DEUS NOS FALA, SE COMUNICA CONOSCO POR MEIO DE HOMENS À MANEIRA HUMANA

 Exegese bíblica

ESTUDO DO GÊNESIS 1-3

(Curso da autora na Diocese de Santo André - SP)

 

Disse um estudioso da Bíblia: “os católicos tem grande respeito pela Bíblia e o demonstram permanecendo o mais distante dela”. A Bíblia pode a princípio nos parecer um livro de difícil compreensão, isto porque é um livro religioso, mas é também histórico, pois ela traz muita informação sobre sua época, mesmo não sendo essa sua finalidade.

“É a Palavra de Deus que me atualiza e não eu que atualizo a Palavra de Deus”. Atualizar é se perguntar: O que Ele quer dizer pra mim hoje? Para fazermos esta pergunta  a nós mesmos, primeiro temos que estar em comunhão com Deus e com a sua Palavra.

Segundo o Pe. Contieri (estudioso da Bíblia), Infelizmente nós não cremos em Deus, mas nas imagens que fazemos dele. Gostaríamos de um Deus que ocupasse o nosso lugar, fizesse tudo por nós. Essa é a grande tentação do nosso tempo e, quando Deus não faz, achamos que é injusto ou que não nos ouviu. E onde está o livre arbítrio que Ele próprio nos deu? Deus nos criou livres, jamais ele poderia intrometer-se nessa liberdade.

Dt 30 (lei do povo judeu) nos dá uma luz. A chave teológica do capítulo são duas palavras:

“Voltar” - que é repetida sete vezes nos v. 1-10 (o povo está sem identidade, perdido, precisando de conversão ao retornar do Exílio que é o pano de fundo), e

“Cordial” -  palavra que aparece oito vezes nos v. 1-14. Cordial vem de cor= coração, sede do pensamento, das decisões e do amor.

O contexto desse texto ultrapassa  simplesmente o fato da repatriação. Há esperança de voltar à pátria, mas primeiro é preciso converte-se também ao Senhor, para que Ele esteja junto. Sl 85,7 nos diz: Não voltarás para nos vivificar, e para teu povo se alegrar contigo? Mostra-nos a o teu amor , ó Javé e concede-nos a tua salvação. A aliança com Deus é o que torna possível a conversão.

A nossa liberdade é respeitada por Deus. Mesmo nos tendo criado, Ele não nos obriga a estar com ele. Temos o direito de dizer sim e não . Nossa Senhora disse sim, mas o profeta Jonas disse não. Se abrirmos espaço Deus nos enche da graça pelo Espírito Santo. Poderíamos até dizer um não definitivo a Ele, isso é estar no inferno, é a morte eterna. Perder a vida eterna é perder o direito de estar com Deus.

O livro do Gênesis até hoje é o mais lido e o menos entendido, por quê? Segundo alguns, por possuir um texto muito variado e complexo, será? Talvez porque busquem nela explicações ou respostas ligadas à Ciência. O texto bíblico não tem a pretensão de ser um texto científico, mas fazer uma afirmação teológica: Mostrar a história da salvação. Portanto, ela não discute e nem confronta a ciência.

Devemos compreender que a  comunicação da Bíblia não é estática, certinha, mas se dá através dos desdobramentos históricos. Nela, a evolução humana se dá  em meio a alegrias, conflitos, guerra, injustiças, mas também na busca da misericórdia de Deus.

É certo que ao longo de toda Bíblia vamos encontrar nomes divinos estranhos, espíritos, demônios, teofanias e visões, idolatrias e formas diferentes de cultos. Os “sinais” de Deus estão envoltos nos acontecimentos históricos que são reais, embora muitas vezes nos pareçam por demais fantasiosos ou mitológicos, como é o caso do Gênesis.

A finalidade dos relatos do Gênesis não é explicar o que aconteceu nas origens, mas caracterizar o homem e a mulher no contexto da Criação, é portanto uma “metaistória”, ou seja, o identificador da raiz. É um reflexo sobre a realidade histórica. Quem escreveu os textos da Criação, não foi testemunha ocular dos fatos. O texto não descreve isso. Eles falam de um outro tempo. A Criação não diz respeito ao passado, mas ao futuro, isto é escatológico (fim dos tempos e da humanidade).

É preciso evitar ler esses textos como o relato de um fato, mas a transmissão de uma mensagem. Vejamos o que o salmista nos diz sobre a criação (Salmo 8).

O profeta Isaias fala do paraíso ligado a era messiânica (11,6-9), mostrando a sabedoria de Deus.

O importante para um bom entendimento do Gênesis é não esquecer duas coisas:

1- Que do 1-11 são poemas que os judeus antigos chamavam de Misnah (aprendizagem por repetição).

2- Que do 12-50 são narrativas históricas.

Os três primeiros capítulos do Gênesis estão inseridos num bloco maior, o Pentateuco (os cinco primeiros livros). São frutos de uma grande campanha literária que se perdeu no tempo. Hoje não temos nada do que seja original, apenas cópias. Por longo tempo foram mexidos, modificados, acrescentados, retirados etc, até o  Concílio de Jânia no ano 100 d.C quando foi decidido pelos judeus: agora não se pode mais mexer...o que está ficará para sempre. O texto grego (septuaginta) é bem diferente do hebraico, não só pelos 7 livros a mais, mas também por possuir 2700 palavras a mais.

