É TEMPO DE ARRUMAR “A CASA”

Revista Rainha Novembro/2003

 

A chegada de uma criança na família causa um reboliço agradável e um tumulto, no bom sentido. Todos se preparam. Os móveis mudam de lugar, abrem-se espaços na casa, vai-se às compras, consulta-se um especialista para ver se tudo está bem, é o assunto preferido nas conversas; enfim, todos aguardam a chegada do novo membro com muita ansiedade. A alegria se confunde pelo fato de ser um evento ímpar na vida da mãe, pai, avós, tios e até vizinhos. Mas por que tudo isso? De alguma forma estas pessoas  antecipadamente se identificam com a criança que nem viram ainda mas têm certeza de que a sua vinda trará enormes alegrias.

Em se tratando da chegada do Filho de Deus ao mundo, não podia ser diferente. Tudo se transforma. Em nosso país acontece a primavera, as flores se abrem perfumando os jardins e alegrando a vida. Na Igreja também acontecem mudanças: É chegado o tempo do Advento. Tempo de preparação, hora de arrumar a casa (nosso coração) para receber a criança mais esperada em todos os tempos, Jesus Cristo.

            O Advento é uma festa ligada ao nosso calendário litúrgico desde a metade do século IV em algumas localidades da Europa. Mais tarde tornou-se uma festa popular e acoplada ao Calendário Litúrgico por sugestão do papa Gregório Magno. Lá pelos anos 590 é celebrada por toda a Igreja, se constituindo numa espera de quatro semanas. Este ano tem início no dia 30 de Novembro indo até o dia 21 de Dezembro.

Nós, os cristãos católicos, aproveitamos estas quatro semanas que antecedem o natal, para colocar “nossa casa” em ordem. É tempo de preparação para o nascimento de Jesus. Comemoramos a chegada do Jesus menino, o Filho de Deus entre nós, como também por meio dessa lembrança, voltamos nossos corações para a segunda vinda do Senhor, no final dos tempos, o que comumente chamamos de Parusia ou Epifania, palavra que vem do grego significando “aparição de um Deus”. São Lucas usa esse vocábulo em seu evangelho colocando-o na boca de Zacarias (pai de João Batista) no Benedictus (O canto de Zacarias). Epifania aqui está no sentido de brilho, luz. Graças ao misericordioso coração do nosso Deus pelo qual nos visita, o Astro das alturas (nosso Messias Jesus Cristo), aquele que nos traz a luz, o rebento que surge do tronco de Davi, que veio para iluminar  os que jazem nas trevas e na sombra da morte...(Lc 1,78-79).

Por este duplo motivo, o tempo do Advento representa expectativa, alegria, bem-estar, esperança e certeza da primeira vinda (que já aconteceu pelo seu nascimento),  e da segunda (que aguardamos – “Quando tiver ido e tiver preparado um lugar para vós, voltarei novamente e vos levarei comigo para que, onde eu estiver, estejais também vós”. Jo 14, 3)) pela sua promessa.

Um grande estudioso e pesquisador do Advento nos conta que existe uma Lei fundamental presente na liturgia dos quatro domingos. Diz ele que os acontecimentos salvíficos presentes na espera do Salvador só podem ser objetos de uma celebração verdadeira, na medida em que se tornam realidades históricas. É por esta razão que devemos celebrar a vinda do Senhor, seu nascimento entre nós, sua morte, ressurreição e sua ação no meio da Igreja pela manifestação do seu Espírito em Pentecostes,  na vida de cada um de seus filhos que já se foram (a quem chamamos de  santos) e na de todos nós que, identificados com a existência de cada um deles, buscamos também a cada dia o caminho da santidade.

Contudo, como já dissemos, à época do advento renovamos nossas esperanças na segunda vinda do Cristo, pois a redenção definitiva não é ainda objeto de celebração, mas de espera, pelo fato de que ainda não se realizou, mas temos a certeza que este dia virá.

É bom estarmos atentos e atentas às mensagens que os Evangelhos dos quatro domingos nos trazem como orientação:

- No primeiro, São Lucas nos fala da segunda vinda do Senhor e nos aconselha a sermos vigilantes. Ele contempla a Epifania (Parusia) do Senhor como um acontecimento alegre, uma libertação definitiva.

- No segundo, São Lucas nos informa sobre a primeira vinda do Senhor, citando a penitência de João Batista, o precursor do Messias. Coloca no texto as palavras de Isaías, o profeta do Exílio: Preparai o caminho para o Senhor, aplainai suas veredas... (40,3-5). É como se nos dissesse: arrumem com cuidado seus corações, preparem seus pés, abram bem seus olhos e ouvidos, o menino Jesus está chegando para salvar o mundo.

- No terceiro, As transformações saltam aos olhos; o austero roxo dos paramentos do sacerdote, são trocados pelo rosa, significando a alegria antecipada do natal. Segundo um grande liturgista, Pe. Roberto (palotino) da paróquia São Paulo Apóstolo em São Paulo,  a liturgia brasileira aconselha que os padres usem paramentos rosa nos quatro domingos, em sinal de alegria e esperança e para diferenciar-se da Quaresma (onde os paramentos são roxos durante os quarenta dias, significando penitência e conversão), o que concordamos plenamente. É uma excelente sugestão aos padres que ainda usam o roxo trocarem pela alegria do rosa, o que acham?

            São Lucas desta vez nos coloca a figura de são João Batista em relação à figura do Messias prometido. O profeta do deserto está ensinando a um grupo de pessoas que o caminho certo a seguir é o Messias (Jesus Cristo) que está prestes a chegar trazendo uma nova vida para todos, incluindo um novo batismo, não só nas águas mas também pelo fogo purificador do Espírito Santo.

- No quarto, Estamos bem próximos do Natal, o nascimento do Senhor. São Lucas desta vez nos fala da anunciação do anjo a Nossa Senhora e de sua visita solidária a sua prima Isabel. Nesse texto se unem  fé, a maternidade  de Maria e a chegada do Messias. Isabel logo que vê a prima reconhece que o fruto do seu ventre abriga o Filho de Deus “Quem sou eu para que me visite a mãe do meu Senhor?...(Lc 1,43).

            Assim amigos, vamos nos preparar muito bem nesse Advento, para receber em  nossos corações essa GRANDE LUZ que é Jesus. É necessário não permitir que os preparativos corriqueiros para o natal não se resumam apenas nos planos de compras, presentes e viagens, mas na certeza de que Deus nos ama e por isso vai nos presentear com o seu bem mais precioso, seu único Filho. “O Verbo se fez carne (humano) e armou sua tenda entre nós”. Jo 1, 14. Isto não é maravilhoso? O mistério da encarnação  se torna real, é Deus que vem morar conosco, o Emanuel do profeta Isaías (7, 14).

            É importante assim nos lembrarmos que a espera do Natal se inicia em nossa vida com uma nova história, de promessas cumpridas, agradecimento, conversão e júbilo. Mais uma vez pensemos: está na hora de arrumarmos “a casa”, para recebê-lo, afinal, Ele está em busca de casas (corações) para habitar: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos juntos”. Ap. 3, 20.

 

Vamos refletir?

- Quais são minhas prioridades  e como estou me preparando para a festa do Advento?

-  Como estará minha casa quando Ele chegar?