O JOVEM JUDEU QUE SE TORNOU CRISTÃO

            Dando seqüência às nossas reflexões teológicas e pastorais teremos como enfoque o plano exegético (o texto em seu contexto) e  hermenêutico (o texto para hoje), nos quais iremos conhecer  melhor a vida de um homem que se destacou no grupo de Jesus, o discípulo e apóstolo Mateus; como também o motivo pelo qual estamos lendo e meditando nas missas dominicais, desse ano, somente sobre o  seu Evangelho.

A importância do calendário litúrgico

            É fundamental que os (as) catequistas conheçam o valor do ciclo das leituras do domingo no que tange aos três Evangelhos sinóticos, (visão de conjunto, com temas semelhantes, mas com interpretações diferentes), Mateus, Marcos e Lucas.

O calendário litúrgico tem início no primeiro domingo do advento o qual é organizado em ciclos: ano A => Mateus, ano B => Marcos e ano C => Lucas. Estamos no ano A, portanto, em Mateus; e em função disso dois objetivos são propostos:

- Ajudar aos fiéis a crescerem na compreensão do Mistério de Deus e de sua Palavra;

- Por meio da repetição de um mesmo Evangelho por certo tempo nas missas dominicais, que todos possam entender melhor a mensagem de Jesus Cristo e conhecer distintamente o ponto de vista de cada um dos evangelistas.

            O quarto Evangelho (João) é lido em parte no ano B, como também nas festas e tempos fortes da liturgia, como a Quaresma, tempo pascal etc.

 

Quem foi Mateus?

            Antes de qualquer coisa, é bom que saibamos que nenhum evangelista nos deixou seus dados biográficos ou como viveram particularmente; o que temos são deduções ou conjecturas fundamentadas em seus escritos e de outros autores do seu tempo. Todavia, um fato importante a considerar é que muitas vezes nos passa despercebido nas representações artísticas dos apóstolos, a sua juventude e longevidade. Sabemos que a maioria deles chegou a viver até a metade ou final do primeiro século, o que nos leva a crer que eram por demais jovens quando se tornaram discípulos de Jesus.

            O que conhecemos com certeza sobre Mateus é que ele foi um judeu zeloso pela Lei de Moisés e dos profetas, homem muito rico e odiado por seus irmãos que o consideravam um traidor. Como profissão era cobrador de impostos, também denominado de publicano, classe muito odiada pelos judeus, que os chamavam até de “traidores do seu povo”, pelo fato de cobrarem impostos de seus irmãos para o inimigo; e, além disso, geralmente, sempre a mais. Os publicanos aumentavam seus salários arrecadando uma soma superior ao que era estipulado pela Lei e ficando com o restante.

            Mateus coletava pedágio na estrada que ficava entre Damasco e Aço, fora da cidade de Cafarnaum, o que lhe permitia também explorar os pescadores lhes cobrando impostos altíssimos, além de tomar um tributo extra sobre artigos de luxo dos viajantes e mercadores que por lá passavam.

            O dinheiro desses publicanos era considerado maldito e impuro, por isso os judeus ao pagarem seus impostos nunca queriam troco. Eles não podiam ser testemunha no tribunal e nem pagar o dízimo do seu salário no Templo, portanto não praticavam sua religião. Um bom judeu jamais seria amigo de um publicano.      Nessa linha de pensamento, e diante do que vimos, Mateus foi considerado em sua época um homem culto. Sabia ler, escrever, contar e calcular, além de ser muito rico. Após o seu chamado, segundo Lucas (5,28), este ofereceu a Jesus um grande banquete em sua casa, havendo ali a presença de muitos publicanos, razão pela qual Jesus foi criticado pelos de seu tempo. (Lc 7, 33.34). No entanto, o que esse episódio mostra é que houve uma real transformação em sua vida.

            Lucas chama Mateus de Levi (5,27-29) e como razão dessa diferença permanecem duas teorias:

1ª) Antes de seguir ao Mestre seu nome verdadeiro era Levi, sendo trocado por Jesus para Mateus pelo seu significado, “dádiva de Deus”.

2ª) Mateus pertencia à tribo sacerdotal de Levi, por isso algumas pessoas o chamavam assim.

            Ciente de que Mateus foi um judeu desvelado e preocupado em guardar as Leis, mas, ao mesmo tempo de apresentar Jesus como o Messias esperado por seu povo o qual veio cumprir as profecias, é que o faz um fiel seguidor do seu Mestre, por isso diz ele: “Tudo isso aconteceu (se referindo a encarnação de Jesus), para que se cumprisse o que o Senhor falou pelo profeta (Isaias) nas palavras: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho cujo nome será Emanuel (Deus conosco)” (Mt 1,22; Is 7,14).

            Conforme demonstrado, Mateus quando nota que Jesus o vê com outros olhos e não como aquele homem preso a uma profissão desprezível aos olhos de todos, ele se sente diferente. Jesus anteviu além das aparências, percebendo nele um futuro discípulo e apóstolo, alguém com capacidade de, a partir dali, poder receber grandes responsabilidades.

             Acredito que a palavra chave e transformadora que ocasionou a conversão de Mateus foi o “segue-me” (9,9). Jesus usa a palavra grega akoloutei significando também “acompanhar, imitar, romper com o passado”, submetendo-se com fé e obediência à salvação oferecida por Jesus Cristo (Mt 19,16-30).

O convite de Jesus a Mateus, como também a nós cristãos de hoje, se condensa numa exigência messiânica, ou seja, participar de sua vida inteiramente (paixão, morte e ressurreição – Cl 2, 12), ser sua testemunha (At 1, 8) e como tal devotar-lhe total obediência evangélica e, por conseguinte, também a Deus, algo que se alcança quando obedecemos as orientações recebidos de nosso pastor maior, o Papa (Hb 13, 17).

Foi dessa forma que Mateus entendeu o chamado de Jesus no seu tempo; e é como devemos entender o chamado que Ele nos faz hoje. Só assim, poderemos cumprir nossa vocação por meio dos dons (1 Cor 12, 1-12) concedidos pelo Pai e perseverarmos na missão que Ele nos confiou.