algumas cidades Estados bem fortificadas. A trajetória de Harã à Canaã compreendia uma extensão de mais de 1000 Km. Provavelmente a primeira cidade pisada por Abraão tenha sido Damasco, pois os árabes, quando falam do paraíso, pensam nesta cidade. Lá as flores na primavera são magníficas. Os campos férteis exibem extensas olivais, amoreiras e palmeiras, sem contar na grandiosidade e mistério que envolve o majestoso e célebre Monte Hermon com seus 2750 metros de altitude. Ao lado de Damasco, brotam nascentes do rio Jordão tornando tudo em volta verde e florido. Mas, o primeiro patriarca continua a sua trajetória e caminhada e muitos séculos se sucedem, até que o povo resolve igualar-se aos demais povos, e exigem um rei, um representante de Deus na terra, segunda sua concepção.

De Abraão ao primeiro rei de Israel, Saul (1800-1030), houve lutas, pelejas e resistência aos grandes problemas. Foi neste período que se deu a transição do povo, de tribo seminômade para sedentária. Foi também ali que a mulher marcou presença indelével na importância complementação e culminância dos projetos realizados.

Papel da mulher nas tribos, clãs e famílias de Israel na época de transição

Em todo o livro de Gênesis encontramos memórias de um povo que viveu num certo período da história de Israel, possuindo valiosas lembranças do passado, transmitindo-as oralmente no seio das tribos, clãs e famílias bem como aos filhos. A reconstrução destas tradições é um trabalho delicado, minucioso e difícil, pelo fato delas não mais existirem, podendo ser encontradas em textos cuja redação deixaram seus vestígios no sistema judaico de parentesco.

Todo o contexto social se fundamenta na mishpahah, um grupo de pessoas no qual a relação genealógica entre pais e filhos transmite a descendência dos antepassados (Gn 10,38; 12,21) pela descendência patriliniar e onde as várias mishpahoth (plural) formavam uma tribo.

Inserida na mishpahah, encontra-se a beit 'av (casa do pai), o círculo familiar onde caracteriza-se pelas pessoas com residência comum. A mulher neste ambiente era obrigada a seguir o marido, passando a morar no seu clã. O clã se caracterizava por um agrupamento mais ou menos de cem pessoas, onde a terra e bênção de Deus se tornavam os principais motivos de quase todos os acontecimentos. A terra pertencia a todos, sendo o seu cultivo coletivo e a sua herança obrigatória.

Nesta época, tudo girava em torno da vida rural, e por isso muitos se incumbiam de tentar convencer aos que moravam na cidade a mudarem-se para o campo. Era a eterna briga da cidade contra o campo.

Suas leis fundamentam-se na Torá (a lei de Moisés). Em seu sistema jurídico, conseguiam conter a violência e manter a paz. Uma das leis mais usada e conhecida até hoje, é a Lei do Talião (olho por olho, dente por dente), onde matar significa morrer. Prescrita em Êxodo 21,15.22,23.

As famílias (beit 'av) "a casa do pai", eram organizações frágeis diante dos clãs e tribos; mais uma ramificação íntima ligada por parentesco ou linhagem. Nas famílias, o poder passava de pai para filho no melhor sistema patriarcal, onde a lei da primogenitura imperava. Cabia ao filho mais velho ser o chefe, senhor, dono e protetor de todos. Como nos clãs, o meio de subsistência era a agricultura.

Nos períodos de seca, doenças ou guerra, o mais forte ajudava o mais fraco na seqüência: tribos, clãs e famílias. Dinheiro eram emprestados sem a cobrança de juros, assim dizia a lei (Lv 25,36). Nestas famílias, o papel da mulher tinha uma importância vital. Sua função e obrigação era, obedecer e respeitar a um homem, fosse ele o pai, marido ou irmão. Ser submissa e ainda agradecer a Deus o privilégio de ter quem a protegesse. Ter muitos filhos era a sua meta, pois filhos são bênçãos de Deus e úteis para o trabalho, principalmente se fossem do sexo masculino, para perpetuarem o nome da família. Cabia também a mulher, cuidar do lar para que nada faltasse ao conforto dos filhos, marido e hóspedes.

