CHAMADOS A PESCAR

Os vocacionados nos escritos do Novo Testamento são tantos, que temos receio de omitir pessoas que, talvez no seu parecer, sejam mais importantes da que escolhemos para esta reflexão. Vamos falar de Simão, portador de qualidades excepcionais, mas também com defeitos concernentes a muitos de nós.

Era pescador de profissão, muito querido por Jesus, apesar de suas fraquezas, recebendo dele o apelido aramaico de Kefas (rocha ou pedra), vindo a ser chamado Pedro. Este nome designa um material indispensável nas antigas construções, e ter Jesus assim o chamado, principalmente em virtude de seu papel exercido na comunidade primitiva, indica que a obra iniciada por ele precisava ser realizada por homens de caráter forte e fé inabalável "Por isso eu lhe digo, você é Pedro (rocha), e sobre esta pedra construirei a minha Igreja e o poder da morte nunca poderá vence-la" (Mt 16, 18).

Quando ouvimos a palavra pescador, imaginamos hoje alguém sofrido que entrega sua vida e dos seus ao balanço das ondas do mar, às intempéries, ao perigo e insegurança, em busca do alimento e meios de subsistência; mas quando associamos o termo "pescador" relacionando-o com a vida de Pedro, o qual tão bem conhecemos dos relatos bíblicos, nos soa como algo sublime, uma profissão que se estende ao imaginário de cada um como algo profundo e com sentido de vocação e missão.

Este homem viveu intensos desafios de si mesmo, procurando forças no amor a seu Mestre e na missão por ele confiada, mesmo algumas vezes tendo a sensação de que os problemas e desafios ultrapassavam suas forças.

O medo foi um sentimento que conviveu ao longo de sua vida como discípulo e seguidor de Jesus. Mas, este medo deixou de existir quando ele "ouviu" a voz do seu Mestre: "Não tenhas medo" (Lc 5, 10), levando-o a acreditar que Jesus estaria ao seu lado em todos os momentos, não permitindo que ele se deixasse vencer pelos seus limites e fraquezas, podendo dar vazão a sua fé tão escondida, mas que agora aparece em conseqüência dos novos rumos que toma sua vida.

Jesus ordena a Pedro e a cada um de nós que avancemos para águas mais profundas lançando "nossas redes" (Lc 5, 4), que avancemos sem medo, com fé e confiança em Deus.

Segundo a "Carta Apostólica" Novo Milênio de João Paulo II, avançar é superar, é romper com atitudes de comodismo, buscando iniciativas concretas com entusiasmo e vontade de servir.

Retornamos ao que dissemos em nossa reflexão anterior: O chamado do pai nos leva a novas atitudes de vida, a uma escuta e aceitação de nossa vocação batismal, a qual nos leva a missão.

A atitude de Pedro nos testemunha a verdadeira vocação do cristão: estar disponível para seguir Jesus (Lc 5, 11). Sermos "pescadores", evangelizadores, missionários e apóstolos do Reino, trabalharmos juntos (comum/união) numa verdadeira comunidade (com/unidade), ajudarmos uns aos outros, partilharmos o companheirismo, a solidariedade e a "pesca" (evangelização).

Segundo estudos da CNBB não é coincidência que o verbo existente em Lucas 5, 10 nos permite traduzir "pescadores de homens" para "pescar vivos", "capturar pessoas para a vida". O estar com Jesus, colocando em prática nossa vocação, nos leva a crer que "os pescadores" ou evangelizadores passam a ter uma vida plena em abundância como o próprio Cristo disse: "Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância". (Jo 10, 10).

Como Pedro, Jesus nos chama a lançarmos a rede, não termos medo, mas sabermos que o segui-lo trás determinadas rupturas em nossas vidas, às vezes radicais como a desse apóstolo. Deixar a "barca", é deixar para trás valores muitas vezes imprescindíveis, mas necessários.

A resposta à vocação sempre vai exigir muito de nós, mas também nos questiona o serviço na comunidade, as diferenças culturais, a diversidade de vocações e ministérios, a nossa conduta de juízo e a nossa forma de viver em harmonia.

Hoje os "pescadores" somos nós, batizados e vocacionados a chamar, evangelizar, acompanhar e vivenciar o imenso amor de Deus em nós.