O cerco de Jericó - Profª Dita

Jericó, em hebraico Yerihó, é a cidade considerada um oásis pela sua exuberância de árvores frutíferas e ornamentais. Talvez seja a mais antiga cidade da Palestina (8.000 anos a .C), como também a mais baixa do mundo, 350m abaixo do nível do mar mediterrâneo. 

É chamada na Bíblia a "cidade das palmeiras" (Dt 34,3; Js33,13; 2Cr 28,15). Foi conquistada por Josué a mando de Deus (Js 5-7). Lá viveram os profetas Elias e Eliseu (2Rs 2). Nela também, Jesus foi batizado e tentado, curou dois cegos e visitou Zaqueu que lá residia (Mt 4,1-13; 20,29; Lc 19,1-9). 

Qunran, a cidade dos essênios, é vizinha de Jericó.

Quando Moisés morre, entrega a Josué a missão de continuar com o grupo saído do Egito em busca da terra prometida e eles adentram no país pela cidade de Jericó. Supõe-se que a ocupação a Canaã tenha se dado em vários estágios e num longo período de tempo, e não apenas o grupo liderado por Josué. Em Gn 12, possivelmente com Abraão seja a primeira ocupação, no século XIX a. C.

Mais tarde os grupos foram-se multiplicando, pelos patriarcas Isaac e principalmente Jacó, com suas esposas Lia e Raquel e suas servas Zilpa e Bila. O grupo de Raquel apresenta na Bíblia histórias com sagas heróicas e românticas ligadas a figura de Jacó, os quais possivelmente chegam a Canaã pelo final do século XII a .C.

Em Números 13-14, é narrado sobre a tribo de Caleb ocupando a cidade de Hebron (sul da Palestina), o que nos mostra que havia outros grupos não israelitas chegando à Canaã.

Ocupação Pacífica? Conflitiva?

Depende de qual grupo estejamos falando. O certo é que há evidências de lutas pela posse da terra. A destruição de Betel (Tell beit mirsim), Láquis, Hazor e Meguido, confirmam. Outro acontecimento que nos chegou, é o fato de que as tribos de Rúben, Simeão e Levi, foram quase dizimadas pelos cananeus e filisteus. Incluindo também as tribos de Dã e Neftali. O que se tem notícia é que depois de instaladas as tribos de Israel em Canaã por Josué, outros povos foram aceitos como membros.

É em Josué 6,1-17, que encontramos a tradição da destruição de Jericó por ele e seu grupo com a intervenção de Deus. O certo é que esta história das ruínas da cidade, no período pós exílio, impressionava o povo e mantinha viva a tradição, alimentando a fantasia e o sonho de liberdade e poder. 

O "Cerco de Jericó" tornava-se um modelo da fidelidade de Javé para com o seu povo, o que mantinha viva a esperança e suas metas futuras de convivência com outros povos.

As verdades arqueológicas

Escavações realizadas de 1930-1936 em Jericó, buscavam comprovações se Josué realmente derrubou as muralhas da cidade com apenas o som das trombetas e a força de Deus. Foram descobertas algumas muralhas no local e consideradas israelitas, com possível data de 2100 a 1800 a .C., e outras que poderiam ser de 1600 a 1550 a .C. 

Segundo os arqueólogos, estes muros foram destruídos violentamente como se tivesse ocorrido um terremoto.

De 1952 a 1958, novas escavações se deram em Jericó, constatando novamente a destruição de suas muralhas. Desta vez foram encontrados numa profundidade de seis metros, sete crânios humanos e uma nova muralha com data entre 6800 a .C. Foram encontrados também vestígios de cabanas construídas por nômades. O sistema de muro encontrado, era muito complicado, mas a tecnologia arqueológica encontrou também vestígios pela destruição de fogo.

O mistério de Jericó

Ao considerarmos os véus encobrindo e envolvendo muitos dos relatos bíblicos incluindo entre eles a queda das muralhas de Jericó, é possível que numa visão historicizada, nos surja a questão: o que sabemos historicamente destes textos? Quase nada. Várias regiões da terra e principalmente no Oriente, conservam seus mistérios e enigmas. Seus vestígios raramente pertencem ao campo da arqueologia, mas da teologia.

