Analisando o Livro de Êxodo - Profª Dita

Javé conduziu Israel para fora do Egito. Em qualquer lugar na Bíblia onde encontremos esta afirmação ela tem o caráter de uma confissão de fé, sendo bastante freqüente em todo o AT, até Dn 9,15.

Historicamente, a saída do povo de Israel do Egito sob a liderança de Moisés, se deu no século XIII a.C, tendo sua redação atual a partir do século IV a.C.. Durante estes séculos, o relato foi-se transformando e se adaptando de geração em geração, para responder aos interesses do povo em seus diferentes momentos.

Ex 1,1-7. OS FILHOS DE ISRAEL (herdeiros da Palestina, hoje terra de Israel).

Estes são os filhos de Jacó (3º patriarca), que viveram no Egito e que herdaram a terra de Canaã:  1. Rubem 7. Benjamim 2. Simeão 8. Dan 3. Asser 9. Neftali 4. Judá 10. Gade 5. Issacar 11. Manassés 6. Zebulom 12. Efraim

Manassés e Efraim eram filhos de José e netos de Jacó. Ao seu primeiro filho José o chamou de Manassés e ao segundo Efraim Cf. Gênesis 41,51s. Estruturalmente o Egito era uma sociedade de classes, onde o rei vivia do imposto altíssimo cobrado do povo, pago em animais, cereais e trabalho forçado (corvéia).

No tempo do Êxodo o povo hebreu, como minoria estrangeira, foi usada pelo rei para realizar trabalhos forçados na construção de novas cidades. Eram subordinados aos funcionários egípcios. O povo se revoltava continuamente contra este Sistema. Por isso as tribos de Israel entendiam o relato do Êxodo como um Movimento Revolucionário de Libertação. Era o caminho certo para preparar uma nova sociedade sem classes, como o Deus de seus pais havia dito a Abraão, Isaac, Jacó e a Moisés no Sinai. Confira em: Dt 20,11. Js 16,10. Js 17,13. Ex 1, 11.

 No Tempo do rei Salomão (século X a.C.), o trabalho forçado foi organizado sistematicamente para a construção do Templo. 1Rs 5,27-32.

Ex 1,15-22 þ AS PARTEIRAS HEBRÉIAS.

Todas elas temiam a Deus, por isso não fizeram o que o rei lhes mandaram, ou seja,  matar todos os meninos hebreus. Pela não obediência destas parteiras o rei mudou a sua lei. A partir daquele dia os meninos seriam jogados no rio Nilo para que morressem. O propósito do rei era tornar o povo hebreu fraco e desorganizado, incapaz de unir-se contra ele tentando sair do Egito.

Ex 2,1-10 þ MOISÉS MATA UM EGÍPCIO E FOGE ...

Este relato continua ainda com o tema morte, contudo a ação de Moisés revoltando-se contra a opressão aos seus irmãos hebreus, é uma atitude de vida, semelhante o que fizeram as parteiras e a filha do faraó. Comprova-se mais uma vez que Deus está sempre ao lado do mais fraco. Moisés foge para Midiã, região desértica. Possivelmente a idéia de Moisés era que quando lá chegando e conhecendo bem o deserto tornava-se mais fácil guiar o povo. 

Uma outra curiosidade deste texto é que o sogro de Moisés aparece com três nomes diferentes. Isto se deu devido as diversas Tradições nas gerações diferentes:

1º) REGUEL à Tradição javista. à Ex 2,18. 

2º) JETRO à Tradição eloísta à Ex 18,1. 

3º) HOBAB à Tradição quenita (cananeus) à Nm 10,29.

Moisés e Séfora têm um filho a quem chamam de Gerson = estrangeiro (o que mais tarde será chamado o resto de Israel). Os três formam agora uma nova família no Egito em busca da Terra Prometida.

Ex 3 => DEUS SE DÁ A CONHECER ...

