O Rosto de Cristo – Profª Dita

 

 

         O rosto de Cristo sempre aguçou a imaginação de cada um de nós. Como seria seu semblante? A cor de seus olhos? Seu sorriso?

 

          No tempo de Jesus muitas pessoas queriam estar ao seu redor simplesmente para ver o seu rosto, como Zaqueu cujo objetivo era simplesmente “ver quem era Jesus” (Lc 19, 3).

 

          Ao contrário do que imaginamos, seus traços físicos não se perderam na história, mas existem alguns registros de sua aparência. Nos achados arqueológicos de Qunram foram encontrados documentos que traçam as características físicas de Jesus, como por exemplo a carta de Lentulus Publius enviada  ao Imperador Tibério César, onde num trecho lemos:


”.....
É um homem alto e de majestosa aparência; sua face, ao mesmo tempo severa e doce, inspira respeito e amor a quem a vê. Seu cabelo é da cor do vinho e desce ondulado sobre os ombros; é dividido ao meio, ao estilo nazareno. Sua fronte, pura e altiva, sua cútis pálida e límpida; a boca e o nariz são perfeitos; a barba é abundante e da mesma cor dos cabelos; as mãos finas e compridas; os braços de uma graça encantadora; os olhos azuis, plácidos e brilhantes...”
*

 

         O Livro Sagrado, na voz dos evangelistas, utiliza várias formas de descrever o rosto do seu Senhor. Por exemplo, na transfiguração diz “...e se transfigurou diante deles, e o seu rosto brilhou como o sol....”. (Mt 17, 2).

 

       No Apocalipse nova visão do rosto de Cristo, e desta vez o apóstolo João o descreve como se segue “...cabelos brancos como lã, como neve; os olhos pareciam como chama de fogo....; seu rosto brilhava como o sol ao meio dia”. (Ap 1, 14-15).

      

       Outros ainda, sem descrever traços físicos, divisavam em Cristo simplesmente a imagem de Deus, como o apóstolo Paulo que escrevendo sua segunda carta aos Coríntios diz: “Pois o Deus que disse: ´Do meio das trevas brilhe a luz!´ foi ele mesmo que reluziu em nossos corações para fazer brilhar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece no rosto de Cristo”. (2º Cor 4, 6).  Este mesmo pensamento continua na carta aos Hebreus, onde o autor se refere ao rosto de Cristo sem explicitamente mencionar traços físicos “O Filho é a irradiação da sua glória e Nele Deus se expressou tal como é em si mesmo...”. (Hb 1, 3); ou ainda” mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumador da fé...”. (Hb 12, 2).

 

       Precisamos hoje, de maneira especial, repensar como temos contemplado a face de Cristo, pois muitos de nós cristãos católicos, ainda nos fixamos na face de um Cristo pendente numa Cruz, cujo semblante transmite dor e sofrimento. De certa forma, isto nos inspira mais a um sentimento de pena e compaixão do que a uma ação de trabalho e serviço. Podemos buscar saídas na forma como os discípulos reagiram ao descobrir o Cristo vivo. Estes, após sua morte, fechados num recinto, tristes, com medo de saírem, serem perseguidos e mortos; logo que tiveram contato com o Cristo ressurreto, transformaram este medo em ousadia e se espalharam pelo mundo levando a mensagem salvadora.

 

        Também os discípulos de Emaús (Lc 24), quando contemplavam ainda um Cristo morto caminhavam para sua cidade tristes, abatidos, sem perspectiva, sem rumo, frustrados e derrotados; quando, porém, na partilha reconhecem o Cristo ressuscitado, correm para a cidade com seu ânimo e expectativas renovados.

 

       O Sumo Pontífice, em sua carta  denominada ROSARIUM VIRGINIS MARIAE, descreve com doçura e singeleza como Maria contemplou o rosto de seu filho de várias formas e assim nos convida a desenvolver  nossa fé numa contemplação cada vez mais autêntica do mistério de Cristo em nós.

Seguindo os passos místicos de Nossa Senhora, descobrimos que na sua dor de mãe, perdendo seu filho de uma forma tão desumana e cruel, ela não se prendeu ao momento, mas guardou em seu coração a promessa do amor do Pai, conseguindo superar o sofrimento, acreditando no mistério maior da redenção, no tesouro definido do amor de Deus e na alegria da ressurreição e Pentecostes, o acontecimento mais forte de uma Igreja que renasce para contemplar o verdadeiro rosto de Cristo na pessoa do Espírito Santo.

 

       São enfocados por Nossa Senhora, segundo João Paulo II, 5 aspectos diferentes da contemplação de Cristo:

 

-         O olhar interrogativo - Ocorrido quando Jesus tinha doze anos e seus pais perderam-se Dele. Ao encontrá-lo sua mãe lhe diz: “Filho, porque nos fizeste isto?” (Lc 2, 48).

-         O olhar penetrante - Ocorrido nas bodas de Caná, onde Maria divisa o íntimo de seu Filho a ponto de, como mãe,  perceber seus sentimentos. Diante disto ela exclama: “Fazei tudo quanto Ele vos disser” (Jo 2, 5).

-         O olhar doloroso - Ocorrido sobretudo aos pés da cruz, onde Maria contempla seu Filho no momento crucial de sua vida. Ali, momentaneamente, ela perde um filho e adquire outro ao ver Jesus entregar João aos seus cuidados.

-         O olhar radioso – Observado no momento em que se concretiza a ressurreição. Podemos imaginar a alegria que se irradiou do rosto de Maria,  ao tomar conhecimento da consumação plena do amor de Deus à humanidade, revelada através da vida, morte e ressurreição de seu Filho.

-         O olhar ardoroso – Finalmente, a promessa de que o Filho (Emanuel) estaria conosco para sempre, se realiza na efusão do Espírito Santo ocorrido no dia de Pentecostes. Até hoje vivemos este momento, à medida que deixamos que o Espírito Santo atue sobre nós através de nossos dons, talentos e carismas, que a partir de então nos tornam vocacionados para a missão que Deus nos confiou.

 

       Ao contemplarmos “o rosto” de Cristo hoje, se faz necessário também evoluirmos de um estágio a outro, não nos fixando somente no Cristo pendente na cruz, mas avançarmos ainda mais, adquirindo também esta visão mais completa de seu mistério entre nós.

 

       Por isto, mais do que nunca, precisamos rever com qual estágio da vida de Cristo mais nos identificamos, e em qual deles firmamos nossa fé, num Cristo morto ou num Cristo ressurreto?

 

  

*  [obs.: a carta citada acima, bem como outros documentos que circularam no tempo de Jesus, podem ser lidos na íntegra na seção “Literatura Apócrifa” no item “Documentos antigos”]