Nossos conhecimentos de civilizações mais antigas apontam em torno de 4000 a .C, muito pouco para desvendar os mistérios bíblicos. Quando Josué chega com seu grupo a Canaã (2300 a .C ?), supõe-se que esta cidade teria 6 a 7 mil anos de existência se enquadrando na idade da Pedra. Incrível perceber que houve civilização nesta época com condições de alcançar tão elevado nível cultural, cujo marco externo era a cidade de Jericó.

No Novo Testamento se lê: "os muros de Jericó tombaram pela fé em apenas sete dias" (Hb 11,30), o que nos faz pensar que o autor desta carta tinha em si a memória histórica e teológica do fato juntos, o que pra nós se torna de difícil compreensão.

Jericó, mesmo estando a um nível bem baixo da terra, foi erguida sobre um morro, o tell es - sultan. Floresceu comercialmente entre 2900 e 2300 a .C, nos primórdios da idade do bronze. Naquela época foram erguidos os possantes muros fortificados, circundando e protegendo a cidade do povo nômade que vagueava pelo país e invadia as cidades

Livro de Josué - 6,1-16

É neste livro e principalmente no capítulo 6 que encontramos a história das muralhas de Jericó. Supõe-se ser um documento Javista e Eloísta entrelaçados conjuntamente. O livro narra uma promessa da possessão da terra feita "aos pais". Ele relata a conquista e a divisão das terras entre as tribos de Jacó por Josué.

O texto que se encontra na Bíblia Hebraica é mais longo do que o que se encontra na LXX. Nesta última foram tiradas as repetições.

Mesmo em sua forma primitiva, esta narrativa não pode ser considerada histórica, pelo menos na forma que conhecemos, contudo não se exclui a idéia que possa ter havido uma tomada em Jericó não tão pacífica cf. Josué 14,11.

Este texto possivelmente foi reescrito no século VI ou V a .C, no período pós exílico no território de Judá, onde o povo convivia com estrangeiros tentando viver pacificamente e faze-los ver quem era verdadeiramente o seu Deus. Assim se contava os relatos das vitórias dos israelitas contra os inimigos. Era uma tradição comum. Vejamos e comparemos 2 Samuel 12, 31 com 1Cr 20,3 escrito 400 anos depois. Em tudo isso o objetivo era apenas chamar a atenção dos não israelitas para o fato: o povo não deve ter medo, Deus está com eles. Preservem sua fé e tudo se resolverá".

Alguns símbolos litúrgicos ecoam desta memória de milagre: A trombeta, como instrumento de guerra e de liturgia (Jz 7,8-20). O grito (Lv 23,24; 2Sm 6,15), também como clamor de angústia e como grito de guerra.

Memória teológica

Historicamente Jericó já havia sido destruída quando surge este escrito (século VI a .C), porém, aqui temos algo muito mais importante, um memorial litúrgico numa comemoração festiva de caráter sapiencial e soteriológico (salvação). É como diz um provérbio popular judeu: " a memória é o pilar da redenção e o esquecimento é o começo da morte". 

A cada época onde o povo sofria e não via saída para seus problema, voltavam sua memória ao passado e nele se identificavam com suas personagens, suas histórias heróicas e seus momentos de íntima comunhão com o divino.

Bibliografia usada

BORN, A Van Den. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Vozes, Petrópolis, 1977, p. 762-64

SANCHEZ, Tomás Parra. Dicionário da Bíblia. Editora Santuário, aparecida São Paulo, 1997.

FOHRER, Georg. História da Religião de Israel. Paulinas, São Paulo, 1982, p. 65-71

SELIN - FOHRER. Introdução ao Antigo Testamento, vol. I. Paulinas, São Paulo, 1986,

STUMPF, Hans E. A aventura nos mistérios bíblicos. Melhoramentos, São Paulo, 1972, p.66-87.

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