O Jesus histórico (Prof. Dita)

O Jesus histórico é o mais  enfocado e fácil de entender, pelo fato de ser semelhante a nós, mas , ao mesmo tempo se torna difícil pelo fato de  muitas vezes não aceitarmos Deus como humano.

 

Em 1945 no Egito, na região chamada Nag Hammadi, foram encontrados 53 manuscritos, entre eles um evangelho, o de São Tomé, e neste evangelho 114 ditos de Jesus.O que temos certeza é de que Jesus viveu num ambiente camponês da Galiléia. Teve uma casa em Cafarnaum (vila de Nazaré). “E deixando Nazaré, Jesus foi morar em Cafarnaum” Mt 4,13. Caná também foi outra localidade muito visitada por Ele. Alguns textos nos falam da experiência de Jesus como homem do campo.

 

  “Aprendei com os lírios do campo...” Mt 6,28.

A plantação do trigo onde o joio (erva daninha) toma conta.  Só alguém que possui uma prática no  modo como se planta e se colhe, conhece as técnicas e os problemas.  Mt 13,24-30.

 

Outra certeza que temos é de que Jesus falava o aramaico entre a família e os amigos, e o hebraico para ler as Escrituras. Em algumas citações suas quando quer transmitir intimidade usa o aramaico como no episódio na  cura da filha do chefe da sinagoga. “Tomando a mão da criança Jesus disse: Talítha  kúmi (levanta ovelhinha)” Mc 5,41 - maneira carinhosa e íntima de tratar as crianças.

 

Noutra ocasião quando ousa chamar a Deus, seu Pai, de paizinho, papaizinho, abba, no aramaico (Mc 14,36; Rm 8,15; Gl 4,6). Os evangelistas e os cristãos  primitivos colocaram na boca de Jesus o termo ABBA como sinônimo de carinho e intimidade com o Pai.

 

O conteúdo dos escritos sobre Jesus nos faz crer que Ele fosse um homem alfabetizado, onde no seu tempo, na Galiléia, somente 5% das pessoas  o eram. Como homem também  e na sua profissão de carpinteiro, houve algumas contradições: Um artesão era considerado pessoa de classe média baixa, mas um curador, um feitor de milagres, no caso Jesus, (nos quatro evangelhos existem 31 milagres realizados por Ele, onde 17 são de curas e 06 de exorcismo), era alguém muito especial. Jesus foi chamado de “o médico por excelência”, portanto, considerado de classe média alta.

 

No Antigo Testamento uma pessoa possuidora do Dom da cura era considerada inspirada ou revelada por Deus. Portanto, ir ao médico denotava  falta de fé. Asa, um dos reis de Judá cf. 2Cr 16,12, não consultou a Deus  numa doença, preferindo o médico, e morreu. Doença era sinônimo de pecado.

 

Jesus curava gratuitamente, enquanto que os sacerdotes cobravam e, assim, tinha o título de taumaturgo. Havia até câmbio de moedas no templo para isso.  Jesus é contra esta atitude dos sacerdotes,  expulsando a  todos do templo, incluindo os cambistas. Mt 21,13.

  

Estratégia de Jesus

 

Sua  meta principal em algumas ocasiões era reconstruir  o ambiente familiar. Ele nos mostra isso quando ensina a partilhar o afeto, a comida, a amizade e a hospitalidade. (a multiplicação dos pães).

 

Jesus desafiava as normas de comportamento e organização social de sua época, na história do fariseu e o publicano.  Ele  critica os intelectuais, os “justos”. Lc 18,9-14. Quis mostrar também que o pecado não afasta as pessoas de Deus se ela buscar o perdão.

 

Um outro fato importante de sua vida como ser humano, foram suas freqüentes viagens à Jerusalém, e que, segundo alguns textos, tinha grandes amigos por lá.

 

Quando precisa, alguém lhe empresta um jumentinho. (Mc 11,1-4).

Quando quer um local para sua última ceia com os discípulos, um homem lhe empresta a sala  de sua casa. Mc 14,12-16.

 

Nessa perspectiva, a encarnação de Jesus foi  obra trinitária.

Em muitas partes  do evangelho ele nos diz  ter sido enviado pelo Pai.

 

O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou. Jo 4,34.

 

Quem não honra o filho não honra também o Pai. Jo 5,23.

 

Eu desci do céu, não para  fazer a minha vontade,  mas daquele que me enviou. Jo 6,38.

 

Que direi? Pai, salva-me desta hora? Foi precisamente para esta hora que vim. Jo 12,27.

 

Paizinho (ABBA), afasta de mim este cálice. Mas não seja o que eu quero, mas o que tu queres. Mc 14,36.

 

Deus nos amou primeiro. Enviou seu Filho para nos salvar. 1Jo 4,10.