Uma maneira de conhecermos um pouco a mulher deste tempo, é o que temos descrito em Provérbios 31,10-31. Esta é a mulher "perfeita" para os padrões da época. Uma Amélia? Cabia a ela: cuidar da plantação na ausência do marido, o que se tornava freqüente devido ao sistema de "corvéia" (trabalho forçado) em que os homens se ausentavam do clã por até três meses afim de prestarem serviços ao rei, ou por serem convocados para a guerra.

Apesar de toda negatividade envolvendo a mulher, muitas nos deixaram verdadeiros exemplos de vida. Sua garra, coragem e perseverança causam espanto e admiração à muitas mulheres de hoje. Um exemplo é Tamar (Gn 38), a qual, diante das injustiças e discriminação contra ela, foi capaz de lutar sozinha por seus direitos, usando as armas que possuía, sua inteligência, astúcia e feminilidade, no intuito de exigir justiça e imparcialidade de gênero, numa sociedade machista e preconceituosa.

Lá, a mulher era somente considerada enquanto fosse necessária e útil, e, de acordo com a conveniência, os fatos e a lei podiam ser distorcidos e modificados sem o menor escrúpulo.

Em alguns aspectos, as tribos se comportavam diferentemente dos clãs e das famílias. Eram organizações também fundamentadas na Torá, mas autônomas. Possuíam em média 1000 pessoas em seu espaço físico. Era dever das tribos, proteger e ajudar as famílias e os clãs, incutindo aos protegidos suas ideologias, valores e costumes, a fim de se manterem unidos. Isto incluía vida religiosa, social, política, o comércio, contatos de parentesco, casamentos etc. Semelhantes aos clãs e as famílias, as tribos também eram essencialmente agrícolas; portanto, o papel da mulher na visão tribal era semelhante ao que se vivia nos clãs ou na casa do pai.

Avançando na história

Nos primeiros capítulos de Gênesis, os quais não podemos esquecer seu gênero literário (poema), todos os acontecimentos ocorridos, falam bem de perto da importância da mulher, mas também da dominação do homem. - Deus a cria juntamente com o homem (Gn 1,27); - Deus a cria do próprio homem (2,22); - Ela se torna veículo de mudança social com poder suficiente para induzir e convencer o homem (3,6); - Ela recebe o título de "mãe de todos os viventes" (avah), Eva (3,20); - Ela será a companheira e auxiliar do homem em todos os empreendimentos (2,20); - Ela dominará os animais e tudo o que existe sobre a terra, juntamente com o homem (1,28b); - Ela recebe a terra de presente e tudo o que esta produz, em igualdade com o homem (1,29); - Ela recebe a bênção de Deus (destinada só para o homem e primogênito, Gênesis 27), a qual representa a prosperidade, fertilidade e felicidade (1,28a).

É notório percebermos que tais acontecimentos se deram a milhares de séculos e que no decorrer do tempo, tradições e costumes foram se modificando e se ajustando em conformidade com o povo. A mulher também foi avançando e se adaptando da melhor forma possível às situações surgidas.

Um dos temas mais polêmicos nos primeiros capítulos do Gênesis com referência a mulher, é o que diz respeito a criação e a queda. Como interpretar corretamente estes textos?

Para nós mulheres contemporâneas, que realizamos trabalhos pastorais em nossas comunidades, nas periferias como grupos de mulheres, vivendo e acompanhando o seu dia a dia rodeado de problemas, muitos visivelmente sem solução, qual a perspectiva de vida que podem esperar? Onde estas mulheres se encaixam no Projeto de Deus? O que a Bíblia nos responde sobre isso? Qual a esperança de futuro? Ufa!!! São muitos questionamentos...

De antemão devemos perceber que nas narrativas de Gênesis 1-11, são apresentados fatos reais de uma forma poética e teológica, mas é no fator histórico que queremos caminhar. Nossa análise vai fundamentar-se no contexto do texto. Quem os escreveu? Que razões tiveram para isso? Em que época? Dirigidos a quem? Quais as suas intenções? E o que eles nos dizem para hoje?