É o chamado a Moisés. Sua vocação profética como libertador do povo. A busca da terra que "Mana leite e mel" é uma utopia do futuro Reino de Deus, que bem mais tarde é desenvolvido pelo Messias, Jesus Cristo. 

Deus se dá a conhecer a Moisés sem nome. Deus não tem nome. "EU SOU O QUE SOU". O povo hebreu representava o nome de Deus com as quatro consoantes YHWH, que eles pronunciavam javé ou adonai. o verbo ser no hebraico tem a raiz hyh. Deus na sarça ardente não se revela apenas a Moisés mas a toda humanidade. O que mais tarde também vai se repetir em Pentecostes com os discípulos de Jesus. Javé na tradução portuguesa vem como SENHOR.

Ex 7-11 => AS PRAGAS, OU PRODÍGIOS DE DEUS...

Esta narrativa no meio literário é um resumo poético. As pragas consistem parcialmente em fenômenos naturais tipicamente egípicios, não impedindo que todos estes fenômenos tivessem a mão poderosa de Deus:

- Rãs e mosquitos, muito comuns nas cheias do Nilo.

- Escuridão, conseqüência das tempestades de areia.

- Gafanhotos, fenômeno comum nos campos egípicios.

- Chuva de granizo, também comuns no verão em todo o Egito.

O propósito das Pragas era: E disse Deus: "Eu te poupei para te demonstrar o meu poder, e para que o meu nome seja celebrado em toda a terra" Ex 9,16. O rei do Egito estava sendo desafiado por um poder sobrenatural. 

A última praga (a morte dos primogênitos), teve por finalidade impor Juízo contra os deuses do Egito. Disse Deus: "Hoje passarei e matarei todos os primogênitos, infligindo castigos sobre todos os deuses do Egito..." Ex 12,12. Isso levou muitos egípicios a reconhecerem o Deus dos hebreus. "Alguns ministros do Faraó que temiam a Palavra do Senhor, mandaram os escravos e o gado refugiar-se sob um teto" Ex 9,20. 

As pragas foram acontecimentos que até hoje têm levado os naturalistas e cientistas a reconhecerem nelas o sobrenatural, a mão de Deus.

Ex 12,1- 51 => INSTITUIÇÃO DA PÁSCOA.

Antes da última praga, os israelitas receberam ordens específicas de como comemorar a sua páscoa. Foram unidas duas festas populares cananéias para formar a festa religiosa mais importante dos judeus, A PÁSCOA.

Antes eram duas festas totalmente distintas:

1 - A festa dos ázimos (matssôt). É o mês das espigas maduras (abib). Caía na primeira lua cheia da primavera (março - abril). Após o Exílio será chamado de Nisã. Durante 7 dias todo o povo comia pães sem fermento comemorando o início da colheita da cevada, o primeiro cereal a amadurecer na primavera em Canaã. Ex 23,15; 34,18; 16,1.9.

2 - A festa pastoril. Celebrada pelo povo muito antes de Moisés. Era a festa das primícias dos pastores nômades que no início da primavera ofereciam "aos deuses" os primeiros filhotes (primogênitos), pedindo pela fertilidade do rebanho. Era uma comemoração não religiosa celebrada no deserto. Por esta razão os hebreus queriam sair do Egito com os seus rebanhos. Ex 7,16. O sangue aspergido na porta da tenda tinha a finalidade de afastar do rebanho os demônios e as pragas.

Depois que o povo passou a ser sedentário, e tendo a festa do rebanho adquirido um sentido religioso e anexada a páscoa, era celebrada no Templo. O sangue era derramado ao pé do altar, e a gordura queimada sobre o altar. 2Cr 35,10-19.

O sacrifício do cordeiro para o judeu tinha o simbolismo de libertação da escravidão do Egito, por isso Paulo vê no cordeiro imolado do Antigo Testamento a figura de Cristo. 1Coríntios 5,7s. O povo agora só vai celebrar a sua páscoa novamente quando chegar a Terra Prometida. Neste período nenhum menino é circuncidado no deserto, mas somente na chegada. Js 5,2-9.