 

Empenho do Espírito Santo

 

Um outro fator importante na vida terrena do Mestre se dá pela presença constante do Espírito Santo:

 

Na Anunciação -  O Espírito Santo  através do anjo Gabriel, acampa em Maria que traz para a terra o Filho de Deus. Lc 1,35.

 

O mesmo anjo traz uma mensagem do  Espírito de Deus  a José sobre a encarnação de Jesus. Mt 1,20.

 

No Cenáculo -  O amor de Deus é tão grande por nós, diz Lucas, que  mesmo depois de cumprida a sua missão, Jesus não nos deixa abandonados, permanece conosco através do Espírito Santo (At 2). 

 

Vivemos portanto,  o tempo do Espírito Santo. É ele quem comanda o mundo e as pessoas que o invocam.

 

Afinal porque Jesus se encarnou?

 

Poderíamos enumerar quatro hipóteses:

 

1ª)   Para nos reconciliar com Deus.

 

2ª)   Para que conhecêssemos melhor o amor de Deus.

 

3ª)   Para que Ele fosse o nosso modelo de virtude.

 

4ª)   Para que nos tornássemos participantes do Reino de seu Pai.

            

E por que Jesus morreu?  

Conforme os quatro evangelistas, sua morte se deu pelo fato Dele ter sido considerado pelos judeus um blasfemador, alguém  muito liberal na obediência às Leis.” “O Sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado.” Mc 2,27.

 

Um outro motivo teria sido por intitular-se um novo Deus, aquele que perdoa, que acolhe o mais fraco e mais humilde. Lc 10,25-37. Na parábola do bom samaritano Ele quis mostrar aos judeus que se chega a Deus pela sua graça e não por seus próprios merecimentos.

 

Jesus foi considerado pelos romanos como  um agitador político. Ele prega um Reino onde a política e a religião caminhariam juntas. “Em verdade vos digo que muitos dos que estão aqui presentes antes de morrerem verão o Reino de Deus chegando, com poder e glória”. Mc 9: 1.

 

Finalmente  Ele sela sua sentença de morte. O Sumo- Sacerdote  Caifás aconselha aos judeus do  Sinédrio:  “É melhor que um só homem morra pelo povo”.  Jo 18,14.

 

 

Como as comunidades aceitaram o Jesus histórico?

 

Paulo dizia: “Cristo morreu” possivelmente referindo-se a sua morte como o Messias, o encarregado da missão de Deus. Não está dito em lugar algum que Jesus o homem, tenha morrido. A morte como ser humano foi em solidariedade com os humanos. Ela se dirige a toda raça, toda língua e toda condição. Cristo tomou o nosso lugar. 1Cor 15,3-11.

 

Provavelmente os cristãos das comunidades primitivas não aceitavam de bom grado a amizade dos judeus, pelo fato de crerem  no crime  do deicídio (pessoa que mata um Deus).  “A vós agora, ó ricos!... condenastes e matastes o Justo, e Ele não vos resistiu” Tg 5.1,6.

 

Entre os judeus de Jerusalém, havia um homem muito sábio por nome Gamaliel,  um Mestre que provavelmente tenha sido professor de Jesus e certamente o foi de Paulo. Ele disse um dia aos judeus quando estes continuavam perseguindo os cristãos convertidos do judaísmo e de tradição helênica: "Cuidado homens de Israel, vede bem o que vão fazer a estes seguidores do Cristo..." At 5, 35-39.

 

José de Arimatéia  foi também um outro judeu que aceitou a Jesus como homem e como Deus, mesmo sendo um membro do Sinédrio. Mc 15,43, como também Verônica (mulher judia). É  desconhecida explicitamente dos evangelistas. Mas, provavelmente seja uma das mulheres do texto de Lc 23,27s.”mulheres, não chorem por mim , mas por seus filhos...” A verdade é que ela aparece  nos escritos a partir do século XV. Consta também na Via-Sacra, na 6ª e 7ª estações, onde as mulheres choram e lamentam a morte do Mestre. Portanto, certamente essa mulher  existiu, não foi um personagem de ficção.

 

Por isso que,  englobar todos os judeus como inimigos de Jesus é simplesmente um grotesco e desinformando  preconceito e ignorância . O certo é que o cristianismo nasceu do judaísmo. Que nós os cristãos, recebemos dos judeus  a fé no Deus único, Eterno, o Deus de Abraão, de Israel e de Jacó. Mc 12,29.  Que Jesus nasceu de mãe judia e da descendência de Davi. Que os primeiros  discípulos, os apóstolos e os primeiros mártires eram judeus.

 

 

Disse um dia um teólogo da nossa Igreja: A Sinagoga e a Igreja estendem-se as mãos. Mas, entre elas, há a cruz e o crucificado: Jesus o Messias = Cristo.