Percorrendo este caminho chegaremos bem perto de uma explicação convincente e correta, segura e coerente ao nosso tempo; sem fantasias, mistérios, incompreensões ou distorções. Deus quando criou o mundo e o ser humano, não fez discriminação e nem protecionismo. Ofereceu condições, inteligência e livre arbítrio aos dois, para que soubessem viver em harmonia, dignidade e amor, respeitando suas diferenças. Permitiu que a convivência transformasse estas diferenças em semelhanças, passando assim a tornarem-se um para o outro "carne da própria carne e ossos dos próprios ossos", ou seja, um só (2,23).

Acredito ter sido este o Projeto de Deus para a mulher e para o homem por ele criados. Com o decorrer do tempo, o ser humano com sua mania de grandeza e perfeição, foi tentando modificar esta estrutura de vida, e por isso decaiu e diminuiu a sua capacidade de amar e conservar os presentes de Deus. Tudo isso está mais do que comprovado pelos fatos presenciados no mundo hoje.

Descobrindo o véu do mistério

Para entendermos melhor o papel da mulher nos primeiros capítulos do Gênesis, conheçamos alguns fatos que vão nos aclarar melhor a compreensão dos mesmos.

No tempo do rei Salomão (970-931 a. C), o terceiro rei de Israel, possivelmente surgiram estes textos na forma escrita, sendo mais tarde (na volta do exílio babilônico, século VI a .C) relidos, como memória de um passado que não devia ser esquecido. Salomão, foi um rei sábio, inteligente, amigo das artes, literatura, da cultura de Israel e preocupado com a continuidade aos planos de seu pai Davi. Resolve convocar seus escribas e sacerdotes, ordenando-lhes a compilação e a sistematização dos escritos bíblicos encontrados, como também da construção do Templo (1Rs 2-11).

Avançando um pouco no tempo, e passados quatro séculos da tomada de atitude de Salomão quanto aos escritos da história do seu povo, chegamos ao século VI, lá pelos anos 540 a .C. Neste tempo, novamente todo o Pentateuco e incluindo o livro do Gênesis são reescritos, mas adaptados ao seu tempo. Era a volta dos exilados da Babilônia. O povo estava sem identidade, esquecido de suas raízes, sem direção, sem terra, e sem Deus.

Ninguém mais obedecia as Leis da Torá, e o que era pior, voltavam-se para cultos pagãos e práticas religiosas dos povos invasores da Palestina nos tempos primitivos: os assírios, egípcios e babilônicos. Um novo problema surgia: a miscegenação, interferindo no monoteísmo religioso israelita e na crença no Deus de seus pais, aquele que os havia agraciado como um mundo maravilhoso "paraíso" e a própria vida.

O povo a cada dia que passava enfraquecia mais na fé e esperança de dias melhores. O sofrimento, a saudade da terra, do Templo, dos bons tempos vividos na época dos patriarcas, minava dia a dia suas forças. Além da opressão dos dominadores por muitos anos no cativeiro, a estadia forçada e o sofrimento porque passaram, perderam completamente a esperança de ser novamente um povo forte.

Devido a tudo isso, quase todo o povo hebreu aderiu as crenças e facilidades oferecidas pelo povo do lugar, os cananeus. Aceitando favores do dominador, casando com suas mulheres, adotando suas crenças, aceitando seus costumes e tradições. A partir daí como ficaria sua responsabilidade perante Deus como "povo eleito"? O que fazer? Como voltar às origens? Como pretender o perdão de Deus? O que Deus esperava deles?

Com todas estas dúvidas no coração, e o remorso pela desobediência, foi que o povo do sexto século resolveu reler os primeiros capítulos do Gênesis; onde Deus lhes mostrava o seu amor incondicional, que não os abandonara, mas que somente exigia fidelidade e obediência às suas Leis, como também a preservação de tudo por ele criado.

Segundo a primeira narrativa de Gênesis 1,31 a 2,1-4a (seqüência bíblica), Deus criou a mulher e o homem ao mesmo tempo, abençoando-os e dando-lhes de presente toda a sua criação (1,27-30).

Na Segunda narrativa, Gênesis 2,4b-25, Deus cria o homem e em seguida tira dele mesmo a sua companheira. Qual das duas narrativas seria a mais correta e mais coerente? As duas, presumimos, pois ambas foram pensamentos, planos e revelações de Deus à comunidades distintas.

