Estudo exegético no livro da Sabedoria - Profª Dita

Definir a "sabedoria" é impossível. Sua tradução no hebraico hokma e no grego sofia designa a capacidade do ser humano, inata ou adquirida, de bem conduzir a própria vida e, se possível, ser feliz. 

A sabedoria surgiu em Israel, ao que parece, em ambiente rural. Mais tarde os sábios bíblicos sacerdotes e profetas a enraízam em um campo da vida pessoal como norma de vida.

No tempo de Salomão (século X a .C), abrem-se em Israel, à semelhança do que já havia ocorrido no Egito, escolas de escribas para a formação dos sábios da época. Estas escolas ensinam administração, diplomacia, sabedoria política, arte de fazer um recenseamento, etc.

A sabedoria como vemos no livro do mesmo nome do Antigo Testamento, nos aparece como uma reflexão sobre a vida e sobre a experiência. Como uma espécie de filosofia, ela parte da vida vivida e se aplica a todos os domínios da existência. Germina no terreno da vivência do povo e se transmite de geração em geração. Foram pessoas que quiseram deixar conselhos e normas de do bem viver aos seus descendentes para vencerem na vida.

O livro da Sabedoria, tem por título no grego: Sabedoria de Salomão. Pode ter sido escrito na segunda metade do século I a .C. Faz parte dos livros chamados pela igreja católica de deuterocanônicos (segunda lei). Não é reconhecido pela igreja evangélica como canônico e como tal recebe o nome de apócrifo (não canônico). Aqui cabe um adendo explicando esta diferença. 

Existem sete livros a mais na Bíblia católica, que até hoje causam alguma polêmica. São eles: Tobias, Judite, 1º e 2º Macabeus, Baruc, Eclesiástico, Sabedoria, partes de Daniel (13-14) e Ester (10,4-16,24).

A causa desta divergência se encontra numa simples diferença de opinião. Os judeus mais antigos, dividiam os livros do Antigo Testamento em três grupos distintos: - O Pentateuco (Torá); - Os Profetas (Nebiim); - Outros escritos (Ketubim). Seguindo esta divisão, a Bíblia hebraica possuía 24 livros. Mais tarde, os próprios judeus subdividiram os livros de Samuel em (1º e 2º), dos Reis em (1º e 2º), das Crônicas em (1º e 2º) e de Esdras em, Esdras e Neemias. Assim a Bíblia passou a Ter 39 livros. Esta é a Bíblia adotada pelos evangélicos.

Os 7 livros escritos em grego, foram considerados inspirados bem mais tarde. Vão constar na primeira tradução grega (LXX) da Bíblia hebraica. Por isso foram chamados de Deuterocanônicos, isto é, livros aceitos como inspirados bem mais tarde, uma segunda lei. Foram adotados pela igreja católica e considerados canônicos.

O motivo maior do livro da Sabedoria vir a pertencer ao Cânone hebraico (mesmo escrito em grego) é o seguinte: Na época da reforma (século XV), ele não foi considerado canônico por alguns. É um livro pouco estudado. Muitos o vêem como um tratado de Teologia política. Tentaremos estudá-lo numa visão católica, evangélica e judaica.

O Antigo Testamento amadureceu muito em Alexandria. Este processo nos leva ao estudo da bênção de Deus, que nos traz força, vigor e fertilidade. A bênção possui um significado totalizante e penetra até mesmo na palavra como aperfeiçoamento ou amadurecimento da vida. é neste contexto que a sabedoria visa uma ação concreta e se instala na literatura bíblica sapiencial.

Esta literatura será a mediadora de um processo realmente prático, por isso a bênção é o fio de ouro que costura todas as tradições. O livro da Sabedoria é um ápice ou o livro mais perfeito do Antigo Testamento. ele chama Deus de "o amigo da vida" (11,26). A comunicação da bênção extravasa o próprio povo de Israel, é o que explica a retomada da literatura sapiencial no conhecimento de outros povos.

