Quem cuidará das Crianças? Profª Dita

Outubro é um mês rico em celebrações, mas as crianças ainda são o ponto alto da festa. Gostaria de partilhar com vocês a minha inquietação quanto as crianças e adolescentes deste nosso imenso país. Projetos, campanhas, leis e estatutos são preocupações dos nossos governantes, mas infelizmente do muito que é projetado, grande parte ainda continua apenas no papel, e assume aspecto teórico, pouco sendo efetivamente colocado em prática. 

A Lei Federal nº 8.069 de 13 de Julho de 1990, criou o "Estatuto  da criança e do adolescente", porém esta lei  é quase desconhecida pela maioria dos brasileiros e pelos principais interessados, pais, educadores e os próprios adolescentes. O seu desconhecimento gera uma acomodação prejudicial ao crescimento como pessoa de milhões de jovens brasileiros, pois não se pode cobrar do Estado uma lei desconhecida. 

Só como exemplo, gostaria que vocês refletissem comigo o artigo 5º do Estatuto da criança e do adolescente, e percebessem como é real o descaso e esquecimento das nossas crianças: "Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Será punido pela lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais". 

Como filhos de Deus, cristãos comprometidos e apóstolos, somos responsáveis pelo Projeto de Jesus Cristo nesta terra. Devemos buscar continuamente a justiça e o cumprimento da verdadeira lei "os mandamentos de Deus ". Será que não está na hora de fazer valer nossos direitos? No que a Bíblia pode ajudar? Como era vista a criança e o jovem nas famílias do Antigo Testamento? O que constatamos é que os filhos eram bênçãos de Deus. Representavam o cumprimento da promessa feita desde o primeiro Patriarca de Israel, Abraão." Farei de ti uma grande nação e te abençoarei, disse o Senhor" (Gn 12,12). Famílias numerosas, portanto eram sinal de prosperidade e amor de Deus. Em provérbios lemos: "Os filhos da juventude são flechas nas mãos de um guerreiro. Feliz o homem que enche sua aljava com elas: não será derrotada na porta da cidade quando litigar com seus inimigos".  (Sl 127, 4-5). 

Uma história por demais valiosa que nos revela da importância de preservar a vida das crianças está no livro do Êxodo (1,15-2,10). Mais ou menos doze séculos antes de Jesus nascer, O rei do Egito percebia que o povo de Deus (hebreu), a cada ano se multiplicava e se organizava. Temendo que um dia fossem tantos que provavelmente tomariam o seu reino, teve uma idéia: chamou as parteiras que atendiam as mulheres hebréias e deu-lhes a seguinte ordem: __ "Quando assistires aos partos das mulheres dos hebreus, observai a criança; se for menino matai-o e se for menina deixai-a viver". O que o rei não sabia era que estas parteiras amavam a Deus e a preservação da vida, portanto não o obedeceram. Resultado: a cada ano, mais e mais o povo de Deus aumentava. Intrigado, o rei novamente manda chamar as parteiras. __"Por que me desobedecestes?" elas lhes responderam: "Sabe senhor, as mulheres dos hebreus não são como as mulheres dos egípcios, elas são fortes e corajosas, dão à luz sozinhas antes que cheguemos lá" (Ex 1, 19)

A Bíblia não conta se o rei acreditou ou não naquela "bondosa" mentira, o certo é que não se conformou e novamente novas ordens foram dadas. __"Aquele que encontrar um menino hebreu recém-nascido deve joga-lo no rio" (Ex 1, 22). Aí estava a sentença de morte para aquelas crianças nascidas nos lares dos hebreus. Numa aldeia perto do palácio morava uma família de hebreus, pessoas que amavam e obedeciam a Deus, porém muito pobres e indefesas diante das duras ordens do rei. A mulher esperava um filho para muito breve. Sabendo da nova ordem do monarca apavorou-se. Quando deu à luz ao seu filho, conseguiu escondê-lo por três meses até que resolveu colocá-lo num cesto e soltá-lo no rio, com o intuito de salvar a sua vida. Rezou para que a correnteza o levasse ao local onde a filha do rei naquele momento banhava-se. Deus preservou a vida daquela criança. A princesa o encontrou, salvou-o das águas dando-lhe o nome de Moisés (tirado das águas). A criança foi educada como seu filho tornando-se um nobre. Mais tarde Moisés, atendendo ao chamado de Deus, liberta e salva o seu povo de uma escravidão que lhe pesava há séculos.

Nossa situação hoje.

A nossa realidade não está tão distante deste fato. Não se ordena hoje que se jogue crianças nos rios, mas se permite tirar-lhes o direito de viver das mais diferentes formas. Existem graves problemas e dificuldades dividindo as famílias e impedindo-as de se organizarem e resistirem a tantos obstáculos que a vida lhes oferece. Quantas mães não são obrigadas a abandonarem seus filhos, não nos rios, mas trancadas em suas próprias casas, a fim de irem trabalhar e lhes garantir uma vida digna. 

Em quase todos estes lares não existe uma família convencional onde pai e mãe dividem os encargos da educação dos filhos, mas apenas um deles e quase sempre a mãe. Estas mulheres sonham um dia ter o que lhes cabe por lei a seus filhos, que alguém com senso de justiça se levante e lhe estenda a mão conferindo aos seus filhos o que lhes é de direito: saúde, educação, boa alimentação, lazer, proteção e o direito de ser feliz, como aconteceu ao menino Moisés. 

Talvez seja este o primeiro passo de um longo caminho onde se tire das ruas as nossas crianças para que não se tornem jovens delinqüentes por falta da nossa ajuda.