O certo é que nenhuma delas inferioriza a mulher, pelo contrário, a enaltece e lhe faz justiça, denunciando o modo pelo qual o dominador da época (Babilônia) apoderou-se dela com fins ilícitos e injustos. Foi através da mulher que o Estado iniciou sua campanha de persuasão. Os cananeus descobriram que ela seria o meio mais simples e seguro para chegar ao homem. Somente a mulher com seu "poder" poderia convence-lo pacificamente das vantagens e proveitos que os dois conseguiriam ligando-se ao Estado cananeu, transformando sua vida rural em sedentária.

Infelizmente, até hoje esta ilusão faz parte da vida de muitas famílias do campo. Os atrativos da cidade grande são sedutores, não deixando transparecer os inúmeros problemas e conseqüências deste ato; e quando acordam para a realidade, as vezes já é muito tarde.

Nestas narrativas de Gênesis, os redatores bíblicos usam a figura da serpente como símbolo do mal, do poder e dominação (Estado). Deus fala com o homem (3,9), a serpente com a mulher (3,1). Animal astuto e poderoso (Canaã?), o qual poderia dar o bote quando menos se esperasse. A serpente no mundo antigo sempre foi o símbolo do poder, da sabedoria e ciência. Foi considerada pelos cananeus, uma deusa muito forte e poderosa. Além dos cananeus, outros povos a cultuavam: egípcios e mesopotâmios.

A serpente representava algumas vezes a morte. "Eles planejam o mal em seu coração causando contendas, afiam a língua como serpentes e sob seus lábios existe veneno " Salmo 140,2-4. "E Deus enviou serpentes abrasadoras, morrendo muitos em Israel" Número 21,6. Todavia, em outras ocasiões podia ser o símbolo da vida. "E Deus disse: fazei uma serpente abrasadora e coloca numa haste. Todo aquele que for mordido e a contemplar, viverá". Número 21,7b.

Quando Abraão chegou a Canaã, já existia o culto à deusa serpente, vindo do Egito. Este culto pagão só foi destruído pelo rei Ezequias (727-698 a .C). empenhado na reforma cultural e na crença monoteísta do povo de Israel, ele resolve acabar com todos os santuários pagãos existentes em Canaã, principalmente os do norte. "Ezequias acabou com os santuários das alturas, quebrou as estrelas ou estelas (pedras erguidas por algum chefe ou autoridade religiosa lembrando suas proezas pessoais), cortou a estaca sagrada e fez em pedaços a serpente de bronze que Moisés havia confeccionado e que até aquele tempo o povo de Israel lhe queimava incenso" 2Reis 18,1-4.

A serpente, esta deusa tão poderosa, foi considerada também a deusa da fertilidade e da política. Por um certo período, o templo dedicado ao Senhor possuía em suas paredes e até mesmo no altar figuras desenhadas e estátuas de serpentes. O profeta Ezequiel (século VI a .C), narra estas abominações numa de suas visões sobre o pecado do Templo (Ez 8).

Segundo os redatores do Gênesis, somente Deus tem poder sobre a serpente. "E Deus disse a serpente (povo cananeu?): por que fizeste isso? (por que dominaste e enganaste o meu povo?), serás maldita entre todos os animais, tanto domésticos como selvagens. Realmente o cananeu tornou-se inimigo número um de quase todos os povos na antigüidade, tanto os que lá viviam como os estrangeiros que lá chegavam. "A mulher será tua inimiga ( a mulher aqui talvez represente o povo de Israel). A tua descendência e a dela serão sempre inimigas" (Gn 3,15a).

Estes dois povos (cananeus e israelitas) dificilmente conviveram em paz. "Mas eles (israelitas) te ferirão a cabeça (extermínio total) e tu apenas lhe ferirás o calcanhar" (3,15b). Segundo o redator deste texto, o povo ainda podia obter o perdão de Deus e erguer-se novamente. Mesmo considerada fraca aos olhos de Deus, a mulher seduz e convence o homem do que ela pensa ser o certo, e assim passa a ser a principal responsável pelo pecado original ou, o pecado das origens, a desobediência a Deus. A mulher, segundo a literatura da época, recebe a maior fatia de responsabilidade e culpa perante a humanidade (3,6-15).