Israel entrando em contato com outras sabedorias, adquiriu conhecimentos, fundindo-a à sua sabedoria javista. Este processo foi realizado em Alexandria, a qual se tornou um tipo de laboratório onde as sabedorias grega e egípcia eram estudadas e enriquecidas com a fé judaica.

O livro da Sabedoria é também um documento que ilustra muito bem o processo de integração (judeus em ambiente hostil), mas que guarda uma absoluta fidelidade à sua tradição. Israel soube integrar e criticar estes valores e se abrir à uma novidade muito maior, o surgimento do Novo Testamento.

Alguns exegetas dizem haver citações sobre o Novo Testamento no livro da Sabedoria. Lyonete é um deles. Acreditamos que para ser uma comunidade canoniozante (aquela que decidia se um livro podia ser bíblico ou não), esta deveria ter muita fé e crença em Deus. Por isso, os livros bíblicos possuem várias tradições. As listas dos livros considerados canônicos dependia da comunidade que o enviava.

Houve um Sínodo no litoral palestinense com a presença maciça dos fariseu judaicos na cidade de Jâmnia, onde foi discutido quais os livros que fariam parte do Cânone judaico. Neste sínodo, foi resolvida a posição do judeu. Ele disse o que para ele era Bíblia e o que não era. Este foi um grande golpe no processo literário. Nesta época, todos conheciam a tradução dos LXX com os sete livros, mas que foram bloqueados por este grupo de judeus que diziam: "a Bíblia judaica é a mais correta, por isso, não aceitamos a grega (usada pelos cristãos)". Estes judeus foram chamados de judaísmo rabínico, ou corrente rabínica.

O fruto deste Sínodo foi: 

            a) estabeleceram o que era a Bíblia.

            b) decidiram que era um texto para eruditos.

            c) voltaram-se somente para as tradições.

            d) ressuscitaram fontes perdidas de sua tradição.

             e) mandaram revisar a LXX de acordo com o que achavam correto.

Estes rabinos extirparam uma Bíblia que a séculos era usada pelos judeus gregos. Eles quiseram destruir a versão dos LXX de seus irmãos da diáspora, impedindo que o cristianismo proliferasse. Quando na LXX aparecia o termo Kristos, automaticamente era trocado por outra palavra. Decididamente, os tradutores da Bíblia hebraica na versão LXX, para os gregos foi de suma importância.

Devido a este fechamento pelo Sínodo, muitos judeus ortodoxos se converteram ao cristianismo. A Bíblia hebraica ficou conhecida como a Bíblia Ortodoxa Rabínica. 

Afim de se salvar do cristianismo, o judaísmo fechou-se em si mesmo (religião fechada é sinônimo de seita), ao invés de expandir-se. Usaram o processo da auto-defesa; para se manterem vivos se fecharam. Foi quebrada uma tradição muito rica ao rejeitarem a LXX e entregando-a aos cristãos. Flávio Josefo, Fílon de Alexandria (morrem no ano 100d.C) e o próprio livro da sabedoria narram esta abertura.

Problemas de autoria real e fictícia

As primeiras citações sobre o livro da Sabedoria atribui-lhe à Salomão, porém, desde a época patrística há dúvidas sobre isso. Salomão não poderia tê-lo escrito devido ao fato de  sua linguagem ser helênica. Podemos considerar como um autor fictício.

Um autor é chamado de fictício quando ele escreve algo que considera bom, quer obter resultados imediatos do seu trabalho, mas não é uma pessoa conhecida e nem famosa no meio literário; recorrendo a um nome influente da época e colocando seu nome. 

Na linguagem corrente o livro foi conhecido como: Sabedoria de Salomão, o que perdurou até o II século, vindo mais tarde a descobrir-se que este possuía apenas o título de Sofia (19,22).