Gênesis 1,1-24a – (Primeiro relato)

Para entendermos melhor os três primeiros capítulos do Gênesis temos que penetrar na intenção do autor e na imagem que o texto transmite sobre Deus. Isso é o que cientificamente chamamos de  Exegese (interpretação do texto no contexto). É nosso objetivo transmitir pelo estudo destes 3 capítulos, que os relatos da Criação nos introduzem no Projeto de Deus para o ser humano. O estudo do Gênesis é para ajudar a aumentar a nossa fé. Diz São João: “Jesus realizou tantos ´sinais´...para que crendo tenhamos vida eterna” (20,30-31).

Devemos portanto, nos permitir entender a Palavra de Deus facilitando e deixando que ela amadureça a nossa fé, e um símbolo forte para isso é o nosso “Ato de fé”... Quando dizemos: creio em Deus Pai...criador do céu e da terra..., estamos rezando o Gn 1,1.

O Gn 1, não foi a primeira fala (sentido oral) do povo(séculos XIX, X e VI a.C, Exílio), antes eles tiveram a experiência do Êxodo no monte Sinai (século XIII a.C).

A fé no Deus criador veio depois da fé no Deus libertador (século XIII a.C). No Exílio tiveram que refazer a sua história. Um dia por semana (o sábado), precisava ser consagrado ao Senhor e a restauração da sua obra, o Templo.O povo retornou “a terra prometida” sem identidade, sofrendo por se sentir rejeitado por Deus. Achavam que Ele os tinha abandonado e, portanto, estava muito distante...Por isso aqui começa mais fortemente a intersecção dos anjos. São eles os mensageiros do Senhor.

 A história das origens segundo o Pe. Contieri, é trinitária:

Ø      A criação é do Pai “No princípio criou Deus os céus e a terra” Gn 1, 1.

Ø      Tudo foi criado por meio do Cristo e para o Cristo “Tudo foi criado por Ele e para Ele. Ele é anterior a tudo...” Cl 1, 15 - 20

Ø      E o Espírito Santo é o que une o Pai ao Filho. Une a criatura ao Criador. “...eis que os céus se abriram para Ele. Viu o Espírito de Deus descer como uma pomba sobre ele, e uma voz vinda do céu dizia: - Este é meu filho predileto no qual encontro toda minha satisfação”. Mt 3, 16,17. Assim: tudo foi criado pelo Pai, por meio do Filho e no Espírito Santo. O Filho é o mediador.

        O Gn 1,1 foi escrito a partir da imagem da água. O autor relata a criação do Universo: luz, terra, mar, astros e os seres que vão povoá-lo. É inútil querer entender aqui “o espírito de Deus” como um vento comum, pois isso contraria todas as alusões e citações da Bíblia inteira, sem nenhuma exceção. Possivelmente o texto foi escrito na Babilônia, no Exílio (hoje região do Iraque) e terminado na Palestina. Lá na Babilônia, o povo sofria muito pelo excesso de água, quando os rios Tigre e Eufrates transbordavam pelas chuvas, inundando tudo. O autor ao escrever o texto tinha a Babilônia em sua mente (século VI a.C).

 O texto do relato 1, é uma proto-história (antes da história). O autor vive na história (Exílio), contando a história do princípio da criação (memória). O povo em crise se perguntava: O que foi feito da aliança que fizemos com Deus? Eles refazem sua trajetória e se remetem à proto-história olhando o texto do Gn 2 já escrito há mais de 400 anos. O certo é que o primeiro relato (Gn 1) é mais recente e o Deus é mais distante pela sua própria condição. Possivelmente tem dois grupos escrevendo: os sacerdotes (P) e os eloístas (E).

 Comparando os textos:

Ao efetuarmos uma comparação dos dois relatos da criação, observamos:

a) No primeiro relato (Gn 1,1-24a, tempo do Exílio), a criação se dá pela Palavra (verbo). No capítulo 1 do evangelho de João, o mesmo tema é retomado e, desta vez, a palavra se faz ação na pessoa de Jesus (por Ele – para Ele – e Nele tudo foi criado).  Deus cria tudo e, por final, o homem e a mulher juntos, não diz como.

 O relato da criação tem a ver com o Decálogo: lá aparecem 10 vezes e Deus disse: v. 3. 6. 9.11. 14. 20. 24. 26. 28. 29.

 A conclusão de cada obra é constituída por um juízo: e Deus viu que era bom. Narra também uma ordem temporal: e se fez tarde e manhã... Para o autor deste capítulo tudo o que acontece é pela Palavra de Deus, depois vêm as ações. 6 verbos em hebraico são colocados como destaque:

 V. 4- Deus separa a luz..

V. 7 – Deus separa  as águas.

V. 9 – Deus ajunta as águas...

V. 5-  Deus chama  a luz dia...

V. 8 – Deus chama  o firmamento céu...

V. 10 - Deus chama aos continentes, terra...

V. 7 – Deus faz o firmamento...

V. 16 – Deus faz os luzeiros...

V. 25 – Deus faz as feras...

V. 17 – Deus coloca os luzeiros...

V. 22.28 – Deus abençoa...

      No segundo relato (Gn 2,4b-25), Deus primeiro cria o homem... e há um processo para a mulher ser criada. Deus é um jardineiro, um oleiro, um trabalhador. É um Deus que está sempre por perto. É um relato do tempo de Salomão e reescrito no Exílio.

 No relato 1 (século VI a.C), como já vimos anteriormente, o culto já é organizado, pois é sugerido a  santificação do sábado (2,3). Havia outra determinação para que o sábado fosse guardado: em Dt 5, o sábado não é para lembrar a criação mas a saída do Egito, texto posterior e possivelmente  eloísta ou sacerdotal, com tradição do Norte.

