Qunrã e o Evangelho de João - Profª Dita.

O evangelho de João gira em torno de um tema:

Jesus é Deus!

Ao contrário dos sinóticos, são abolidos todos os traços de fraquezas e fracassos da figura de Jesus e seus discípulos. Ele está acima dos acontecimentos. Daí não se perceber nenhuma angústia de morte em Jesus no Getsêmani. Jesus sabe tudo antecipadamente, não havendo necessidade de nenhum beijo de Judas. Ele se entrega livremente nas mãos de seus inimigos. (18,1-12). 

A negação de Pedro, é o único acontecimento que mostra fracasso (18,15-18. 25-27), mas João o coloca como o cumprimento de uma profecia do antigo Testamento. 

Jesus tem o domínio e o conhecimento de todos os acontecimentos de sua missão. Este domínio também percebemos no seu diálogo com Anás (18,19-24) e com Pilatos (18,28-38). 

O momento aos pés da cruz em que Maria acompanhada de João, torna-se mãe da Igreja e de todos nós, é um texto exclusivo do quarto evangelho. (19,25-27). 

No texto da ressurreição, João coloca o aparecimento de Jesus a Maria Madalena numa concepção de ascensão ao céu. Ele não apenas desaparece da terra mas, aparece de um jeito novo, em corpo, mas glorificado. É como Ele se dá a conhecer a Tomé (20,27-29). 

O capítulo 21 de João, é uma redação posterior, onde Jesus encoraja o seu povo para uma pesca proveitosa (21,1-14), instituindo Pedro como pastor do seu rebanho (21,15-23). 

Nas leituras paralelas que foram realizadas durante o curso para um melhor entendimento do quarto evangelho, vimos a época da Patrística (séculos II ao VI), as correntes filosóficas da época, e outros. Porém não poderíamos esquecer um povo muito influente no evangelho de João, a comunidade de Qunrã, de onde emanaram grande luz para o seu entendimento. Sabemos que o evangelho de João foi composto ao longo de muitos anos, ao mesmo tempo em que se desenvolvia elementos de origem de Qunrã, dos apocalipses judaicos, da literatura sapiencial, do midraxe rabínico e dos textos gnósticos. Há muita coisa também de Platão. É o judaico junto ao grego helenístico. Alguns exemplos:

§ O dualismo luz e trevas. Jo 1,4s ; 3,19 ; 12,35 ; 1Jo 1,5s.

§ Verdade e mentira. Jo 3,21 ; 8,44 ; 1Jo 2,21. 27.

No rolo encontrado na gruta 1 de Qunrã (as margens do mar morto) chamado Regra da comunidade, lê-se: "Ele criou os anjos da luz e das trevas, e sobre eles fundou todas as obras" (1Q 3,25). Luz do mundo, verdade e vida, paráclito, são qualificativos de Qunrã para a Torah, e João os coloca para Jesus.

O evangelho de João fala sobre a luz que resplandece nas trevas (Mc 1,5), como luz do mundo (8,12), e de uma batalha entre a luz e as trevas.

O Prólogo de João apresenta outros paralelos com os textos de Qunrã, onde faz referência sobre o Deus criador: "tudo existe e acontece porque Deus em sua sabedoria o ordenou"( regra da comunidade 1Q). 

Portanto, o evangelho de João, teve muitas influências exteriores e principalmente da comunidade de Qunrã. Para entendermos um pouco sobre a forma de escrever de João e o que o levou a mesclar os seus escritos com os de Qunrã, é por demais interessante conhecermos um pouco desta comunidade.

§ Em 1949 foi descoberta a primeira gruta (gruta1)

§ Em 1952 a gruta 2 e 3. 

§ Em 1956 a gruta 6 e 11. 

§ Em 1962 as grutas menores. ( 5,7,8,9,10).

Na gruta 1, foi encontrado o livro completo do profeta Isaias, comentários do livro de Habacuc e normas que regulavam a vida da comunidade.

De onde vieram estes manuscritos?

Existem algumas teorias: 

§ Foram guardados nas grutas para se resguardarem dos ataques romanos. Lá foram encontrados vários cemitérios com mais de 1.200 túmulos. Portanto, ali viveu uma grande comunidade, isto antes do ano 70 d.C quando Jerusalém e o Templo foram destruídos. Uma comunidade sectária (pertencente a uma seita).

§ Usavam um calendário diferente dos outros judeus. 

§ Eram considerados como os eleitos, os homens da Nova aliança, os filhos da luz, os numerosos, os pobres. Talvez esta comunidade fosse composta de saduceus, zelotas e fariseus. Ou talvez ainda de uma comunidade de essênios. Os escritores do primeiro século,( Flávio Josefo, Plínio, Filon de Alexandria), nos deixaram relatos sobre os essênios. Segundo eles,a comunidade de Qunrã tinha muita afinidade com os essênios. Exemplos: 

a) Noviciado para ser admitido. 

b) Vida em comum. 

c) Estrita observância da pureza ritual. 

d)  Comida comunitária. 

e) Possível celibato de seus membros. 

Um fato diferente entre a comunidade de Qunrã e os essênios, é que os essênios não se isolaram do judaísmo. A hipótese mais concreta do surgimento desta comunidade (grupo de Qunrã), é que vieram de homens judeus com idéias apocalípticas da Palestina, e que tiveram suas origens na ruptura que houve no movimento essênio durante o reinado de João Hircano(134/104 ªc). Alguns sacerdotes judeus se mantiveram agrupados ao que eles chamavam de "Mestre da justiça", separando-se dos outros judeus, migrando para o deserto e estabelecendo sua própria comunidade em Qunrã. Alegavam que não se adaptavam:

a)  Problema do calendário. 

b) Organização do ciclo festivo. 

c) Maneira diferentes de entender as prescrições bíblicas e do Templo (culto e pureza). 

d) O entendimento de como seria o final dos tempos. Eles viviam na tensa espera escatológica. 

O seu zelo pelo estudo e a interpretação da lei é que formaram esta rica biblioteca. O evangelho de Marcos tem muita influência sobre a comunidade de Qunrã. 

Na gruta 7, em 1972, foi encontrado fragmentos dos evangelhos de Marcos, atos dos Apóstolos, Epístolas aos Romanos, 1ª Epístolas de Timóteo, 2ª carta de Pedro e Tiago. Isto nos informa que até o ano 50 da nossa era os 4 evangelhos e todo o Novo Testamento já tinham adquirido a forma que nós conhecemos. Isto destrói todas as hipóteses até hoje afirmadas sobre o tempo do Novo Testamento.

Na gruta 7 foi encontrado também o texto de Mc 6,52-53.

///////////

Comentários sobre este estudo podem ser enviados para dita.teologia@canbras.net