O livro não cita nomes próprios. Crisóstomo, Atanásio e outros também confirmaram esta hipótese, como também duvidaram da autoria de Salomão e de sua canonicidade. Esta problemática atravessou a idade média chegando até a moderna.

É provável que o nome Salomão como autor deste livro nos diga algo como: 

a) uma nova doutrina sapiencial helenizada.

b) um gênero literário novo.

 c) a adaptação de uma antiga doutrina (sábios de Israel?) a um tempo               ......moderno.

O autor fictício não era visto como um usurpador ou falsificador, mas apenas alguém que tem pressa em ensinar algo novo ao povo em geral e para isto tem que invocar um nome respeitado por sua sabedoria (no caso Salomão).

Existem sete hipótese acerca do verdadeiro autor do livro da Sabedoria:

1) A primeira é que o livro é da autoria do sacerdote Onias II (2 Mac 4,30-38) morto em 171 a .C.. Esta tese é do teólogo francês Bigoir. Para ele, o livro reflete os distúrbios e as confusões que agitaram a comunidade judaica antes do período dos Macabeus. Nestes distúrbios houve divisões entre os ímpios e os justos. Os judeus que abandonaram a fé e os que continuaram cultivando a sua tradição milenar. Nesta confusão Onias se refugia e escreve o livro, o qual ficou inacabado por motivo de sua morte (isto explica o contexto palestinense do justo perseguido pelo ímpio).

2) A Segunda é que poderia ter sido de Aristóbolo, um judeu autor de outros livros (filosóficos), os quais tentavam mostrar que existia uma dependência literária entre Aristóteles e Moisés. Aristóbolo é do século II a .C. Deste modo, é quase impossível ser ele o autor, a não ser que o livro recue no tempo. Também o contexto de Sabedoria, mostra perseguições, e Aristóbolo viveu em tempo de paz.

3) Terceira hipótese, é que poderia ser da autoria do neto de Sirácida. É bem verdade que a tradução grega do livro tenha muita afinidade com este homem. Em 1967, Romamink, um italiano, endossa esta hipótese. O prólogo de Sirácida está em torno do ano 132 a .C.

4) A Quarta coloca Fílon de Alexandria como seu autor. Filósofo grego que viveu entre 20 a .C e 54 d.C.. Esta hipótese foi defendida por São Jerônimo a qual vingou em toda a idade média. Até Lutero sustentou esta tese. Hoje ela não encontra mais defensores; a afirmação é de que "Sabedoria" foi anterior a Fílon de Alexandria.

5) A Quinta hipótese se fundamenta na autoria de Apolo (At 18,24-28) que o teria escrito depois de uma perseguição de Calígula. Que os capítulos de 2-5 seriam o primeiro testemunho histórico da impressão produzida e uma provável referência a Jesus Cristo. "O porvir do justo oprimido seria diferente"; e como garantia ele se apresenta maior que Salomão. A tese é de que Apolo também tenha sido o autor da carta aos Hebreus, após sua conversão e escrito o livro da sabedoria antes.

6) A Sexta hipótese se refere como autores os Essênios ou os Terapentas. Esta tese é do século XIX (1886). Após o descobrimento dos pergaminhos em Qunran, percebeu-se que os essênios de lá possuíam uma sabedoria bem diferente. Os Terapentas, eram de uma comunidade egípcia muito semelhante aos essênios (grupos contemplativos). A única fonte de informações e conhecimento dos Terapentas é através de Fílon de Alexandria e é muito escassa. 

Havia no entanto grandes diferenças entre Terapentas, Essênios e o conteúdo do livro da Sabedoria. Em 9,5-7, a mulher é igual ao homem perante Deus; os dois são chamados de servos, o que não se admitia entre essênios e terapentas. Como monges contemplativos eram contrários à igualdade e liberdade das mulheres.