"suas dores de parto serão multiplicadas" (Gn 3,16a). Realmente esta foi a realidade histórica da época. Após o israelita aderir ao sistema Estatal embevecidos por uma vida melhor, suas mulheres foram obrigadas por lei a gerarem filhos em quantidade, a fim de suprirem o exército, as baixas de guerra e a mão de obra no campo. Enquanto os homens cumpriam a lei da corvéia, ficando por diversos meses fora de casa, cabia as mulheres arcarem com todas as responsabilidades em sua ausência. Estas mulheres se sentiam usadas como máquinas procriadoras da morte.

Geravam seus filhos, criava-os até certa idade e logo os perdia para o Estado. Se fosse menina, ia para a lavoura e aos doze anos já se preparava para continuar a mesma vida da mãe, quando não era levada para o Templo como prostituta sagrada, onde ficava à disposição dos sacerdotes e pseudo-mensageiros dos deuses. Sendo um culto de fertilidade, a religião Cananéia estava familiarizada com a prostituição sagrada, difundida por todo o Oriente Médio.

No tempo do rei Davi (1010-970 a .C), grandes esforços foram empreendidos para melhorar a purificação da religião de Israel e entre eles o extermínio da prostituição sagrada masculina, mas continuando a feminina. No tempo do rei Ezequias (727-698 a .C), houve nova tentativa para o final desta prática, mas foi em vão. Os pagãos, donos da situação, ergueram no interior do Templo um símbolo da deusa Ishtar e em sua homenagem continuou a prática da prostituição sagrada, sendo até construída uma casa especial para ela.

Na reforma deutoronomista (século V a .C|), a lei de Israel atacou ferozmente às práticas cananéias e de outras religiões pagãs; assim, esta ofensa grave à mulher, foi erradicada totalmente do meio do povo. Todos os homens, quer israelitas ou não que tomassem uma mulher israelita como prostituta sagrada seriam mortos. "Ninguém se entregue à prostituição sagrada , nem dentre os filhas de Israel "...Deuteronômio 23,18.

Além de tudo isso, as mulheres eram dominadas pelos homens (Gn 3,16), sem direito a dar opinião, testemunhar ou tomar decisões por si mesma. Os homens chamavam esta situação humilhante de "proteção".

Em conseqüência à toda esta desobediência aos preceitos de Deus (rejeição às raízes como povo escolhido para servir de exemplo às gerações futuras, e transição da vida tribal e  clânica para a vida sedentária), foi que vieram todos os futuros sofrimentos para homens e mulheres. Isto é o que os escritores bíblicos convencionam chamar de "pecado original", ou seja, o pecado de origem do mal no ser humano, a desobediência a Deus.

Eles perderam o direito à terra (a partir daí ela pertencia ao Estado). Se o homem quisesse comer, teria que plantar e dividir sua colheita com o Estado como parte do tributo devido. "Até que acordes e percebas as conseqüências irreparáveis deste ato, sofrerão tu e tua família, mas um dia voltarão novamente à terra, pois é dela que foste tirado e somente a vocês ela pertence" (Gn 3,17-19).

Foi a partir daí, que a mulher, antes apenas amiga e companheira do homem, definido no hebraico pela palavra ish (mulher), passa a chamar-se Avah, ou Eva (mãe de todos os viventes). Aquela incumbida de iniciar uma nova geração de pessoas livres que valorizarão a criação de Deus.

Nós, as mulheres de hoje, somos as "Evas" do século XXI, tentando o mesmo que as "Evas" do século VI a .C, gerar e criar seres humanos que aprendam a valorizar o seu próximo, a proteger a terra onde vivem e a amar o seu Deus, o mesmo Deus do povo de Israel.

O difícil é que os "Adãos" de hoje, pouco se interessam por estes valores, pelo contrário, os mais atirados, corajosos e interessados na construção de um Novo Reino de Deus, são perseguidos, injustiçados e incompreendidos ou até mesmo eliminados. Nem precisamos citar as dezenas de mártires do nosso tempo, os quais buscavam apenas a realização do Projeto de Deus na terra. A justiça social, a igualdade entre os povos, o amor à natureza, o fim dos preconceitos, a liberdade religiosa, menos ambição e sede de poder e mais preservação do planeta.

