Mulheres escondidas na Bíblia... Tamar - Profª Dita.

Amigos, e amigas, mais uma vez estou partilhando com vocês uma das minhas grandes alegrias que é  poder escrever sobre uma personagem da Bíblia a qual povoa os meus sonhos há longos anos. Falo de uma mulher, cuja história se encontra no Gn 38,1-30. É pouco conhecida na liturgia de nossas Igrejas, mas traz em si uma profundidade imensa do amor a Deus, paciência, sabedoria, persistência, coragem, desprendimento e fé. Essa mulher chama-se Tamar.

sua memória atravessa séculos de história como uma das mais belas do Antigo Testamento. Dessa forma, convido a todos vocês a junto comigo refletir essa apaixonante e significativa história.

Desde quando ainda não havia a escrita, essa história era contada oralmente entre as famílias de Israel, possivelmente ao pé do fogo no final de um dia de cansativo trabalho no campo. 

Provavelmente, essa narrativa nos coloca no período da formação da tribo de Judá, lá pelo tempo dos patriarcas. Tamar era uma mulher estrangeira, nascida em Canaã. Entra na tribo dos israelitas pelo casamento, unindo-se ao primogênito de Judá, Er. O autor do texto apresenta uma grande predileção por Tamar o que denota a sua intenção ao contar a história, na preservação da família e na obediência ao Deus único acima de tudo. Tamar é a heroína perfeita para desmascarar o falso líder, Judá.

Bem mais tarde, no tempo da Monarquia, essa novela (gênero literário) é colocada por escrito. O País de Canaã é unificado pelo rei Davi assumindo mais tarde o trono seu filho Salomão. Contudo, pelo fato do desempenho do rei não agradar muito ao povo, estes sonhavam com o passado, o tempo feliz onde as tribos eram livres. Dessa forma, alguns grupos resolvem recordar as histórias do passado e entre elas a de Tamar e Judá. As tribos se sentiam perdidas e frustradas pelas atitudes injustas do rei e contrárias a vontade de Deus. Um caminho alternativo foi fazer memória do passado, onde uma mulher se sobressai na tribo de Judá, mudando toda uma estrutura e a vida em Israel. Dessa forma surge a história de Tamar como exemplo real do amor e da justiça de Deus aos mais fracos, desprotegidos e excluídos. Deus ama e protege os simples.

Através de Tamar, o povo pode perceber que mesmo sendo mulher, submissa e estrangeira, portanto discriminada, ela busca uma saída e a volta aos verdadeiros valores tribais: a aliança, a bênção e a descendência. A vida e o exemplo de Tamar vai mostrar ao povo como lutar pelo direito e a justiça, caminhar com Deus e cultivar a virtude do despreendimento. 

No inicio do texto ela aparece como que submissa, obediente, mas a partir do meio e no final há uma reviravolta total na história. Como escolhida de Javé ela impede que uma nação inteira desapareça.

E quem é Tamar? Foi sem dúvida curioso para mim descobrir por que o autor escolheu o nome Tamar para essa mulher, uma palmeira! a tamareira! para personificar o lado feminino de tão importante história. Ao longo da pesquisa fui descobrindo que sua escolha não poderia ter sido mais acertada. A tamareira é encontrada em boa parte da Palestina e em todo o Oriente. É uma palmeira muito preciosa. Seu tronco é forte, suas folhas verdes e seus frutos doces e saborosos. Proporciona uma sombra agradável para o descanso, principalmente nos oásis do deserto:

É elegante e fecunda (2 Sm 13,1). 

Por sua beleza rara, serve de imagem da esposa de Cântico dos Cânticos (7,8-9). 

Pela sua formosura e vigor, tornou-se a imagem da resistência e da justiça (Sl 92,13). 

Simboliza também a vitória e a invencibilidade (1Mac 13,51; Jo 12,13). 

Foi usada como ornamento nas liturgias do Templo (1Rs 9,26). 

É a marca principal da imponência (Ct 7,8), 

e também da vida plena e abundante (Sl 92,13). 

É chamada a árvore da vida.

O salmista compara uma pessoa justa (Tamar) a uma tamareira. No deserto ela serve como bússola, um marco geográfico pela sua altura. Diante das enormes tempestades de areia no deserto quando toda vegetação fica encoberta, só a tamareira pode ser vista ao longe. É refrigério para os andarilhos cansados, famintos e sedentos. A tamareira produz frutos em cachos e é considerada o símbolo do Israel bíblico. O cacho da tamareira sugere crescer junto, num mesmo espaço, como uma família. Sua figura imponente com suas folhas finas pode resistir ao forte vento do deserto sem cair. Ela não se abate com o calor e nem com o frio, pelo contrário, partilha com todos o que tem de melhor, sua sombra e frutos. 

Agora meus amigos e amigas, existe um nome melhor que Tamar, para a protagonista dessa maravilhosa história da Bíblia?

Tamar foi considerada uma heroína pela sua forma de agir, não em beneficio próprio mas do seu povo. Foi ardilosa, inteligente e teimosa, mas também ingênua e romântica. Seu encontro com Judá às portas de Enaim, está envolto por uma névoa de mistério e romantismo. Uma mulher sábia, sedutora, perfumada e doce. 

Por que ela age daquela forma? Tamar percebe a condição em que viviam as mulheres na época patriarcal, invisíveis perante a sociedade, excluídas, obrigadas a se calarem às injustiças, importantes apenas pela fertilidade e procriação e ela age.

Tamar não se sente confortável diante daquela situação. Reconhece que tem valores além do que apenas ser fértil, assim luta por seus direito e pela justiça, da forma como pode. Diz com seus atos, que povos com etnias e crenças diferentes podem encontrar um meio de convivência em paz. Sua presença foi marcante e imprescindível nos movimentos messiânicos e foi digna de constar na genealogia de Davi ( Rt 4,17) e de Jesus (Mt 1,3; Lc 3,33).

O que podemos concluir das hipótese apresentadas é que Tamar foi elevada ao nível dos patriarcas.

O que podemos deduzir é que, diante da força de Tamar, algumas grupos de mulheres de nossas comunidades tem mais um subsídio para pensar alternativas, poder imprimir sua marca na luta social, política e religiosa ao lado dos homens, buscando juntos a preservação da vida, do direito da justiça e da paz.

Uma conclusão possível é que todas nós mulheres temos uma grande responsabilidade diante do mundo e dos homens, eles saíram de nós.

Refletindo: diante da lei, da justiça e da igualdade de gênero nos dias atuais, que contribuição os personagens de Tamar e Judá nos oferece no espaço em que vivemos?