 Jesus em seus ensinos usa esse texto. O sábado não é um dia para lembrar a criação mas a saída do Egito, a libertação, de lembrar da misericórdia de Deus. Em João 5,17 Jesus diz: “meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho”. Deus não descansa.

 A força da Palavra de Deus no Gênesis é como mágica. O que Ele fala acontece, mas é um Deus distante, não entrando em contato com o ser humano, por isso é freqüente a presença dos anjos. Se Deus não pode viver perto de mim  devo ter alguém para fazer a ponte.

      São Lucas é brilhante quando coloca em seu evangelho  a importância dos anjos apenas antes de Jesus nascer:

- Na anunciação de João Batista a Zacarias (1,11)

- Na anunciação a Maria (1,26)

- No nascimento  de Jesus (2,9).

       No relato 2 (século X a.C, época de Salomão), Deus é um oleiro e agricultor. É Ele quem cultiva o jardim. O evangelista João se remete ao Gênesis quando diz: “eu sou a videira e meu Pai é o agricultor.”..(15,1). Deus se preocupa com sua criação, com sua solidão de ser humano que precisa de alguém semelhante a Ele. Deus passeia no jardim, conversa com o homem, Ele não se cansa e nem descansa. É um Deus perto, presente, bem diferente do primeiro relato.

 No relato 1, “No princípio... Deus (criou) ou melhor, estava criando...” lá está o verbo hebraico barah (criar) no tempo chamado incoativo (que incoa ou começa), o que ficaria mais correto traduzir por criando e não como é traduzido em nossas Bíblias (criou). O que o autor quis colocar é que Deus continua criando o mundo com a nossa cooperação.

 Gn 1, 3 -10 - Deus cria três obras de separação e ajuntamento:

      Ø      1,3b –Deus separa a luz das trevas

Ø      1,6 – Deus separa o firmamento das águas

Ø      1,9-10 - Deus junta as águas que estão debaixo do céu (firmamento).

Assim nasce o mundo onde o ser humano vai viver. Da luz, do firmamento, da terra e do mar, surge o tempo e o espaço. Nós os seres humanos, nos situamos entre os versículos 3-5 (tempo e espaço).

 O autor quer dizer que estas posições de tempo e espaço significam que foram estabelecidas por Deus, e que o homem e a mulher não podem mudar. Quando Deus separa a luz das trevas, significa que o tempo é mais importante. Aí temos passado-presente-futuro, juntos. Deus nos mostra que é na ordem temporal que as coisas acontecem.

 E o que é o tempo?

           Para o judeu o tempo se processava da seguinte maneira:

Seus pés estavam no presente, sua cabeça no passo e seu coração no futuro.

Para nós,  povo do ocidente, o tempo se caracteriza pelo futuro, mas para o semita o futuro está atrás dele porque ele não o vê. Como pode ser isso? São apenas costumes e tradições de um povo, um modo como eles viam as coisas.

Para eles o tempo precede ao espaço. Daí fica simples entender a simplicidade do ato de Deus quando cria o mundo em 7 dias. Esse ato se dá no tempo da eternidade ou, no nosso entender, numa ausência de tempo

O autor quer transmitir aos seus ouvintes que a noção de tempo precede no relato. A noção de espaço na criação é algo que se faz de forma contínua e não é algo que já existe e está acabado. A criação está alerta ao futuro. Deus cria todos os dias com a nossa cooperação,  junto conosco.

As trevas são necessárias mas não são boas, somente a luz é boa. Só a luz é capaz de representar a ação de Deus, designar a salvação que se deu depois com a vinda de Jesus Cristo. Talvez por isso a luz tenha sido a primeira obra a ser criada:

- Deus é  luz - “Essa é a mensagem que ouvimos Dele e trazemos para vós: Deus é luz, e nele não há nenhuma espécie de trevas” 1ª Jo 1, 5.

- Jesus Cristo é Luz -  “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não caminhará nas trevas mas terá a luz que conduz a vida” Jo 8, 12.

Ø      - O Espírito Santo é Luz - “...vos conceda um Espírito de sabedoria e revelação para que o conheçais mais profundamente! que Ele ilumine os olhos do vosso coração para que compreendais qual a esperança que nos veio pelo seu chamado, e quais as riquezas da gloriosa herança reservada aos santos”. Ef 1, 17, 18.

Quando Deus cria o firmamento (Gn 1, 6-8) é apenas um corpo sólido, a palavra vem do latim firmamentum (aquilo que sustenta). É uma representação do espaço vertical. Numa crítica aos povos estrangeiros o autor diz: O céu (firmamento) é apenas uma parte da criação, ele não é a morada dos deuses.

Desta forma para se chegar até Deus temos que subir. Subir assim, para o povo de tradição eloísta (do Norte) passa a ser uma palavra teológica quando se refere a morada de Deus, daí entendermos melhor quando eles viam Deus morando nos lugares altos, (os montes), e que ainda hoje imaginamos que o céu é lá em cima. Já na tradição javista (reino do Sul) o povo se volta mais para a presença de Deus no templo em Jerusalém e não reconhecem que é nos montes que está a sua segurança:

 “Ergo os olhos para os montes. Meu socorro, de onde vem? “Do Senhor vem teu socorro: Ele fez o céu e a terra!” Sl 120 (121).

“Nossos pais adoraram nesse monte, e vos dizeis que em Jerusalém é que se encontra o lugar onde devemos adorar a Deus” “Jesus lhe disse: Mulher, creia em mim, vem a hora que nem nesse monte nem em Jerusalém adorareis o pai...pois Deus é Espírito e os que o adoram devem adorar em espírito e em verdade” Jo 4, 20 – 24.