7) Na sétima e última hipótese, "Sabedoria" poderia ser da autoria de um judeu alexandrino desconhecido. Concluindo, podemos supor que o autor deste livro é anônimo e seguramente um judeu alexandrino. Talvez tenha sido um pai que perdeu seu filho precocemente, pois os gregos viam a sabedoria presente no sofrimento e esta trazia conhecimento. Assim o livro da Sabedoria, pertence ao judaísmo alexandrino. Este é o seu meio social, cultural e político, e quem o escreveu viveu os momentos narrados, pois faz alusão aos egípcios contemporâneos. A data mais provável ficaria entre Fílon de Alexandria (20 a .C a 54 d.C) ou seja, 50 a .C a 20 d.C).

Judaísmo helenístico (retrocedendo no tempo)

O livro da Sabedoria provavelmente surgiu na época grega (333 a .C e 63 d.C). Neste tempo, a cidade de Alexandria está ligada ao seu fundador, Alexandre Magno. Que a fundou e lhe deu o seu nome.

Para entendermos melhor o contexto do livro da Sabedoria, voltemos no tempo. Acontecia o retorno do exilados babilônicos (século VI a .C). Neste ambiente de volta, é que surge o judaísmo e a prescrição do rigor das tradições na tentativa da reconstrução do Templo. Posteriormente a história do judaísmo continua com Alexandre Magno, rei da Macedônia (356-323 a .C). Um monarca poderoso e empreendedor de novas culturas e tradições no ambiente grego. Morreu aos 33 anos sem herdeiro.

Com sua força tentou unir os Impérios da Macedônia à Índia, mas como morreu sem deixar herdeiros, seu império foi dividido entre seus comandantes em quatro partes -  Antígolo, Cassandro, Ptolomeu e Seleuco. Dois destes impérios se subrepujaram aos outros; o de Seleuco e o de Ptolomeu (Egito). O governo adotado pelos judeus do norte do Egito (Alexandria), foi formado a partir de uma aldeia chamada Racote. O vale do Nilo era o sonho de conquista de Alexandre Magno.

Ao chegar ao Egito ele o encontra bem organizado economicamente e forma a Alexandria construindo um grande porto de escoamento de mercadorias. Alexandria era dividida em quarteirões marcados com as letras do alfabeto grego. Os judeus moravam no quarteirão delta. A cidade possuía 100Km2, palácios de mármore (material importado) e grandes construções. Recebia diariamente muitos imigrantes, geralmente vindos da macedônios, gregos e judeus. 

Cinqüenta anos depois de construída, Alexandria possuía 300 mil habitantes e um milhão no início da era cristã. Os maiores atrativos desta cidade formam: 

a) o farol. Tinha 120 metros de altura possuindo espelhos refletores (o nome farol vem da ilha de faros onde o mesmo foi construído).

 b) A Biblioteca. Instalada dentro do maior museu da época, fundado em 290 a .C. Neste museu reunia-se o que havia  de mais importante na Ciência e sabedoria da época. Esta biblioteca foi considerada por muitas décadas como a maior e melhor do mundo. Lá havia 500 mil papiros.

Grandes homens da história estudaram nesta biblioteca. Alexandria passou a ser o centro das Artes, História, Ciência, Teologia, Física, Astronomia, Matemática etc. tornou-se o foco da produção cultural e literária da época. O único mal em tudo isso é que todas estas ciências estava longe do povo, tornando-se um modelo elitista total fora da realidade populares; terminou enfim, canalizando-se para o refinamento e sofisticação de uma sociedade aristocrática. Este foi o primeiro motivo de sua decadência, a qual se transformou unicamente em um museu.

Na metade do I século a .C, o Egito já era um simples protetorado romano sob o governo de Pompeu (66-62 a .C) enviado por Roma. No ano 80 a .c, marca o final do Reinado de Ptolomeu IX, o que vai caracterizar épocas de revoltas populares, seguida de uma extrema decadência política. Houve três grandes momentos de fome e pobreza da população mais humilde no Egito, em 50 - 48 - 42 a .C. Isto em muito influenciou o meio literário. O povo queria pão e não educação.

