Dimensões do Sagrado e Profano (Prof. ª Dita)

 

1.O Puro/profano/impuro.

 

Toda concepção religiosa existente no Cosmo, implica no Sagrado/Profano, com diferenciações apenas  entre o homem religioso e o não religioso.  

 

Características marcam o ser humano que em sua vida terrena está sempre em busca do sagrado, através de símbolos, lugares, datas especiais e a natureza, ou tudo que ele julgar  possa tornar-se intermediário entre  ele e o sagrado. Em resumo, o sagrado são atitudes que o fascinam pelo seu desconhecimento e mistério.  

 

“Os pólos do sagrado se opõem indistintamente com o domínio do profano”. Por isso nos são apresentados de três formas distintas: o puro, o profano e o impuro.  

 

A sociedade e a natureza descansam sobre a conservação da Ordem Universal, protegidas por múltiplas proibições que asseguram a integridade das instituições e a regularidade dos fenômenos. Tudo que parece garantir a saúde do corpo e  a estabilidade emocional, é considerado santo, e o que o compromete é profano.  

 

No mundo atual, um dos maiores desafios sofrido pelos cientistas da religião talvez seja, interpretar e entender a diversidade do que se considera sagrado no racional moderno e contemporâneo.  

 

O ser humano continua buscando algo que  atenda seus anseios e bem-estar, nas mais diferentes formas de religiosidade: Tarô, astrologia, mineralogia, búzios, santo Daime, ocultismo, cristais, meditação, igrejas eletrônicas, novas seitas orientais... talvez a religiosidade seja hoje um dos temas mais consumidos.

No cinema proliferam e são sucessos, os filmes de espíritos, fantasmas, anjos e demônios, seres sobrenaturais, extraterrestres... Em São Paulo, as feiras místicas de fins de semana, atendem a milhares de pessoas, ávidas por conhecerem o mistério do sagrado e  o que lhes reserva o futuro, através de objetos e símbolos.  

 

Em sua análise sobre o sagrado, José Queiroz cita um trecho de Guimarães Rosa em, “Grandes sertões  veredas”, na fala de Riobaldo Tatarana, aspectos que identificam muito bem características do universo religioso do homem contemporâneo. ...É muita religião seu moço! Eu cá não perco a oportunidade, aproveito todas. Bebo água de todo rio... Uma só para mim é pouca. Rezo cristão, católico, aceito as preces do meu compadre Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou ao Midubim, onde um seu Matias, homem crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê a Bíblia, ora, canta belos hinos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é tudo só provisório... Olhe: tem uma preta, Maria Leôncia, as rezas dela afamam muita virtude de poder. Pois a ela pago, todo mês, encomenda de rezar por mim um terço, todo santo dia e, nos domingos, um rosário. Vale, se vale...”  

 

Guimarães Rosa, retrata  a realidade  do Universo Religioso popular. O fundamentalismo e a “religião livre”, infelizmente fazem  parte da vivência de milhões de pessoas; mesmo indo contrário aos dogmas das religiões monoteístas, cada um procura “calçar-se”, de todos os lados. Buscar por todos os meios disponíveis, explicações e respostas para suas verdades de fé. No universo dominante das sociedades modernas, o sagrado e o profano penetram por todos os sentidos.

2. Carência do Sagrado no mundo.

 

O clima espiritual  do nosso tempo é quase sempre marcado pela carência do Sagrado. Segundo Gilberto de Melo, carência não é o mesmo que falta. Ele explica dessa forma: “Se não tenho asas, se me faltam as asas não tenho carência alguma, porque nunca as tive, nem posso ter asas. Se perco um braço ou uma perna, aí sim, estou carente do membro perdido. Só somos carentes daquilo que nos pertence constitutivamente”.  

 

A carência do sagrado, seja na forma que for, é algo que faz parte do ser humano desde o princípio dos tempos. Quando Mircea Eliade descreve este conceito, ele usa o termo hierofania,  insistindo que, qualquer objeto  pode tornar-se  sagrado, sem deixar de ser ele mesmo. 

