Eu Conheço os Anjos? Profª Dita

De certa forma todos temos curiosidade em conhecer o porque da existência dos anjos. Historicamente, eles estão ligados aos conceitos cananeus (antigos habitantes da Palestina) e a tradição persa do século VI a .C.  A Angeologia foi altamente desenvolvida nos livros apócrifos (que não fazem parte da Bíblia). Nos textos antigos da Bíblia, a diferença entre um ser celeste e  terrestre não era muito nítida, pelo fato das inúmeras intervenções de Javé no meio do povo através de seus líderes, o que os tornavam como mensageiros da divindade. 

Contudo conhecia-se os anjos, usualmente na forma humana ou totalmente invisível. Eram chamados de: anjo do Eterno ou anjo de Javé. É o próprio Deus que vem à terra em forma de anjo, que vê a aflição e o clamor do seu povo e "desce' para ajudá-los. Um desses anjos aparece a Moisés, primeiro pelo símbolo do fogo (Ex3,2), depois na forma invisível, sendo reconhecido somente por sua voz (Ex 23,20). Em Gn 18, novamente percebemos a intervenção de dois anjos do Senhor (ou o próprio Senhor) visitando Abraão e Sara, falando-lhes como se fosse o próprio Deus, garantindo a sua posteridade na terra de Israel para sempre. 

Inúmeros textos do Pentateuco nos apresentam os anjos de Javé. Agar recebe a visita deste anjo no deserto, quando é expulsa por Sara e Abraão da terra de Israel. Neste momento sentia-se desamparada e só, porém o anjo lhe diz: Volta Agar, pois o filho que tu esperas será uma nação tão numerosa que não poderá ser contada...(Agar deu à luz a Ismael, o ancestral dos árabes).

A Tradição cristã vê em algumas destas narrativas do Antigo Testamento sobre o anjo eterno ou anjo de Javé, a presença do Enviado do Pai, a Segunda pessoa da Santíssima Trindade, o próprio Jesus Cristo. Diz o Senhor a Moisés: Mandarei o meu mensageiro para que vá sempre a tua frente. Respeita-o, e ouve a sua voz. Não lhe sejas rebelde, pois Nele está o meu nome(Ex23,20s).

Na monarquia de Davi e Salomão, a presença dos anjos é constante entre o povo. Todos acreditam na existência de uma grande corte celeste ao redor do trono de Deus. O profeta Miquéias em sua visão afirma: "Eu vi o Senhor assentado no trono com todo o seu exército em sua presença, a sua direita e a sua esquerda" (1Rs 22,19). Também Daniel relata a presença dos anjos ao redor de Deus quando diz: "Um rio de fogo brotava da frente dele, milhares o serviam e milhões estavam às suas ordens" (Dn 7, 10).

O tempo mais forte do culto aos anjos, se deu no período pós-exílico (século VI a .C). O povo distanciava-se lentamente de Deus; em parte devido ao sincretismo de culturas pagãs existentes na Palestina, em parte ao retorno tumultuado para sua terra após tantos anos, e também pela dificuldade em adaptarem-se novamente ao meio. A distância entre Deus e o mundo tornava-se imensa, necessitando dessa forma a intervenção dos anjos. O povo tenta achar um intermediário entre eles e Deus. O anjo terá dessa forma a incumbência de trazer e levar "os recados" do mundo celestial para o terreno. Proteger os humanos de todos os perigos e ajudá-los a resolverem seus problemas. 

Assim, para uma melhor compreensão, os anjos são hierarquicamente catalogados: 

a) Os arcanjos (os que ficam em volta do Senhor no trono da glória).

b) Os querubins; seres alados com metade humana e metade animal. Não é bem a figura do anjo como conhecemos hoje. Eles, de certo forma até aterrorizavam as pessoas pelo sua fisionomia austera de um guerreiro mau. Assemelham-se a animais da mitologia babilônica e egípcia. Eram guardiões de templos e palácios. Na tradição do Antigo Testamento, vamos encontra-los guardando a Arca da aliança(Gn3,24; Ex25,20), e estampados nas cortinas e paredes do Templo(Ex 26,1.31, 1Rs 6,29).

c) Os serafins. Outra figura mitológica. Sua imagem geralmente era retratada com seis asas, permanecendo sempre de pé diante do trono de Deus (Is 6,2). 