Em 47 a .C, O Egito deixa de ser uma potência dos Lágidas tornando-se o palco de uma grande guerra, e uma das conseqüências mais graves desta guerra, foi um incêndio na biblioteca de Alexandria. No ano 30 a .C sendo o Egito já uma colônia romana, surge com toda força o judaísmo. É neste contexto que se encontra o livro da Sabedoria, como aculturação para... como reação de... os temas vida e imortalidade, presentes no livro, é produto desta época.

A vida dos judeus em Alexandria

Havia em Alexandria um centro cultural na preparação e educação dos gregos. Chamava-se Politeuma (a organização). Logo os judeus se mostraram contrário à esta educação helenística. Foi uma forma que eles encontraram para preservar a sua identidade. Alexandria como uma cidade cosmopolita possuía dois quintos de sua população de judeus, mas nem sempre numa convivência pacífica. Havia richa entre eles e os outros povos devido a sua rígida tradição. Neste tempo a cidade de Alexandria era praticamente rural, mas possuía sua própria administração. Havia duas tipos de Assembléias: boulé (civil) e Ekklésia (religiosa).

Características de Alexandria...(narrada por um historiador da época, na visão da elite)

- Fértil e rica - Muita cultura e pessoas belas - Bom rei e muito vinho - Mulheres lindas.

O que podemos deduzir do contexto alexandrino do II século, e que foi palco do livro da Sabedoria, é que era um foco de fermentação social devido ao êxodo rural. Havia muitos bandidos, medo e insegurança nas pessoas. Neste êxodo rural, a própria Grécia entra em decadência populacional. Os pobres se tornam mercenários (soldados) pelo fato de ter comida e roupa gratuita.

No I século a .C a Grécia desestrutura-se. Há uma desorganização social. Quebra-se a ordem estabelecida na Polis clássica. Segundo historiadores, o fracasso de Alexandria se dá pelo fato da não união entre o que o povo pensa e o pensamento do imperador. O povo se sente traído e enganado por Alexandre. A submissão, o regime escravocrata e os duros impostos, são o que sustentam o luxo do Império.

Nesta situação caótica, os sábios se mantinham isolados, apenas visitando museus e palácios a convite do imperador. Há uma cultura somente da elite. O povo é revoltado por trabalhar tanto sem ter direito a nada. Os judeus neste contexto procuram da melhor forma contornar a situação. Flávio Josefo e Fílon de Alexandria (dois historiadores da época), nos contam com detalhes em suas obras sobre este período conturbado em Alexandria.

Um dos problemas mais graves deste período em Alexandria, se deu com os judeus da diáspora pela a dificuldade em aculturarem-se. Esquecer suas tradições era morrer um pouco a cada dia. Muitos permaneceram firmes em suas tradições, costumes e religião. Babilônia e Alexandria são focos destes judeus persistentes. Muitas comunidades procuraram se manter unidas entre si e separadas de outras religiões. Na colônia de elefantina (no baixo Nilo), os judeus construíram um templo (é o único lugar no mundo onde há um outro templo depois de Jerusalém).

Porém de todas estas nações, as mais recordadas por Israel como modelo de opressão foram: o Egito, Babilônia e Roma. De qualquer forma, o Egito tem o maior peso por ter sido o berço do povo hebreu. 

De alguma forma, os gregos tentavam persuadir os judeus para as coisas boas que possuíam com o intuito de que continuassem morando lá e deixassem sua religião. A diáspora alexandrina chamou a atenção do Império Romano. Veja em I Macabeus 15,16-21. Neste texto há uma lista dos vários reis que receberam uma circular sobre os judeus. Em Atos 2 (Pentecostes) também é comentada sobre os judeus que vieram de todo lugar. Há uma coesão na diáspora, uma união entre eles através de cartas que trocavam entre si. 