Segundo Paulo, João e Pedro, Cristo é o cordeiro morto na cruz, para libertar os homens da escravidão do pecado. Por isso Ele é apresentado como o verdadeiro cordeiro pascal. Jo 1,29.36; 1Pdr 1,18s. É a comida que sacia e satisfaz, que vai tornar-se o alimento espiritual. v Carne (cordeiro ou cabrito). v Pão ázimo (sem fermento). v Verduras amargas. Ex 13,1-16; Dt 16, 1-8.

A observância da páscoa para o judeu, significa um lembrete anual de que Deus o libertara da escravidão egípcia. O mês de ABIB mais tarde NISÃ, marca ainda hoje o começo do ano religioso judaico.

Ex 13-19 => A ROTA DO SINAL

A viagem de Israel para Canaã, sem passar pelo Sinal, tinha sido muito usada por Abraão, pelos comerciantes, militares e outros. Não levava mais que 15 dias. O percurso pelo sul, o usado por Moisés, passando pelas cidades de Sucot (Piton), Etan, Migdol, Mara, Refidim, permitem várias teorias. Provavelmente quando o povo atravessou o que a Bíblia chamava de mar vermelho, seja onde estão os lagos amargos, na Bíblia hebraica é chamado de mar dos juncos (yam-suf). Jz 11,16. Posteriormente foi identificado como Golfo de Suêz ou Golfo de Acabá.

Hoje acredita-se que o mar dos juncos teria sido uma pequena enseada do Mar mediterrâneo (mar sibônico), ou a zona pantanosa do norte do Delta do Nilo, conforme Ex 10,19; 14,21-31; 1,40. Mesmo com toda a explicação lógica do ocorrido é certo que a providência divina esteve presente naquela maré baixa que permitiu o povo hebreu passar, e na maré alta que encobriu os soldados do faraó.

Os acontecimentos milagrosos se sucediam. Foi no deserto de SIN que Deus alimentou o povo com Maná e codornizes. Em Refidim brotou água da rocha, quando Moisés a tocou com o seu cajado.

A península do Sinai foi onde Moisés recebeu de Deus os mandamentos; ela é composta de um triângulo inverso, com 240 Km de largura na fronteira norte. As montanhas são compostas de granito elevando-se até o pico com cerca de 2.400 m. Continuando a caminhada, o povo saiu de Ramsés, caminhando até o monte Sinai, também chamado de Monte de Deus. Sinai é um apelido para Horeb. 

Havia duas explicações para este nome: Podia ter vindo da palavra SENEH = SARÇA, ou de um deus egípcio chamado SIN o qual possuía um altar lá. Sinai vem das tradições do sul, a javista e a Sacerdotal. Posteriormente ficou proibido a todo judeu chamar a montanha de Deus de Sinai, mas de Horeb.

A palavra HOREB = seco, desolado, vem de uma tradição do norte da Palestina, os Eloístas e Deuteronomistas. Supõe-se que Moisés tenha levado de Ramsés ao Monte Horeb três meses, lá acampando por um ano. A península do Sinai era controlada e dominada pelos egípcios. Seu subsolo era muito rico em cobre, malaquita e turqueza.

Ex 20 => OS DEZ MANDAMENTOS.

É TAMBÉM CHAMADO DE DECÁLOGO = DEZ PALAVRAS DE DEUS. A característica distintiva do Decálogo se torna evidente nos dois primeiros mandamentos. "Amar a Deus sobre todas as coisas e não terás outros deuses diante de mim". No Egito e Canaã se adorava a muitos deuses. As pragas já tinham sido dirigidas contra estes deuses egípcios como vimos antes. Ex 12,12. Como os cananeus também eram politeístas, o povo hebreu se destacava deles pelo seu monoteísmo. Nem mesmo uma imagem ou semelhança de Deus era permitido. A idolatria era a pior ofensa à religião de Israel.