Se nós mulheres, continuarmos com a capacidade de convencer e persuadir os homens de bem, aqueles que acreditam que nós os completamos, como se deu no mundo antigo, o futuro da humanidade continuará em nossas mãos e a maior responsabilidade também. Cabe a nós, cooperar para que os grandes líderes, e também aquele que Deus nos colocou na trilha da vida, para que ele aja dentro dos planos de Deus. Que armas usar? Acredito que as melhores serão: - Trabalhar junto com ele; - Partilhar todos os momentos, bons e ruins; - Perseverar sem medo nas realizações; - Ser exemplo pessoal e testemunho de vida; - Inserir-se nos meios sociais, políticos e religiosos; - Lutar com ele contra qualquer tipo de preconceito ou discriminação; - Amá-lo muito...doar-se um ao outro, caminhar unidos na mesma direção, com o mesmo propósito, e o mesmo amor a Deus.

A mulher deve ficar atenta ao excesso de proteção, cuidados exagerados e autoritarismo sutil por parte daqueles que se julgam protetores da mulher na sociedade; o que pode levar a um paternalismo intencional e responsável por uma alienação, comodismo e inércia. Até os ditados populares são preconceituosos quando se referem a mulher, muitas vezes até nos parecendo um elogio: Atrás (por que não ao lado?) de um grande homem tem sempre uma grande mulher". O que se traduz deste ditado, é que o autor não tenha sido uma mulher.

De tudo o que tomamos conhecimento acerca do papel da mulher no mundo, uma grande descoberta se fez: somente unidas a eles poderemos juntos mudarmos as estruturas negativas do mundo em que vivemos. Mesmo que os valores estéticos da beleza física e da juventude (tão frágeis e transitórios como o vento) pesem demais, a inteligência e a capacidade ultrapassam esses valores. Cabe a nós, mulheres de um novo milênio, buscarmos os melhores caminhos para atingirmos junto aos homens, a vontade de Deus: "que homem e mulher sejam um só".

Considerações finais

A teologia feminina e feminista que tem como base interpretar a Bíblia pela ótica da mulher, é usada a fim de resgatar o seu valor como pessoa e não no intuito de eliminar o homem ou se sobrepor a ele. Infelizmente, os textos do Gênesis por nós refletidos, são interpretados para justificar a dominação, o poder e a força do homem sobre a mulher, como também justificar seu sofrimento e submissão. Por isso procuramos estudá-los e interpretá-los buscando nas entrelinha o verdadeiro conteúdo, atitudes e ações das mulheres no mundo.

As mulheres no livro de Gênesis, são exemplos para todas nós hoje. Cabe apenas, procurar os pontos positivos de suas atitudes, aparar as arestas, tomar as devidas precauções para que os erros cometidos não se repitam, aplicando nos dias atuais suas vivências positivas, se não vejamos: - Eva => a representante coletiva do sexo feminino, nos transmite e nos ensina que, por mais forte e corajoso que seja o homem, há a necessidade de realizar e construir juntos (Gn 3); - Tamar => nos ensina a ser perseverantes, lutar com garra pelo objetivo a ser alcançado. Batalhar sempre contra o preconceito, buscando seus direitos e a justiça (Gn 38). - Sara => nos transmite humildade e companheirismo sem precedentes. Quando tudo parecia desabar ao seu redor, ela caminha de cabeça erguida (Gn 16). - Agar => nos transmite a humildade da pobreza, mas a força da fé. De classe social inferior não lhe tira o valor perante a sociedade e perante Deus (Gn 21,9-20). - Raquel e Lia => nos leva a refletir com cautela e serenidade o valor da mulher como pessoa ou como mercadoria e objeto, como terminar com este flagelo da humanidade que persiste até hoje (Gn 29).

Como Eva, Tamar, Sara, Agar, Raquel e Lia, somos mulheres vulneráveis e passíveis de situações muitas vezes bastante semelhante a delas, e não sabemos onde buscar respostas e soluções. Que tal procurarmos respostas no livro Sagrado? É através dele que vamos encontrar a forma correta de agir, o caminho certo a seguir e até profeticamente prever os efeitos e conclusões futuras. É na vivência destas mulheres e de homens da Bíblia que abriremos novos caminhos rumo a "nossa " terra prometida, o "nosso" paraíso. E assim participarmos juntos da construção do reino de Deus.