Um químico da época descreve (dentro da linguagem química), como são estes judeus. É como se fosse uma grande gota de óleo (judeus) dentro de um vidro de água (Alexandria). Ao agitar-se este vidro esta gota se transforma em várias outras gotas (judeus e mais judeus fora de seu País) em um ambiente hostil (diáspora), mas quando é necessário há uma união entre estas pequenas bolhas, voltando ao seu estado inicial, uma única gota (um único povo), mesmo continuando num ambiente adverso.

Alguns termos gregos foram muito usados na época e transportados para o livro da Sabedoria. - Politeuma (organização cívica grega); - Katoikia (colônia de imigrantes); - Laós (povo); - Étios (nação); - Pletos (multidão); - Súnodos (multidão); - Sinagogé (reunião cívica); - Erousia (assembléia de base); - Proseuké (templo, casa de oração).

Na literatura helenística encontramos todas estas palavras com predominância para sinagogé, que mais tarde foi adotada como casa de oração dos judeus. Seu dirigente era o egóumenos. A integração do judeu no helenismo, deveria ser feita através da educação que tinha com seu principal veículo, o esporte. A cidadania helenística se chamava politéia (sistema grego de educação a partir do ginásio de esportes). Todos deviam freqüentar a escola onde eram especializados. O judeu tradicional não aceitava tal tipo de educação de culto ao corpo, era contrario às suas tradições. Os esportes gregos eram praticados nus, para os judeus era uma blasfêmia.

Os patrocinadores de todas as modalidades esportivas eram os deuses, o que também não era aceito pela comunidade judaica. O apóstolo Paulo provavelmente conhecia um manual de instrução educacional chamado no hebraico de : pirquei abot. Era usado pelos judeus na educação moral de seus filhos.

Em 37 d.C (império de Calígula), houve uma grande perseguição contra os judeus. Com a idéia de unificação dos reinos, Alexandre Magno fez expandir-se as escolas de Filosofia por todo o País. Desta forma, as correntes filosóficas proliferaram na cultura do povo.

Doutrinas filosóficas

Epicuro => sua doutrina (o epicurismo), possuía uma lógica, uma metafísica e uma moral diferentes. - A lógica => neste ponto de vista Epicuro dizia que a sensação era o início do conhecimento. Este sensualismo levou o epicurismo ao materialismo. Para esta corrente filosófica, o mundo inteiro é composto de átomos onde cada átomo possui o ekklisis, um desvio para fora da rota normal, fazendo com que se torne impossível controlar as sensações do corpo.

Fundamentada nesta corrente do epicurismo, na Idade Média surgiu uma ordem chamada: "O Santo desvio". Eram revoltosos contra a adesão da igreja ao Estado. Para o epicurismo, a religião não pode ser verdadeira, porque: Foi o temor que introduziu os deuses no mundo, e religião é sinônimo de temor. Portanto, na vida prática o epicurismo é o convite para viver na paz e tranqüilidade, sem temor e sem deuses. O prazer é o forte no epicurismo e este foi entendido no Império romano como total liberdade moral (libertinagem), deixando assim de ser um pensamento filosófico para transformar-se no simples prazer libidinoso. Os que não concordaram com o epicurismo voltaram-se para o Estoicismo.

Estoicismo => Foi também uma filosofia séria indo desde a lógica até a física e passando pela moral. Nesta filosofia também só existe o material. O Universo é um grande corpo de fogo.

Para os estoicos, não existe separação entre Deus e o mundo. Foram eles que criaram o nome logos para designar o homem. A vida moral para eles tinha prioridade. As emoções eram proibidas predominando sempre a razão. O sábio, dentro da perspectiva histórica, não deve conhecer paixão. Os estoicos não foram aceitos pelo Império Romano. Tem-se conhecimento de que apenas o Imperador Marco Aurélio tenha sido um estóico. Dentro do helenismo o estoicismo e o epicurismo foram as influências filosóficas que mais marcaram.