As Tábuas com os mandamentos foram guardadas na Arca da Aliança, o maior tesouro daquele povo, mas que mais tarde foi perdida. Mas antes foi levada pelo povo à terra prometida sob a liderança de Josué. As leis contidas no Decálogo podem ser entendidas à luz das Culturas do Egito e Canaã. Casamentos entre irmãos de sangue era permitido, mas foram proibidos pelos hebreus.

As dez ordens de Deus para o povo, transforma as obrigações mais antigas do homem, fazendo delas os sinais de uma aliança particular de Deus com este povo. O decálogo é citado várias vezes por Jesus e pelos apóstolos, reconhecendo ser ele a Antiga Aliança de Javé com o seu povo. Dt 4,13. O Salmo 15(14), é uma analogia ao Decálogo. Ele traz uma lista de 10 regras básicas para alguém ser admitido no culto:

1. Ser honrado 2.Praticar a justiça. 3.Dizer a verdade. 4.Não caluniar os outros. 5.Não prejudicar o próximo. 6.Não insultar seu vizinho. 7.Desprezar os canalhas e infames. 8.Respeitar os que temem ao Senhor. 9.Emprestar dinheiro sem lucro exagerado. 10.Não se deixar subornar contra o inocente.

Ex 24 - 31. A ARCA DA ALIANÇA.

A travessia do Jordão é o segundo milagre de Deus para a libertação total do povo. É a chegada triunfal à Terra Prometida com a Arca da Aliança, sinal da proteção de Deus. A chegada marca também o final da vida nômade no deserto para a vida sedentária na cidade. Js 3. O povo entra por Jericó (a terra das palmeiras). Js 4,10-18; Js 6,1-21 carregando a Arca em procissão. Um dia ela é roubada pelos filisteus que a colocam como troféu de guerra no seu Templo ao lado do seu deus vencedor, Dagon. 1Sm 5, 1-12.

Parece que com o decorrer do tempo a Arca dos hebreus estava dando muito azar, assim sete meses depois eles resolveram desfazer-se dela, mesmo tendo de pagar por isso. 1Sm 6, 1-12. A Arca vai passar na cidade de Bet-Shemesh, indo depois para Cariat-Larim (situada a 16 Km de Jerusalém) para a casa de Abinadab 1Sm 7,1. O rei Davi manda busca-la levando-a para Jerusalém. 2Sm 6,1-5.

No tempo do rei Salomão, a Arca é colocada no Templo. 1Rs 6,19; 8, 1-9. No século VIII a.C. no tempo de Jeremias, a tradição conta que ele em 587 a.C., levou a Arca para uma gruta no monte nebo, tapando a entrada, segundo ele, ela só sairia dali quando Jerusalém fosse restaurada. Dt 34,1-4; 2Mac 2,1-8. Segundo Apc11,19, a Arca do Senhor está no Templo celestial. Depois deste episódio nunca mais encontraram a Arca.

CONCLUSÃO

Como livro de um povo a caminho, o Êxodo não é um livro acabado. Ele alimenta em todos nós uma libertação mais profunda fundamental e definitiva, e nos questiona: O Senhor está ou não está no meio de nós? Ex 17,7.

O "herói" Moisés, foi antes de tudo um servo de Deus. São-lhe atribuídos no Antigo Testamento um cântico, Dt 32,1-43, uma benção, Dt 33,1-29, e um salmo, Sl 90(89). Morreu e foi sepultado em Moabe. Dt 34, 5-7. O evangelista Lucas também nos conta algo sobre Moisés. Em Atos 6.

Um hermenêutica importante e imprescendível nos deixa o estudo do livro do Êxodo: QUE O NOSSO CAMINHAR HOJE SEJA SEMPRE EM BUSCA DA LIBERTAÇÃO...

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