É bom que saibamos que o firmamento que segura as águas não é o céu. O céu é onde Deus mora (segundo a literatura apresentada). Antes da criação do mundo já havia a morada de Deus. Por isso não é correto “olhar para cima” procurando o céu...onde Deus mora? Em Mt 28,20 Jesus nos diz: “E eis que estarei convosco todos os dias até o final dos tempos...” esta dúvida de se perguntar onde Deus está, sempre foi uma das preocupações do homem  e da mulher em todos os tempos:

Ø      Dizem-me: Onde está o teu Deus? Sl 42,4b; 11b (século X a.C)

      Ø      Deus pode realmente morar com o ser humano na terra? 1Rs 8,27

      Ø      Diz o insensato em seu coração: Deus não existe. Sl 14,1

      Ø      Assim disse o Senhor: o céu é meu trono e a terra é o apoio de meus pés. Is 66,1.

            Em Gn 1,9 -10 é feita a  separação das águas que se organizam no espaço horizontal e que se junta ao vertical. O juízo de Deus nessas obras é positivo, v. 6-9 e 8-9.

 O autor do Gênesis 1 tem a intenção de dizer que a criação não se faz  de uma só vez, abrange vários estágios e níveis.

V. 11-25 são obras de animação: Criação dos seres vivos com três níveis:

 Ø      As plantas

Ø      Os animais

Ø      Os seres humanos

Eles correspondem aos estágios da evolução da vida, não é o mesmo que entrarmos na Teoria da Evolução. O mundo presente na narrativa é um todo nas mãos do seu Criador e o ser humano é uma criatura no meio de outras criaturas.

 V. 11-13 são nomeados apenas duas categorias:

 Ø      A erva (para dar semente)

Ø      A semente (para continuar a espécie)

A vegetação está dividida em espécies e, entre as milhões que existem em nosso planeta, cada qual pertence à sua própria espécie.

Segundo esse relato (Gn 1), nos parece que o homem e a mulher são vegetarianos. A intenção do autor (sacerdotes e o povo que chegaram do Exílio) é combater a violência e equilibrar o planeta.

 V. 14-19 – Deus cria os astros. Por que será que eles não foram colocados antes quando foi criado o firmamento? Certamente o autor os quis colocar depois das plantas e antes do ser humano. Os astros de onde eles vieram (Babilônia)  eram divindades, mas nesse relato são limitados, eles servem apenas para marcar os dias e as noites e iluminar o caminho do povo quando iam às festas.

Ainda hoje existem pessoas que cultuam pirâmides, o sol etc. De uma certa forma o autor quer combater  a idolatria, o culto aos ídolos aprendidos  e copiados dos cananeus e babilônicos. A idolatria ou qualquer tipo de representações de Deus era abominável para o povo hebreu.

 Paremos e reflitamos um pouco:Que imagem eu faço de Deus?

     Ø      Aquele que tudo pode?

Ø      Aquele que me dá tudo o que peço? E se isso não acontece é porque Ele não é justo?

Todos buscam um Deus à sua imagem e semelhança. Geralmente um Deus que atenda a  todos os nossos pedidos, que faça o que queremos. O grande desafio hoje é deixar Deus ser Deus.

 Em Gn 1,3-5 há uma contradição? Não! O que importa ao autor do texto é  tornar possível tudo no espaço de 7 dias. Forçar o esquema num ciclo de 7 dias no qual os astros não são divindades.

 V. 20-25 – criação dos animais -  Criar e abençoar.  Os dois verbos no hebraico estão unidos. Fecundidade para o povo bíblico era sinal de bênção, enquanto esterilidade era sinal de maldição. As palavras, sede fecundos, multipliquem... não é uma ordem de Deus, significa um dom que lhes é dado, o de multiplicar em gerações. Tomar isso “ao pé da letra” pode-se cair no erro de que se os pais não criam bem seus filhos a culpa é de Deus? Senão vejamos:

 1, 28   – Deus os abençoou dizendo: sede fecundos e multiplicai...

Gn 9    – Deus abençoa a Noé...

Gn 12  – Deus abençoa a Abraão...

Ex 1,7 – Os israelitas cresciam, a benção e a fecundidade os

               acompanhavam.

 1,20 – Por que as águas fervem? Elas estão vivas...é o hálito de Deus presente nelas.

 Gn 1,20-23; 8,17 – Deus abençoa os monstros do mar, peixes e pássaros e 

                               Todos os animais para que se tornem férteis...          

 Na narrativa do Gênesis 1, tudo existiu antes do homem e da mulher, portanto a palavra é anterior ao ser humano (Gn 1; Jo 1) Deus cria por meio da Palavra. É por ela que o ser humano corresponde a Deus. Ele é imagem e semelhança de Deus pela Palavra.

            Gn 1,28 – Na criação do ser humano Deus pela primeira vez fala a uma criatura: Deus disse a eles...

A última obra da criação no primeiro relato começa com a decisão de Deus...Façamos...a particularidade da atitude consiste em duas coisas:

Ø      A relação dessa criatura com Deus

Ø      A tarefa que lhe é dada.

 Deus quer fazer o ser humano sua imagem e semelhança. Nenhuma outra criatura é imagem e semelhança de Deus, só o homem e a mulher. Os animais não são dotados da palavra. É nela que se manifesta a docilidade de Deus. Façamos, portanto, se torna uma expressão de decisão, é chamada de plural magestático. Segundo os pais da Igreja aí se vê a imagem da Trindade. Posteriormente vamos constatar que tudo voltará no Espírito Santo com o Filho ao Pai.