Isto nos faz pensar: se os povos de todos os tempos buscavam a ajuda dos anjos porque não se sentiam dignos de falarem diretamente com o Pai, será esta a razão de tantos cultos aos anjos hoje? Será que não estamos nos distanciando de Deus? Os profetas Daniel e Zacarias preocupavam-se por demais com este problema. É nesta época também que os anjos adquirem nomes próprios derivados do nome de Deus "EL". Gabriel (homem de Deus), Rafael(Deus cura), Uriel (Deus é luz), Miguel(semelhante a Deus).

No judaísmo rabínico, os anjos eram aceitos como intermediários entre Javé e o povo. Muito semelhante ao que a maioria das pessoas crêem hoje. Acreditava-se que cada pessoa possuía o seu anjo da guarda que o protegia tanto no âmbito pessoal como comunitário. Isto podemos ver claramente no incidente em que Pedro, tendo sido libertado da prisão por um Anjo, chega ao local onde estavam todos reunidos e orando, os quais tendo sidos informados por uma menina (Rodes) que Pedro estava à porta batendo, disseram:  "Você está ficando louca!" mas ela insistia. Eles disseram: "Então deve ser  o seu anjo" (At 12, 15). 

Na comunidade de Qunran (comunidade judaica que habitou no deserto, ao sul do mar morto no século II a .C), acreditavam que Deus havia criado "dois Reinos", o da luz e o das trevas, e que em cada um deles havia anjos, chamados de "príncipes" ou "espíritos" bons e maus. Os maus eram anjos de Satanás segundo Mateus e Paulo (25,41; 2Cor 12,7); os anjos da luz, também chamados de filhos do céu, eram Miguel, Gabriel, Rafael e Sariel. Miguel era o protetor de Israel (Dn 10).

No Novo Testamento o conceito "anjo' se encontra 175 vezes, 72 só no Apocalipse. São João nos coloca estes seres divinos como participantes da corte celeste (Ap 4,4ss), executores das ordens divinas (Ap 7,1; 8,2s) e protetores da Igreja. Todo anjo ou arcanjo com a terminação EL mencionado no Novo Testamento tem a incumbência de trazer uma mensagem de Salvação para o mundo.

De uma forma geral os Evangelhos retornam aos conceitos de Qunran e do Antigo Testamento, onde os anjos são mensageiros de Deus, em forma humana.

Os quatro evangelhos, as cartas de Paulo, Tiago e de outros apóstolos, colocam a caminhada de Jesus na terra constantemente acompanhada pelos anjos:

-  Na anunciação(Mt 1,20).

- No nascimento(Lc 2,8).

- Após a tentação os anjos o servem (Mt 4,11).

-  No batismo (Mc 1,2).

-  Depois da Ressurreição (Mt 28,2).

-  Depois da Ascensão (At 1,10).

-  A contínua comunicação de Jesus com o Pai através dos anjos (Jo 1,51).

Estão previstos pelos evangelistas e escritores do novo testamento, que os anjos serão de grande utilidade no futuro da Igreja:

- Mateus nos garante que na segunda vinda do Senhor os anjos estarão com Ele (13,49),

- Lucas acrescenta que serão eles os encarregados de nos levarem ao paraíso (16,22),

- Que no céu eles fazem uma grande festa quando aqui na terra alguém se salva ( 15,10),

- Sempre nos socorrem na hora da morte( 16,22).

Portanto, ao constatar tantos depoimentos sobre a poder, a obediência e o serviço dos anjos em relação a Deus, podemos concluir que estes seres celestiais são indispensáveis em nossa vida, mas não devemos jamais substituí-los pelo próprio Deus. O culto aos anjos é admissível enquanto veneração, louvor, respeito e reconhecimento deles como mediadores da Revelação do Projeto do Pai para a humanidade.