 

Uma pedra pode ser considerada sagrada, mas, ela continua sendo uma pedra do ponto de vista profano. Vejo esta  semelhança,  na forma da apresentação  que fizemos para a classe.  As túnicas que vestimos, as velas que compunham o ambiente, as cores fortes dos tecidos espalhados pela sala, representavam a presença do sagrado, do ponto de vista  dos princípios e experiências religiosas de cada um. O sagrado não estava nos objetos, mas na forma transcendente em si. Eram hierofanias (veículos do sagrado). Uma realidade transformada em algo sacralizado.  

 

No mundo em que vivemos, não podemos fugir do sagrado e do profano, pelo fato de que  ambos fazem parte de uma realidade profunda do Criador. Tudo é disposto ao redor do centro. A casa reflete a organização citadina e estas refletem o nosso interior.  

 

Para Eliade, a potência sagrada, quer dizer ao mesmo tempo a realidade, perenidade e eficácia do ser humano ao redor do Cosmo. O estar no mundo faz com que se sobressaia a cultura de cada um. Vivemos num mundo saturado de experiências religiosas. Facilmente verificamos as duas modalidades de ser desse mundo, duas formas existenciais assumidas pelo ser humano ao longo da história: o profano e o Sagrado. O espaço sagrado, para o ser religioso, é o lugar onde se revela e se manifesta o seu real. Só ele percebe e conhece o tempo profano e sagrado, que o define como uma seqüência de eternidades.  

 

Vejamos o que diz Gilberto de Mello, sobre o que ele define por crença e  cultura. “a cultura é constituída de um organismo ou arquitetura de crenças, de idéias, de paixões, de usos devidamente estruturados na cosmovisão de uma época, de um povo ou de um grupo de povos.  

 

Acredito que, segundo o pensamento de Gilberto de Mello, o sagrado pode estar inserido nesta diversidade de fatos, contudo as crenças, idéias e costumes, variam de um povo para outro, seguindo a corrente de  tradições dos seus antepassados. 

Num país cosmopolita  e de religiosidade sincrética, como o nosso, a estrutura do sagrado e profano misturam-se de uma forma tal, que a questão permanece em aberto. 

 

Estamos sempre buscando definições, até no mito, que quando bem  empregado, pode levar um povo a transformar  sua realidade. O mito mexe com o nosso imaginário. Tudo o que pensamos e queremos, se situa inicialmente no horizonte da mente, portanto, mito e razão se complementam. “Nós somos o que pensamos”.  

 

O mistério do sagrado e a presença do mal no mundo, são dimensões profundas da vida humana, que não podem e nem devem ser desconsideradas.

 

3. O mito e a história Sagrada.

 

O mito faz parte da existência humana, desde o tempo primitivo, onde o indivíduo habitava num mundo que não conseguia entender, pelo fato de continuamente defrontar-se com fenômenos que lhe causava medo. Tentando afastar esse estado de espírito, desenvolveu-se o que chamamos de mito, pelo qual explicava-se  o mundo de uma forma poética ou alegórica, mas dando-lhe condições de modelar seu comportamento e lidar melhor com a realidade. 

 

A Bíblia está repleta desta literatura. Para nós, pessoas do tempo moderno, este tipo de literatura não possui  um raciocínio lógico, mas nos transmite de uma forma metafórica, seu pensamento, e sua forma de vivenciar o sagrado. 

 

Para Eliade, o mito relata uma história sagrada que teve lugar no princípio dos tempos, onde os personagens são deuses ou heróis. O mito nos povos primitivos, apoia-se na ontologia, pelo seu falar dos acontecimentos, da manifestação do sagrado na realidade. Eles se  conservam como modelos dentro da História Sagrada. É na re-atualização dos mitos que eles aproximavam-se dos seus deuses e participavam assim da sua santidade. 