 Ao homem é dada a tarefa de dominar tudo o mais que foi criado. Ele é o responsável pelo bem estar de toda a criação. Homem e mulher são criaturas de Deus, e não simplesmente o macho e a fêmea. As palavras ish (homem) ishah (mulher) só mais tarde são usadas.

 O homem e a mulher receberam uma bênção especial de Deus (força da fecundidade). É a capacidade de fazer a vida continuar, ir adiante. No relato do Gênesis 1, 29-30, o que é comum entre o ser humano e os animais é que todos são herbívoros e a aprovação de Deus, que se percebe claramente ao criar os dois;  E viu que era muito bom, valeu a pena.

 E o 7º dia?

            Nas narrativas da  criação de outros povos (babilônicos, de onde vem a tradição), uma vez que a obra está terminada o Criador não mais intervém, Deus passa ao ser humano essa tarefa, é o que vemos aqui, só que com um objetivo bem específico: guardar o sábado. Simplesmente o texto nos diz que há coisas que Deus não faz em nosso lugar, por cumprir à risca a liberdade que nos deu. Seria injusto de sua parte interferir nessa liberdade que Ele próprio presenteou à sua criação. Deus descansa...diz o autor do texto (2,2). O homem e a mulher assumem a partir daqui.

       O repouso de Deus santifica o 7º dia. Fica assim dividida a semana entre seis dias profanos e um sagrado. O sábado para o judeu é diferente do que é para nós, ele é santo, foi santificado por Deus pelo seu descanso. Para nós cristãos, o dia sagrado é o domingo (1º dia da semana) e ele santifica todos os outros dias. No Cristo nós fomos recriados. Jesus Cristo com sua ressurreição santificou o domingo para nós.

             Assim, percebemos que o desequilíbrio da natureza, é puramente responsabilidade nossa. O ser humano recebeu a ordem de Deus para dominar todos os outros seres criados, menos o seu semelhante. Agir em benefício do outro é permitir que a criação continue, porque Deus continua criando o mundo através de nós.

 Aprofundando o texto.

             Uma vez que no primeiro relato tudo é introduzido pela Palavra de Deus (Deus disse...), a Palavra tem uma função ordenadora, ela faz acontecer. Vimos que a Palavra é anterior as coisas e ao próprio ser humano. Diz São Paulo em Colossenses 1,15-17, que Jesus Cristo sim, existe antes de tudo e de todas as criaturas, como já vimos anteriormente.

             O relato do Gn 1 é por demais semelhante ao Decálogo (Ex 20, 1-17; Dt 5,6-22). Na Criação desse relato houve 10 Palavras criadoras. Deus quer que os seres existam, (segundo o autor) em 10 palavras (tradição do Sinai). Mas, entre estas dez, duas fogem à regra: A 9ª (v.28) onde Deus coloca o ser humano acima dos animais, e a 10ª, que regula o regime alimentar do ser humano e animais: “eu vos dou por alimento todas as plantas”...(v. 29-30). Deus os  torna vegetarianos. Por que? Talvez para evitar a violência, o derramamento de sangue. Animais se devorando entre si, e o homem os matando por prazer. É um apelo de Deus a pacificação do mundo.

         O homem deve dominar a natureza pela “palavra”, inteligência, e não pelo chicote, o castigo, assassinato, tortura ou qualquer tipo de violência. A Palavra é doçura, é um sopro, um hálito, a vida é o ruah (espírito de Deus). É dessa forma que o ser humano se torna semelhante a Deus. Se ocorrer o contrário, se não fazemos a vontade de Deus, não o escutamos e não cumprimos o que Ele nos pede, vamos  nos devorar uns aos outros e destruirmos o mundo com nossas próprias mãos.

 Deus nos dá o exemplo: Ele não ordena com a força  mas com amor. Dessa forma se conclui que Deus ao dizer ao ser humano o que deve fazer, compartilha com Ele sua criação, é  faz dele o seu parceiro. Talvez por isso o propósito do autor sagrado ter colocado o verbo  Barah (criar), no tempo chamado incoativo (que incoa ou começa), o que ficaria mais correto traduzir: No princípio criou Deus os céus e a terra... para: No princípio Deus começou a criar... ou, estava criando... porque depois nós continuamos a tarefa.

A lei representada pela 10ª palavra (1,29, as frutas e verduras por alimento), ocupa um espaço diferente.  Estamos no século XXI interpretando uma lei do século VI a.C. Há 27 séculos nos separando. Talvez hoje as nossas necessidades sejam outras, mas mesmo hoje, consumindo carne de animais o ser humano deve ser comedido em suas ações.

             A criação continua acontecendo à medida que escutamos a Deus e fazemos a sua vontade...não é o que dizemos no Pai-Nosso? Seja feita a vossa vontade... só haverá uma criação completa se houver uma consonância com Deus. A criação continua e se mantém no curso do tempo, se escutamos o que Deus quer de nós, a criação  se faz. A Lei de Deus está continuamente sendo criada...tem que haver uma  comunhão entre o que queremos e a vontade de Deus.

             Enfim, qual é o sagrado do texto (Gn 1)? O sábado – que é o tempo. Deus primeiro fez para depois dar a ordem de segui-lo. Deus serve de exemplo. O homem é seguidor da Lei de Deus pelo descanso e não pelo trabalho. No descanso está a recuperação das forças para o trabalho. Parar de trabalhar aos sábados para ir ao Templo é um desafio, uma ordem. Através do sábado, Deus mostra ao povo hebreu sua doçura, seu cuidado, sua proteção. Uma terra “que mana leite e mel”...uma terra cheia da doçura de Deus.

