Páscoa Judaica/ Páscoa Cristã (Prof ª. Dita)

 

Como cristãos, mas com raízes judaicas, quase sempre nos perguntamos: o que temos em comum com os judeus? Que tipo de pessoa era Jesus nas festas memoriais do seu povo? Como celebrava sua tradição? As festas do tempo de Jesus e principalmente a páscoa, sua paixão, morte e ressurreição,  bem como o envio do Espírito Santo e principalmente  a pessah, devem ser compreendidas como pano de fundo para que estas comemorações adquiram maior luminosidade e importância de sentido.

 

 

O calendário judaico fixo, foi organizado em Jerusalém pelo Patriarca Hillel II, no ano 358 da era cristã. O ano dos judeus  consiste   em  12 meses lunares.  Alguns com 29 dias e outros com 30, sendo acrescido de um mês  a mais,  o adar II,  sete vezes num ciclo de 19 anos, a fim de concilia-lo com o ano solar. O ano judaico possui 354 dias.

 

 

Todo o israelita do tempo dos Patriarcas (1800 a . C), guiava-se pelas aparências, pela observação das posições do sol, e pelo amadurecimento das espigas em suas lavouras.   O início do ano dos judeus começa na lua nova, seguindo o equinócio da primavera. Seu primeiro mês  oficial é o tishrê.

 

Entre as inúmeras festas, os judeus tradicionais dão uma maior importância às de peregrinação. No tempo de Jesus ainda eram festas pastoris e agrárias, comemoradas na primavera e outono. Porém, as festas individuais marcam fortemente o calendário judaico. Uma delas é o bar-mitzvah:  início à vida religiosa oficial dos meninos e sua inserção na religião como  adulto. É o sonho de todo adolescente judeu. Ao completar 13 anos (no tempo de Jesus é 12), o jovem passa a ter a obrigação de participar de todas as  festas celebrando a sua entrada oficial como adulto no mundo religioso pelo  Bar-Mitzvah (filho do mandamento).

Deve praticar os 613 mandamentos divinos, sendo responsável por todos os seus atos.

 

A festa principal, desde a saída do Egito, era a pessah (páscoa), e a festa do matzah (pão sem fermento ou pão ázimo), distintas no início, mas agregadas posteriormente. A pessah, vinha do costume que o hebreu adquiriu como tribo nômade, de oferecer um cordeiro macho de dois anos, em sacrifício a Javé, aspergindo o seu sangue no umbral das portas ou na entrada da tenda. Este era um ritual de agradecimento por ter sido poupado por Javé  da matança dos primogênitos no Egito.

 

A festa do  matssah se origina do costume agrário de consagrar os primeiros feixes de trigo e cevada a Javé.  Deste  primeiro trigo fez-se  o pão chamado da aflição, pela  pressa que tiveram  em sair do Egito, não dando  tempo para fermenta-lo.

O judeu juntou as duas festas, tornando-as um sinal visível de Deus ao povo,  quando o libertou da escravidão do Egito (Ex 12,1-28).

 

No segundo século depois de Cristo, a pessah dos judeus seguia esta ordem: Na mesa, à frente do chefe da família, colocavam-se quatro cálices de vinho. Ele lavava as mãos (ritual de pureza), pronunciava  o kidush (a benção), bebia um pouco do vinho do primeiro cálice, passando em seguida a todos. Servia-se o matssah com as verduras amargas e as sem sabor. 

 

Novamente o Patriarca segurava o segundo cálice, pronunciava o kidush (dava graças com os salmos 113 e 114) bebia um pouco do vinho e juntamente com o cordeiro assado era distribuído  a todos. 

 

Em seguida novamente lavava as mãos, pegando o terceiro cálice. Quando ia pronunciar a bênção, era interpelado pelo filho mais novo que dizia: “Pai, por que o judeu celebra a pessah? O pai orgulhosamente  responde ao filho e a todos os presentes a história do Êxodo. Em seguida todos bebiam o vinho  do terceiro cálice  juntamente com as verduras amargas  e os ovos. Este momento é chamado de hagadah (narrativa de um fato histórico), e obrigatoriamente é repetido em todas as pessahs deste a saída do Egito”.

 

O quarto cálice de vinho, não era tocado por ninguém, pertencia ao profeta Elias, que segundo a tradição, traria o Messias na pessah. Separar este cálice de vinho para o profeta, era uma maneira de agradece-lo pelo cumprimento da promessa. 

 

Símbolos da Pessah hoje

 

Tudo tem início com o seder (ordem, preparação).

Dois dias antes da pessah ao cair da tarde, o seder começa a ser preparado. Retira-se da casa tudo que contenha fermento. No calendário judaico, 18 horas de Sexta-feira já é shabat (Sábado). São convidados os familiares para participarem juntos. São apresentados à família todos os símbolos da pessah para que nunca esqueçam porque estão ali celebrando até o Sábado seguinte. Esta preparação serve para unir as famílias. Cada um se organiza e arruma a mesa com  carinho, fé e continuidade da sua Tradição.