 

 No Egito antigo, o mito fazia parte da tradição do povo. Costumava-se dizer que no princípio de tudo, só havia o NUM, um oceano sem praias, cujas ondas iam estourar na imensidão das trevas. Depois, do fundo das águas foi imergindo uma massa de areia e lama. Surge daí um ovo,  de superfície perfeita, e de dentro dele irrompe o deus RÁ, o qual, imediatamente dedicou-se a dar a luz aos seus filhos e ordenar o mundo. Assim, surgiram GEB(deus da terra), NUT(deusa do céu), CHU(deus do ar), e COUSER(deus da lua). Quando RÁ, percebe que tudo está ordenado, abandona o mundo visível, refugiando-se em Amanti (o mundo subterrâneo).

 

A semelhança é por demais notória, quanto à literatura bíblica, do Antigo Testamento, e dos evangelistas no Novo Testamento: O modo como este povo descreve a criação no Gênesis e como Jesus  Cristo prepara os apóstolos após a ressurreição; depois de tudo ordenado, retira-se de volta ao mundo “superior”, deixando a terra aos mortais.

 

A manifestação de outros  mitos na religião semita se dá pela presença de anjos e demônios, representando qualitativamente  diferentes formas que habitam no mundo dominando-o  e deixando suas marcas  impressas na natureza.

 

Com a veneração da religião de Moisés, inicia-se o processo de moralização e de racionalização do sagrado no sentido pleno da palavra. Esse processo continua até o tempo dos profetas, continuando nos evangelhos. Esta racionalização ou moralização do sagrado,  não é a sua eliminação, mas, a partir daí deixa de ser  exclusividade do  antigo Israel.

 

4. O Sagrado e o profano nas religiões.

 

A relação com o sagrado, quase sempre advém da experiência pessoal e da comunicação direta com o divino. As religiões ainda são os meios mais eficazes para isso. Cada pessoa traz em si, um pouco do divino acrescido de suas experiências e heranças religiosas. O mais difícil nesta comunicação entre o divino/humano, é a limitação existente entre ambos. Gurus, sacerdotes, pastores, pagés... sentem essa dificuldade, descobrindo que o segredo é “purificar os caminhos” que conduzem a ele. São as práticas espirituais  que afastam as “pedras do caminho”...magia? Etimologicamente, magia é de origem persa, e vem da palavra mago.  

 

Para o Pe. Libânio, magia é a arte ou a técnica de produzir efeitos benéficos ou evitar os maléficos, com a invocação de forças ocultas ou de seres preternaturais.

 

O termo magia pode aplicar-se ao conceito narrado por Mateus (2,1-12), o episódio do nascimento de Jesus, onde ele menciona os magos, que vieram do Oriente para adorar o menino. Mateus faz questão  em afirmar que esses magos eram pessoas dotadas de qualidades excepcionais, as quais chamaríamos hoje de  parapsicólogos ou paranormais. Como astrólogos, praticam o culto solar, estudavam os astros, a adivinhação e a interpretação dos sonhos. Traziam consigo, uma gama muito forte de mistério, magia e religiosidade; sabendo manejar com maestria e segurança as forças espirituais. A magia se encontra em todos os povos e tempos” (Hegel).  

 

O povo de Israel desde os primórdios, tinha o conhecimento da existência de um ser superior, Deus; que criou o Cosmo e suas leis, que ama o ser humano, criando para ele e seus descendentes a  liberdade e a felicidade. Com estas definições, o conceito de magia para este povo, cai por terra, pelo menos da forma que se entendia na tradição  judaica. Eles reconheciam que o oposto a magia é a ação de um Deus de bondade, a adoração, a fé e a contemplação gratuita  a este Deus, na certeza do seu amor infinito, sem precisar de modo algum, atrair as forças divinas, muito menos fazer sacrifícios ou usar maneiras ardilosas.