             O que está na superfície do texto nos parece o  “domínio”, mas pela lei do sábado ele  se torna doce, meigo, cheio do amor de Deus. É o Shalom, que bem mais do que o significado  de “Paz”, é a relação do ser humano com Deus, onde tudo se transforma em harmonia. A imagem de Deus em nós traz o Shalom. O autor sagrado nos passa a mensagem: “nada de conformismo, desânimo e fraqueza, pois como diz São Paulo,“eu posso tudo naquele que me fortalece (Fl 4,13).

         Muitas vezes necessitamos ser coitados, vítimas...sempre dizemos: eu não consigo...já tentei mas nada dá certo para mim... esta não é a imagem verdadeira de um cristão. Tomemos novamente como exemplo as palavras de São Paulo à comunidade de Corinto:  “quando sou fraco é que me sinto mais forte”... (12,10), pois tenho a graça de Deus. Pensar que chegamos aonde queríamos chegar, estar realizado, terminado, é a maior morte. Não podemos esquecer do que foi citado antes. O verbo hebraico barah nos diz que o mundo continua sendo criado por Deus e ajudado por nós.

 2º Relato (Gn 2,4b-3,24 a  3,24)

             Se tudo é bom desde as origens, se o homem e a mulher são as obras mais perfeitas de Deus, como se explica a presença do mal? A morte é o mal definitivo e a dor a sua antecipação; a terra que foi feita para dar frutos, dá espinhos; o trabalho é fatigante, a fecundidade é dolorosa, por quê? Quem pensava assim tinha uma formação “sapiencial”, pois esse tipo de questionamento era feito a partir desse conflito entre o bem e um mal na busca de uma resposta madura  pelo sentido da vida. Para responder a tais indagações, no século VI a.C, quando o povo reescreveu estes textos, usaram originais do século X a.C, que continham  definições judaicas.

             Como se deu essa rebelião do ser humano com o seu Criador? O autor do texto não conhece as particularidades dos fatos, mas deve elaborá-los de forma que seus leitores entendam, e a forma usada literariamente naquele tempo era a narração poética; através de uma história em versos, a qual possibilitava a quem não sabia ler e escrever, ouvir várias vezes e assimilar seu conteúdo.

             Assim ele lança mão de dois grupos de dados:

    Ø      De ascendência mítica. Um paraíso ou parque encantado, onde a divindade por lá passeia com os mortais, com a presença de serpente,  dragão etc.

Ø      O segundo grupo de dados é tirado de sua própria experiência e do seu povo; que é o pecado.

 O capítulo 2 está unido ao episódio da queda (Gn 3), é a força da sedução e do mal. Já viram a serpente da origem? Ela está presente no ser humano e no mundo de todos os tempos. É um texto Javista do século X a.C. Veio do tempo do rei Salomão, mas sua compilação final se deu no século VI a.C e portanto foram colocados juntos. Este texto enfoca fortemente a criação do homem e da mulher, e introdução do pecado no mundo pela desobediência - “Portanto, como por um só homem (homem e mulher) o pecado entrou no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, pelo que todos pecaram” Rm 5, 12.

             No Gênesis 2 e 3 (criação e queda) não é contado como aconteceram as coisas quando Deus as criou, como no primeiro relato, mas é dito ao povo do seu tempo (e para nós) porque fomos criados. É importante lembrar que: quem escreveu os relatos da criação não viveu no tempo da criação, mas milhões de anos depois.

        Entre a bondade inicial de Deus e a situação atual, diziam: houve uma ruptura que se chama desobediência  aos preceitos de Deus. É o chamado pecado original. Foi um ato responsável pelo homem e a mulher e que ambos devem responder por ele a Deus. Uma visão semelhante e menos pessimista encontramos no Salmo 104 e em Eclesiástico 17.

O macro relato que abrange os capítulos 2 e 3, está dividido em seu interior por pequenos relatos; o que os caracteriza é a passagem de um estado a outro. Na literatura judaica o que dá vida a um relato é sempre a transformação de um estado negativo para um positivo.

 1º pequeno relato: 2, 4b-7 (a terra e o ser humano) O ser humano só é ser humano em relação a Deus, quando homem e mulher, e ele, neste relato, está presente suprindo as suas carências.

             Na primeira carência (depois do versículo que liga os dois textos (v.4b), se constata a ausência de plantas, pela seca da terra e por falta de chuva e do ser humano. Entretanto, mesmo sem Deus fazer chover, havia um manancial que subia do chão, que irrigava a terra deixando-a pronta para ser cultivada pelo ser humano (homem e mulher)).

         No v. 7, vemos a segunda carência sendo suprida: o homem é fortemente ligado a terra. Ele não apenas se identifica com o solo, é muito mais importante, está presente nele o ruah/pneuma (Espírito de Deus). Quando desaparece o sopro de Deus, desaparece a vida.

Como já foi citado, Deus é o oleiro, o mesmo oleiro de Jeremias 18. Até aqui o solo tem condições para ser cultivado, porém o autor diz que isso ainda não aconteceu.

 2º pequeno relato 2,8-17 (Deus e o ser humano)

             É  peculiar a forma que o autor coloca esta relação de Deus com o ser humano. Não é o homem (como seria natural) quem cultiva o solo, mas Deus. Agora o Senhor Deus passa de oleiro para  agricultor. Lembram de João 15? Cristologicamente aqui entendemos o que nos diz o evangelho. “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai o agricultor” (Jo 15,1).

             No v. 8b, Deus prepara o jardim não para si mesmo mas para o homem. É um jardim divino onde Deus passeia nele.