Pequena interpretação do livro da Sabedoria

O início deste livro (1,1) explica como a imortalidade é assegurada, somente pela prática da justiça, e o final do livro nos diz como será a vida daqueles que fazem uma aliança com Deus. Assim, o livro da Sabedoria trata da Teologia política (os juizes). No pensamento do autor, os que exercem o poder na Palestina e Egito conhecem a Deus, por isso é exigido destes governantes da terra que:

a) amem a justiça.

b) Pensem no Senhor.

c) Procurem o Senhor. => 8,7; 11; Sl 45,7.

O termo amar no grego profano significa: procurar, preferir, desejar. No grego bíblico significa: dar-se, entregar-se, ligar-se, aplicar-se à prática. 

Justiça na Bíblia é sinônimo de retidão do homem em sua vida social e moral. É o tsedakah. É a ordem de relação estabelecida por Deus visando assegurar a felicidade do ser humano. Pode ser também o designo de Deus. É o no grego o Kirios e o Téos (Iahweh, no Antigo Testamento).

No capítulo 6, é descrito as funções reais, pois são eles que estão afastando-se da sabedoria de seus pais, esquecendo-se das tradições. Os governantes ímpios citados são os saduceus. Pensar no Senhor (7,26;12,22) é despertar boas disposições. Pensar voltando-se à prática. Algo que move a vontade. "Procurai o Senhor com simplicidade do coração...(1,1). Kardia= coração (cf. ef 6,5; Cl 3,22).

Encontramos em 9,15 ; 8,19-20 a distinção entre corpo e alma ou vida, o que não é muito comum na Bíblia. No hebraico alma se traduz por nefesh e no grego por pneum(espírito), psiké (intelecto); enquanto vida no grego se traduz por gwné.

Corpo, que se traduz no hebraico basar e no grego soma, só é usado duas vezes no livro da Sabedoria. Na biologia antiga o homem recebia a psiké (alma) ao ser gerado, e a mulher poucos meses depois que o ser humano era gerado, a partir do sangue da mãe e do sêmen do pai. Era a partir de um "coágulo"; por isso a importância ao sangue como vida no Antigo Testamento. a psiké, como sopro da vida, só é dada por Deus.

Antropologia semita - A inteligência e a razão vem através do coração, como também o domínio do pensamento e o princípio das decisões morais. Por isso a palavra psiké é melhor traduzida na Bíblia por vida do que por alma (Sb 12,3-6).

No conceito judaico, educação e disciplina tinham a mesma conotação grega. Os profetas achavam que era castigando que Deus educava o seu povo. A disciplina divina prepara o ser humano para ser um sábio. Ela não é só uma educação moral, mas prática.

Nossas considerações finais sobre este livro nos leva a pontos principais em seu entendimento, o que nos transporta ao nosso tempo. O livro faz uma memória de Salomão, mas os verdadeiros destinatários são outros: os judeus de Alexandria e do Egito, em geral os pagãos entre os quais vivia a comunidade judaica. O livro pede e os encoraja a resistirem às tentações da cultura helênica e permanecerem fiéis ao deus da aliança.

Tenta levar aos pagãos o conhecimento das verdade de Deus único, a descoberta do sentido da vida, mostrando a superioridade da sabedoria judaica sobre a grega. Do ponto de vista doutrinário a novidade neste livro é a fé na recompensa após a morte. Um prenúncio da crença na ressurreição. Deus fez o ser humano para a imortalidade (2,23). Cabe ao homem e a mulher no decorrer de suas vidas aqui na terra, serem fieis  a Deus.

O conteúdo deste livro e principalmente dos capítulos 10-19, numa perspectiva de história da salvação, preparam as reflexões do Novo Testamento sobre a graça divina como tudo que necessitamos para sermos felizes, manifestada na pessoa de Jesus Cristo, como imagem do Deus invisível, primogênito do Pai.