 

Embora mais sofisticada, a astrologia, mesmo a dos magos da narrativa de Mateus, revela uma mentalidade mágica. Mesmo hoje, ocorrendo numa sociedade científica e secularizada e sem menção direta e explícita, o fenômeno remonta  a categoria do religioso e da vontade de Deus. O horóscopo, associa o nascimento da pessoa ao céu de sua conjuntura astral para conhecer o seu futuro nos campos da afetividade, empreendimentos, etc. diz Libânio: “À luz da compreensão de deus pai, essa atitude é ambígua. Aceitar que os astros possam influir sobre o nosso psiquismo, não reflete um comportamento religioso”.

5. A colonização brasileira: Sagrado/profano.

 

A formação histórica da sociedade brasileira, fundamentou-se na crença católica européia (portuguesa), onde quem não aderia a essa fé era considerado “filho do demônio’. O povo vivia sob a influência maniqueista do bem/mal, (herança do V século), onde se dizia que,” o mundo era um campo de batalha entre Deus e o demônio “. O sagrado para  o colonizador, eram os locais habitados pelos católicos, pois os consideravam como o Reino de Deus, enquanto que os locais habitados pelos índios era o do domínio do demônio.  

 

Um poema latino de inspiração jesuítica, exaltando as proezas do governador Mem de Sá, sobre as terras brasileiras e referindo-se aos  índios dizia:

“Envolta há séculos no horror da escravidão idolátrica, houve nas terras do sul, uma Nação que  dobrava a cabeça ao jugo do tirano infernal,  e levava uma vida vazia da Luz divina. Para estes” pagãos infiéis “,  Deus enviou o herói Mem de Sá”.

 

Partindo deste princípio de discriminação e preconceito por parte dos brancos,  os índios e mais tarde os negros,  adotaram as formas sincréticas dos símbolos cristãos. Sob a fusão de elementos culturais diferenciados e até opostos, eles conseguem preservar seus valores culturais e religiosos.

 

Somente após o Concílio Vaticano II, é que a idéia a respeito da cultura e tradição religiosa do índio e do negro, é vista pela Igreja como “sementes do Evangelho”.

Até hoje, uma das formas mais comuns do cristão católico demonstrar a sua fé no sagrado, é através das promessas e romarias.

 

De origem medieval, as romarias conservam-se como expressão típica das camadas populares. O caminho percorrido em busca do Santuário, mesmo a custa de grandes sacrifícios, transforma-se em alegria e felicidade supremas, antecipando o encontro privilegiado  entre o humano e o divino. É a epifania do sagrado.

É através das promessas, segundo os fiéis,  que se estabelece uma ponte entre “o céu e a terra”, entre o “humano e o divino”. Portanto, ela é uma dívida sagrada a ser paga a qualquer custo. É mediante a proclamação e a paga dessas graças recebidas que, se faz a Sacralização da história do povo.

 

No Romance, “O Ermitão do Muquem”, Bernardo Guimarães, cita uma romaria surgida em Goiás no século XVIII, e conclui:

“Os filósofos do século, os apóstolos da descrença, riem-se com desdém dessas ingênuas e tocantes crenças do povo. Todavia, seus engenhosos raciocínios, seus sistemas transcendentes, não podem substituir essa fé viva e singela, que alerta e consola o homem do povo, nos trabalhos e nos caminhos da vida”.

 

O pensamento de Mircea Eliade analisando a realidade sagrada e profana na visão do catolicismo afirma: ”O profano anima o cotidiano”. A confirmação desta hipótese vem através de uma carta de Jane Krammer, onde ela afirma que o calendário católico brasileiro, está repleto de peregrinações e procissões, o que é responsável pelo prazer e beleza na vida de muitos pobres brasileiros, habitantes das favelas. Eles amam, diz ela, seus santos, a música, os dias santos, nos quais penduram seus desejos.. Não acreditam no poder político e nem numa vida melhor, assim, preferem a distração dos Santos, a indulgência de Maria, a visita aos Santuários, as peregrinações e tudo que lhes possa produzir um acesso ao sagrado e talvez produzir milagres.