             As árvores (v. 12) são fantásticas, oferecendo todo o conforto e prazer para o homem viver, é um verdadeiro oásis. Éden significa delícias. Um jardim de delicias.

             Os rios dos v. 10-14, são para provar que o jardim de Deus, o paraíso, é aqui na terra. É aqui na terra que Deus passeia. Dois destes rios são reais, estão na Babilônia (Tigre e Eufrates).

             No v. 8, pela primeira vez o autor nos diz da intenção de Deus que é colocar o ser humano lá, repetindo o feito  no v.15, desta vez para trabalhar a terra (cultivar e guardar). Mas, Deus estabelece para o homem uma certa ordem: no v. 16 que ele podia “comer” apoderar-se de todas as árvores do jardim; isto significa que o ser humano é aceito e bem recebido no jardim de Deus, ele é intimo de Deus.

             Somente de uma árvore, v.17, ele não poderia comer. Isto porque o conhecimento de todas as coisas o faria divino, ele se tornaria um deus.

             É importante lembrar que no Gênesis 2 e 3 (criação e queda) não é contado como aconteceram as coisas quando Deus as criou como no primeiro relato, mas dizer ao povo do seu tempo (e para nós) porque fomos criados. É importante lembrar também  que: quem escreveu os relatos da criação não viveu no tempo da criação, mas milhões de anos depois.

             2,20 – O homem dá nome aos animais. Ele domina e é superior a eles, porém não encontrou sua semelhança neles.

            2,21-22 - Deus recorre à nova solução: cria a mulher. Deus é o mediador que apresenta a esposa ao esposo.

            2,23 – Como o homem (Adam)  vem da terra (adamah), assim a mulher (fêmea) procede do homem. Ishah (mulher) do ish (homem). Agora sim, em presença de outro ser humano, ele se descobre seu semelhante. Só se pode falar da relação  de ser humano enquanto homem e mulher. Aqui os dois formam uma só carne, por isso é colocada pelo autor a primeira declaração de amor no mundo de um homem para uma mulher. “osso dos meus ossos....” “Jesus replicou:...mas no início da criação Deus os fez homem e mulher” Mc 10, 4 – 7).

 3º micro relato.3,18-24 (homem e mulher)

             O Senhor Deus se preocupa com outra carência do homem, “estar só”. Ele vai criar alguém que o corresponda. O relato aponta duas soluções:

 1ª) Criação dos animais (também do solo), não foi boa, eles não eram seus semelhantes.

 2ª) Criação da mulher. Agora sim, esta era semelhante a ele.

 2,24 – Aqui se conclui: “Por isso deixará o homem seus pais e sua casa”...

 2,9 – Aqui as árvores brotam do solo, a árvore do bem e do mal. O que é bom e o que é ruim vem do próprio ser humano por usar mal a sua liberdade, então se dá a ruptura com Deus.

 2,16-17 – Deus ordena...podes comer de tudo, menos da árvore do conhecimento do bem e do mal...se isso acontecer, vais morrer (Gn 3). Aqui está a fórmula do mandamento, o que pode e o que não pode; e a lei com cláusula penal: “serás réu de morte”...isso  é comum nos códigos israelitas. Os v. 9.16.17, foram  unidos ao capítulo 3 no intuito de preservar a vida.

 4º micro relato (2,25-3,7) Homem x mulher

             No 2,25 – Os dois estavam nus, o contrário de estarem vestidos. Há no texto uma nova carência do ser humano: eles não estão vestidos. Lembre-se que aqui não tem nada a ver com a atitude sexual. Não é isso que o relato diz.

             A nudez dos dois tem aqui um alcance muito maior. Ela é o limite entre o estar perto ou longe de Deus. Perceba que os dois estão em comunhão com o Criador, portanto nem percebem que estão nus. Mais adiante quando já o desobedeceram no 3,10, ao ouvir o chamado de Deus o homem se esconde por perceber que estava nu, isto é, afastado de Deus. Assim a nudez neste relato representa a desobediência a Deus, a pobreza, a miséria interior e a ausência de Deus.

             Ser homem ou ser mulher, coloca no ser humano um limite. Nenhum pode ser os dois, se isso acontece  para o judeus está contrário aos desígnios de Deus. O ser humano portanto é limitado. Essa limitação até o momento não é problema, mas depois isso muda. A “falta de roupa” não lhe fazia falta até ali, ele se aceita em suas limitações como criatura. Mas eis que surge a força do mal.

 3,1 - A serpente vai lhes fazer sentir falta “da roupa” se sentirem nus. A serpente representa nas culturas que circundam a Palestina, a força hostil a Deus e ao seu projeto de vida para o ser humano. Uma deusa pagã dos povos vizinhos (babilônicos, Egípcios, Cananeus). Personificação do mal, sedutora e agressora. No decorrer dos séculos essa força negativa acumula nomes: dragão, serpente, satã, diabo, acusador (que significa diabo em grego e satã no hebraico).

             Assim, esse “animal” foi um dos que o homem deu nome e, portanto, era seu superior, bastava estar em comunhão com o seu Criador. Infelizmente agora a ordem está invertida (pela desobediência) pela serpente que comanda o cenário. O fim visado aqui é conduzir o homem e a mulher a “abrirem os olhos”, enxergar melhor, tornando-se como Deus, não aceitando seus limites, não necessitar Dele, bastando-se a si mesmo.

             Em 3,10, vemos que isso não aconteceu. O que se deu foi o contrário, perceberam que tinham desobedecido as ordens de Deus e se sentiram nus, desamparados, com vergonha. Eles percebem seu próprio limite ao desobedecerem a ordem divina. Tentam de todas as formas fugir aos olhos de Deus. Deus lhes providencia logo uma vestimenta.

