Prefácio à primeira edição

             Esta obra é fruto de uma longa pesquisa sobre Maria, a partir dos livros apócrifos, os quais hoje representam material valioso em torno de assuntos ainda obscuros e pouco conhecidos.

            Estas obras resguardaram muitas histórias ainda desconhecidas da grande maioria das pessoas, seja em virtude do peso negativo que por longo tempo recaiu sobre elas, ou mesmo pelo desconhecimento de sua existência, algo compreensível a partir de uma visão conservadora, que definia a Bíblia como tendo conteúdo suficiente para a questão da fé e da prática cristã.

            No entanto, o resgate de novos fatos sobre temas e personagens bíblicos, algo largamente explorado nesses livros, reflete seu valor histórico e sua importância dentro de uma compreensão mais profunda dos próprios mistérios bíblicos, uma vez que estas obras traduzem o pensamento de um povo e sua maneira de compreender a história da qual foram partícipes.

            “Histórias de Maria que a Bíblia não conta” é um dos grandes exemplos de como um povo reage às interferências divinas dentro do seu contexto, seja pelo juízo que faziam dos fatos que muitas vezes não compreendiam, seja pelo próprio registro, feito de maneira diversa, dentro da visão que cada um fazia do assunto. Assim, para um mesmo fato muitas explicações diferentes foram dadas, provocando o surgimento de histórias paralelas que, embora destoando aqui e ali, convergem para um único sentido e apontam para uma crença comum, compartilhada por todos.

            A obra que ora está sendo apresentada, não impõe aos leitores uma crença, apenas busca compreendê-la partindo do seu sentido histórico, resgatando sua origem e trajetória, permitindo, desta forma, conduzir aquele que a investiga por um caminho de maior compreensão deste fenômeno milenar que é a fé existente na figura de Maria, como filha, virgem, mulher e principalmente mãe (de Deus).

            É um livro que resgata, sobretudo, o papel de Maria dentro dos propósitos divinos, tornando-a um exemplo de fé, obediência a Deus, abnegação e serviço. Além disso, são fatos que ajudam a entender, de uma forma mais convincente, a realidade contida em sua própria declaração, quando diz: “Desde agora todas as nações me chamarão bem-aventurada!”. 

(Abaixo você lê um trecho do livro)

.....Algum tempo depois, Ana retirou sua roupa de luto e, descendo ao jardim, sob um pé de louro, orou ao Senhor pedindo um filho. Tomada por completo pela prece que fazia, ela teve uma visão na qual lhe apareceu um anjo do Senhor e lhe disse: “Ana, Ana, o Senhor te ouviu: conceberás e darás a luz, e da tua prole se falará em todo o mundo”.

Possuída por uma felicidade incontrolável, Ana faz uma promessa dizendo que, fosse esta criança um menino ou uma menina, seria consagrada ao Senhor e estaria por toda sua vida a seu serviço.

Nesse ínterim, o anjo do Senhor visita Joaquim no deserto e lhe diz: “Joaquim, Joaquim, o Senhor escutou teus rogos; volta, pois, que Ana, tua mulher, vai conceber em seu ventre”. Ele, então, volta apressadamente para casa ao ouvir essas boas novas.

            E assim, cumprido o tempo, Ana deu a luz. Ela pergunta à parteira: “A quem dei a luz?” Ao que a parteira lhe respondeu: “Uma menina”. E Ana, então, após amamentá-la deu-lhe o nome de Maria.

Ainda segundo o Proto-Evangelho de Tiago, ao completar um aninho, Maria recebeu de seus pais uma linda festa de aniversário, não com balões, bolos, velinhas, ou coisas desse tipo, como acontece no aniversário de nossos filhos hoje, mas, como uma espécie de apresentação à sociedade. Além dos familiares e amigos da família, foram convidados os sacerdotes, escribas e demais autoridades do povo, para que todos pudessem contemplar como Deus os havia abençoado. Foi um banquete semelhante ao que Abraão ofereceu no dia em que Isaac foi desmamado (Gênesis 21, 8). Isso nos comprova que os pais de Maria não eram tão pobres como muitos imaginam, mas pertenciam a um ciclo de amizade com pessoas importantes e influentes em Nazaré.

            Nesta ocasião, Ana levou Maria até o oratório de sua casa e lá compôs um hino ao Senhor em agradecimento por tê-la tornada fértil e lhe transformado a maldição em bênção. Ela cantou:

 

Entoarei um cântico ao Senhor meu Deus, porque me tem visitado e tem apartado de mim o opróbrio de meus inimigos, e me tem dado um fruto santo que é único e múltiplo aos seus olhos. Quem dará aos filhos de Rubem a notícia que Ana está amamentando? Ouví, Ouví, todas as doze tribos de Israel: “Ana está amamentando”.

 

            Quando Maria completou dois anos Joaquim sugeriu a Ana que a levasse ao Templo, para pagar a promessa que ela havia feito a Deus de entregá-la ao seu serviço. Ana resistiu-lhe, dizendo: “Vamos esperar que ela complete três anos para que não sinta tanta saudade de nós”.

Assim, ao completar três anos, Joaquim convidou algumas virgens das famílias dos hebreus para que os acompanhassem com suas lamparinas acesas, num cortejo semelhante àquele que é mencionado no Evangelho de Mateus 25,1-13 sobre as dez virgens.

            Ao chegarem no Templo, foram bem recebidos pelo sacerdote que, pegando Maria no colo, a beijou e disse: .........