 

A família coloca em destaque o menorah (castiçal de sete braços). Ele representa a Criação. Seis velas simbolizam os seis dias quando Deus criou o mundo e o ser humano. A sétima vela é o shabat dia Santo do descanso do Senhor.

O primeiro Menorah foi confeccionado ainda no deserto, por ordem de Moisés, seguindo a Revelação de Deus.

 A arrumação da mesa é importante para o entendimento da festa. Não pode faltar o zoroah (Pedaços de carneiro assado), relembrando o cordeiro pascal O cordeiro era o ponto mais forte da celebração, onde se relembrava com orgulho o dia em que Deus poupou todos os primogênitos dos hebreus (Ex 12,22ss).

 

Um outro alimento são as verduras, principalmente as amargas (maror).É para que nunca esquecessem  o amargor do cativeiro no Egito. O charosset (massa de frutas cítricas), uma mistura de maçã, passa, amêndoa, canela em pó, mel e vinho, simboliza a argamassa de que eram feitos os tijolos que os hebreus eram obrigados a fazer como escravos do Faraó.

 

O karpaz (verdura sem sabor) não pode faltar. Ela representa a vida insípida e sem sabor vivida pelos  hebreus  durante quase duzentos anos no Egito.

Terminado  os dois dias do  Seder, iniciava-se  a pessah.

A pessah foi um episódio na vida do povo hebreu que já dura 32 séculos. Esta festa é ainda uma ferida de recordações tristes, mas também de agradecimento por Deus ter-lhes poupado do extermínio  de seus primogênitos e os libertado da escravidão do Egito. No I século depois  de Cristo disse um dia o Rabino Gamaliel II: “Em cada geração, cada judeu deve encarar-se a si próprio como se também ele houvesse saído do Egito”. Não foram só  nossos antepassados que se libertaram, mas através deles, todos nós”.

 

A ceia da Pessah é muito importante para o calendário judaico, porque é a única que segue uma ordem cerimonial; por isso se chama seder (seqüência ordenada dos fatos).

 

Em Israel hoje, a Pessah é comemorada diferentemente do que é na Diáspora (judeus fora do seu País). Lá, cada família festeja de acordo com as tradições particulares do grupo ou da tribo a que pertencem. Entre os religiosos, muitos se reúnem em frente ao muro das lamentações para ler trechos do Talmud (instrução da Torah).Cada Kibuts (comunidades de judeus e não judeus)  celebra como pode. Quase todos fazem uma procissão de crianças e adultos, festejando a primavera e a colheita dos frutos. Pessah em Israel hoje é a mistura da Tradição histórica com a primeira Independência do povo ocorrida em 14 de maio de 1948.  A festa adquire dimensões universais, recebendo o título de  Festa da liberdade.

Desta maneira  a Páscoa judaica atual é celebrada com cinco nomes diferentes:

 

  v    Festa de Abib (da primavera).

 

  v    Festa da Pessah (passagem)

 

  v    Festa da saída do Egito.

 

                      v    Festa do Nisan (primeiro mês da saída)

 

                      v    Festa da liberdade.

 

Liberdade  de amar um Deus presente em nossa história. Ele que nos dá gratuitamente tudo o que temos sobre a nossa mesa. É um Deus presente. 

 

Um poema do Zé Vicente (poeta popular) ilustra essa festa da liberdade.

 

Ó Deus presente,

nossos presentes nós te ofertamos.

Trazendo pão e vinho,

Da memória e Tradição,

Da eterna Aliança,

Sempre nova no cristão.

O corpo todo entregue,

Por amor em comunhão...

Os frutos produzidos nestas terras conquistadas,

As flores dos jardins,

de tantas casas arrumadas...

As dores e vitórias, desta nossa caminhada...

É tudo teu, Deus do amor  

Trazemos novo mapa da história alternativa,

A nova humanidade, solidária e combativa...

Lugares onde habita a esperança sempre viva.

É tudo teu, Deus do amor  

No peito a saudade das pessoas tão queridas...

Nos olhos tantos sonhos de um futuro com mais vida...

Nos pés a marcha lenta,

Para a terra prometida...

 

 

É tudo teu Deus do amor

 

 

Contudo, com qualquer título em que seja celebrada, a páscoa judaica traz consigo uma simbologia forte a qual conseguiu chegar até nós os cristãos. O principal ritual nunca é esquecido, a liberdade. Tudo é muito característico. A leitura da hagadah, os pratos dos alimentos simbólicos, as perguntas das crianças, as respostas dos adultos, os cantos de alegria e de agradecimento a Deus e a  frase primordial: “O ANO QUE VEM  EM JERUSALÉM!...”.