 5º micro relato (3,8-21) O ser humano contra Deus

             O ser humano não aceitando suas limitações, sente vergonha de estar na presença de Deus, mas Deus não os abandona, Ele se preocupa. Agora o homem e a mulher sentem-se envergonhados, fracassados de tentar viver por si mesmo, quererem ser igual a Ele. A desobediência os afasta do seu criador e do lugar preparado para eles (o jardim do Éden). Mas, como diz o salmista, Deus nos conhece muito bem (Sl 138) 139.

 No 3,11- “quem te disse que estavas nu?” Agora ele reconhece o seu pecado e vai lutar contra a serpente. Nos parece que a serpente se torna igual ao ser humano.

 No 3,16 – Agora os dois vão querer dominar-se mutuamente, isso é o reflexo do mal. Dominar o outro é obra do mal, quebra a harmonia com Deus. Devemos lutar contra o mal em nossa vida, ele divide ao invés de unir. Dominado pelo mal, o homem dá nome (exerce poder sobre a mulher) a ela, chamando- a de Avah (mãe dos viventes), isso significa que ele vai querer dominar o outro ser humano como ele, a mulher.

 Nos v. 17-19, o contraste é grande. O homem vai voltar a cultivar o solo, vai pagar pela sua própria ação. Portanto Deus não castiga, o homem se castiga. Ele sofre as conseqüências do que fez errado.

 6º micro relato ( 3,22–24) A terra x ser humano

             No v. 23, o ser humano é expulso do jardim para cultivar a terra (antes cultivada por Deus), voltar ao início. O relato volta a sua origem. É a carência mostrada no início (2,5): não havia arbusto, chuva ou o ser humano. Agora o homem e a mulher retornam. Eles viveram “pouco tempo” no jardim (na presença de Deus), até que perderam tudo pois resolveram viver por eles mesmos. No trabalho árduo o homem e a mulher retornam ao lugar de origem, agora não mais como simples dominador.

             O “jardim” não é simplesmente algo que existiu mas está no futuro, na intimidade com Deus. É o paraíso eterno. Só no jardim existe a “árvore da vida”, vida eterna junto de Deus.

 Gn 2,4b =» É posterior- é a introdução para separar o primeiro capítulo do segundo. A segunda parte tem uma fórmula fixa, quando Deus fez os céus e a terra não havia ainda... nos mostra que Deus vai criar algo para o ser humano.

  v.7, Deus cria o homem do barro, não da eretz (terra = Nação), mas do solo da adamah (terra fértil), boa para plantar. O primeiro homem é tirado da terra e levado para ser introduzido no jardim expressamente plantado para ele. Deus aqui é um oleiro e um jardineiro. Ele trabalha  e não cria com a Palavra como no primeiro relato. É um Deus próximo do ser por ele criado.

 Ø      Is 29,16

 Ø      Sl 33,15

 Ø      Sl 94,9

Ø      Tb 8,6

A Tradição de o homem ser formado do pó da terra é babilônica e egípcia. Para o hagiógrafo do segundo relato, o homem deve sua existência e sua forma a Deus. O ser humano não é Deus. Ele foi feito do pó da terra e um dia voltará a ela. Gn 3,19 nos diz: tu és pó e a ele voltarás.

 Aqui no segundo relato, o primeiro ato de Deus é criar o  homem. O segundo é insuflar em suas narinas o hálito da vida. Deus o torna um ser vivo e portador do seu Espírito, o ruah. Uma “supervalorização” do espiritual, dos ideais com relação ao corpo. O pecado ligado ao ato sexual, não encontra fundamento nestes textos.

Os versículos 2, 9.16.17, foram unidos ao capítulo 3 no intuito de preservar a vida.

 Conclusão:

 Estudar os três primeiros capítulos do Gênesis nos fez perceber com clareza qual é o Projeto de Deus para nós, na visão do povo judeu, mas que até hoje se condensa no que queremos, como cristãos e seguidores de Jesus Cristo.

Para os judeus (bereshit) é princípio, para os gregos e para nós cristãos é o livro das origens:

 Ø      Do mundo (pela criação)

Ø      Do mal (pelo pecado)

Ø      Das culturas (pela diáspora e sincretismo religioso)

Ø      Da pluralidade de línguas (pelas invasões)

Ø      Da história da salvação (pela eleição de um homem, Abraão)

Ø      Do exemplo dos patriarcas da pré-história (oral), Abraão, Isaac, Jacó e José.

       O Gênesis tenta dar respostas aos grandes enigmas do homem, o caos e o  cosmo, a vida e a morte, o bem e o mal, o indivíduo e a sociedade, a cultura e a religião que conduziu o povo hebreu, nossos ancestrais. Tais assuntos não receberam nesse livro respostas doutrinais ou teológicas, mas histórica de acontecimentos ligados à vida do povo. Deus caminha e dirige o seu povo... mas, a humanidade é responsável pelos seus atos.

 O livro do Gênesis e principalmente os três capítulos estudados não são Mitos, mesmo usando expressões míticas. Deus intervém todo o tempo nessa história humana, sua soberania aparece pela força de sua Palavra, é ela que estabelece o contato desde a Antiga Aliança se estendendo pela Nova com Jesus Cristo. A Palavra de Deus é mandamento, anúncio, promessa, realidade.

 Três conselhos são dados: O ser por Ele criado deve obedecer, crer e esperar. Portanto:

 “Essa maravilhosa história que tende para o futuro, que é comprometida com a terra e dependente de Deus, é intensamente humana e soberanamente divina”