 

O chefe da família veste uma túnica branca, coloca  o quipah (solidéu), eleva a bandeja  com os três matssôt que estão no centro da mesa representando  os três Patriarcas, Abraão, Isaac e Jacó. Mostra-os aos presentes e diz: Vejam!  este é o pão da aflição que nossos pais comeram na terra do Egito... Agora estamos aqui. Oxalá estejamos no ano que vem na terra de Israel! Animem-se amigos, observem as maravilhas que Deus fez. Nos tirou do Egito com mão poderosa, com sinais e maravilhas. Nos trouxe à Terra Prometida onde jorra leite e mel, agradeçam a Ele por tudo isso. (Dt 26,8-9). Jamais deixaremos de contar a história do nosso povo onde nos referimos aos sentimentos de nossos antepassados. Com humildade ou orgulho, alegria ou tristeza, poder ou fraqueza, triunfo ou destruição

 

Jesus comemora sua Páscoa

 

Como  cidadão judeu Jesus comemora a sua páscoa com inteira e total liberdade. Tudo tem  inicio  no Domingo de Ramos com a sua entrada triunfal em Jerusalém. Ao aproximarem-se da cidade santa Jesus disse: “meus amigos, eis que estou subindo à Jerusalém. Serei entregue ao Sumo Sacerdote e escribas. Me condenarão à morte. Serei açoitado e crucificado, mas ressuscitarei no terceiro dia”. (Mt 20.17-19).

 

Essa é uma cena tão familiar para os cristãos que é como se ouvíssemos Pedro, João e Jesus num diálogo informal:

Pedro:(olhando para João): E a nossa páscoa, não será celebrada? Não podemos deixar de realizar a festa mais importante do nosso povo. O Mestre aproxima-se: Pedro, sobre o que você e João conversavam?

Pedro: Estávamos apreciando a narrativa da Pessah pelos nossos irmãos judeus, e pensando na nossa .

João (olhando para Jesus): Não vamos também celebrar a nossa Páscoa Senhor? Onde queres  que a preparemos? Jesus responde: Vão os dois até a cidade e lá encontrarão um homem com uma bilha de água. Ele virá ao vosso encontro. Segui-o.  Onde ele entrar aí é que vamos comemorar a nossa Páscoa. Arrumem tudo e depois venham me avisar.

Jesus  dá a incumbência a Pedro e João  de prepararem  o seder. Os dois e outros discípulos encontraram a casa que Ele  havia dito. Compraram tudo que foi necessário. O cordeiro, o pão sem fermento, o vinho. Arrumaram o ambiente da maneira correta  seguindo o costume de todo judeu. 

Na Quinta-feira Jesus e seus discípulos  comem juntos sua última Ceia de páscoa. Jesus na intimidade daquela refeição  dá-lhes  suas ordens,  para que no futuro  a páscoa deles   tivesse um sentido cristão, isso quando Ele já não estivesse mais  com eles.

Jesus pegou o pão sem fermento e disse:

Este pão será a partir de hoje o meu corpo, tomai e comei todos vós (Lc 22,19).

 

A partir daquele momento, segundo os evangelistas não haveria mais a necessidade de um cordeiro imolado para a páscoa, Jesus era aquele cordeiro que tira o  pecado do mundo (Jo 1,29)

 

Novamente pega o cálice com vinho de sobre a mesa e diz:

 

Este vinho será o meu sangue. Tomai e bebei todos vós. Ele é a Nova e eterna Aliança. Fazei isso para sempre, celebrando assim a minha memória (Lc 22,20).

Fundamentados nestes ensinamentos de Jesus, busquemos juntos, todos os cristãos construirmos nossas vidas com sabor de liberdade como a Pessah dos judeus. Uma liberdade  da morte para a vida,  pela graça que Jesus nos concedeu através da sua ressurreição. Por isso Ele nos disse:

Se pois eu vos libertar, sereis realmente livres (Jo 8,36), Eu sou a ressurreição e a vida. Ninguém virá ao Pai senão por  mim.(Jo 11,25)”. 

 

Um poema em forma de canto, um salmo atual, nos coloca a dimensão real do amor de Deus por todos, através da sua  encarnação, paixão morte e           ressurreição:

 

 

 

 

Por sua morte a morte viu o fim,

Do sangue derramado,

A vida renasceu...

Seu pé ferido, nova estrada abriu,

E neste homem,

O homem enfim se descobriu.

Meu coração me diz:

O amor me amou,

E se entregou por mim,

Jesus ressuscitou!

Passou a escuridão

O sol nasceu.

A vida triunfou: Jesus ressuscitou

Jesus me amou,

E se entregou por mim.

Os homens todos podem

O mesmo repetir.

Não temeremos mais a morte e a dor,

O coração humano em Cristo descansou.