Tamar: Mulher Intercultural  e de Fronteira - Prof ª. Dita

Um estudo exegético e hermenêutico de Gênesis 38

Tendo como base o advento da cultura através dos costumes, tradições, experiências, relacionamentos, religiosidade,  e que podemos analisá-la de fora nas situações de conflitos e contrastes, nessa perspectiva  é possível  observar Tamar, a personagem do Gn 38,  como um corpo exposto  à ação e regulamentação de propósitos legitimadores  e androcêntricas do período patriarcal.

 

Se  numa análise superficial ela nos parece  uma “heroína”, olhando atentamente  transforma-se num modelo de obediência  às leis e costumes  do período monárquico.

 

Segundo Jacques Audinet, o corpo é o lugar onde sucede a construção do vínculo social, a troca de costumes, do diálogo, da descoberta de si e do outro. Há uma troca simbólica de conceitos, domínio e identidade na linguagem corporal, substituindo a linguagem oral proibida e massacrada pelo poder  dominante. 

 

A valorização do estrangeiro numa cultura “pura” testemunha uma atitude nova, nas diferenças assumidas, pelo cumprimento dos direitos e na necessidade de justiça.

 

Nas pesquisas sobre Gn 38, as relações Tamar/Judá geram conflitos, trazem dúvidas, mudanças e novos conceitos, no mundo da beit`av (casa do pai). Nesse contexto social de entrelaçamento de culturas e aproximação de fronteiras, o pai, chefe supremo, governa  com direitos plenos, filhos e filhas, concubinas esposas e bens.  Como senhor absoluto, é seu dever assegurar a continuidade do nome da família, a legitimidade e o poder.

 

Yves Cattin, chama-nos a atenção para algo muitas vezes despercebido, o limite/a fronteira. Segundo ele, limite “é aquilo que determina o espaço exigido para que um ser possa existir como ser no mundo, tal como é em si mesmo”.  Esse limite e essa fronteira não são impecilhos para Tamar que inventa e cria o seu próprio espaço.  Usando o seu corpo, ultrapassa os limites e as fronteiras.

 

Embora  o texto nos apresente um espaço social do clã de Judá, forte e bem estabelecido, especifica aspectos negativos em sua formação: A atitude autoritária  e individual nas decisões e julgamentos,  com a expulsão de Tamar da beit`av, a qualificação como  prostituta e  sua condenação  sem  direito a defesa.

 

Ainda citando Yves Cattin e sua afirmação de que, no imaginário coletivo  das pessoas em relação ao corpo, repousa   um espaço complexo e hierarquizado, visto de duas formas diferentes: uma, pelo sujeito que o ocupa, e outra por quem o olha, aproxima-se dele e o toca. “O corpo é este primeiro e originário território de humanidade na origem de todos os territórios e todas as geografias”.

 

Tamar não é apenas corpo, mas nos é apresentada como mulher forte, sábia e justa, pelo fato em legitimar o sistema de obediência à lei do levirato para a perpetuação da descendência da tribo de Judá. Nesta visão, é conectada a  idéia de que a teologia está sempre ligada a cultura como crítica  ou  legitimação de uma situação. Não existe neutralidade quando se trata da dimensão teológica. Tradição e costumes sempre prevalecem numa cultura.

 

Mesmo que  alguns estudiosos estabeleçam conceitos diferentes para o objetivo do texto, Tamar e Judá são personagens veiculados à ideologia do período monárquico refletido na vida semi-nômade dos patriarcas. Javé atua livremente sobre o povo, sem amarras ou qualquer tipo de opressão. Ele está sempre ao lado do pequeno, da viúva e do marginalizado pela sociedade.

 

A raiva, a mágoa  e a conscientização de uma mulher sem fronteira, fazem de Tamar uma nova mulher, nascendo em seu íntimo a voracidade da  astúcia e das atitudes drásticas, as quais nos trazem preciosas informações da cultura existencial daquela época.

 

A Teologia apresentada é a da raiva, da revolta em contraste com uma  vitória parcial e justiça descoberta. Ela passa a agir em conformidade ao  que considerava correto, em sua situação de mulher só, independente e autônoma.

 

Tamar foi hábil o suficiente para vivenciar duas culturas distintas, partindo do pressuposto de que talvez fosse uma mulher estrangeira. O ser humano é, pois, um migrante  que ultrapassa as fronteiras do seu corpo, busca espaços. Tamar busca, como mulher de fronteira, desenvolver suas possibilidade, isto é: um lugar onde possa ser ela mesma. 

 

Cananeus e israelitas são culturas diferentes, mas ao mesmo tempo de fronteiras. Podem em diferentes espaços de tempo tornarem-se dominadas ou dominantes. A regra nos diz que: As culturas dominadas  normalmente possuem mais capacidade de sobreviver numa outra dominante, a partir do conhecimento das regras, leis e costumes.

 

A trama dessa história, insere-se num processo contínuo e numa maquinação de acontecimentos que aos poucos parecem encaixar-se no Projeto da Aliança de Javé com o israelita, tendo a mulher no papel relevante e primordial para o seu sucesso.  

 

1.      Conhecendo Tamar

 

Como o texto de Gn 38 nos sugere, possivelmente sua composição tenha se dado no período dos reis Davi e Salomão, mas como memória do contexto tribal, é insinuado sutilmente uma reflexão retrospectiva ao passado. 

 

A narrativa talvez exponha o desejo da camada social inferior de escapar ao “controle” do direito divino exercido pelo rei, das leis obrigatórias, descobrindo um caminho através da volta aos seus ancestrais. É lá que pretendem encontrar a verdadeira justiça de Javé. É a  memória que vai fornecer  justificativas e a não aceitação da situação. A  memória de um povo tem muito a ver com o fundador desse povo, de suas tradições, cultura, como veículo de transformação e  mudanças radicais.

 

Tamar é apresentada como mulher forte e resistente a toda essa tirania patriarcal.  Reivindica seus direitos de viúva. Segundo o antigo direito oriental, a mulher era considerada viúva (almanah),quando perdia o marido por morte, não tendo mais ninguém que a protegesse, sustentasse e nem um cunhado que a desposasse. 

 

Em sua condição de viúva a mulher perdia o vínculo com a família do falecido marido, a não ser que fosse cumprido a “lei do cunhado”. Tamar não pertence a essa categoria  e nem está inserida legalmente nesses conceitos, pois havia ainda um outro irmão do seu marido morto, seu cunhado Selah.

 

Tamar em todo o texto atua como uma mulher inteligente, autônoma e independente, que conhece muito bem  a cultura do seu povo e do povo de Judá. Reconhece estar em desvantagem, mas os fatos não a assustam, pelo contrário lhe dão forças, partindo em seguida para  a concretização do seu plano. Ela parte para o  “ataque”.

 

Sua situação não é confortável e nem fácil. Está só, grávida, sem marido, sem futuro certo e dependendo econômica e socialmente do clã de Judá, seu sogro. Contudo, reconhece que os “trunfos”,  de que dispõe (anel, selo e cajado), poderão salvar sua vida  e a do seu  povo. Será na descoberta do seu plano que todos verão as falhas e injustiças trazidas pelo sistema.

 

Para Carmem Bernabé Ubieta, essa narrativa foi usada como justificativa para uma atuação política, social e religiosa  de Davi e Salomão, para  que o israelita entendesse que suas eleições foram vontade de Javé.

 

Se o autor  da narrativa, teve a intenção de justificar a presença da Monarquia como vontade de Javé, ou questionar o poder dominante, não é o que mais importa e sim o que ela  transparece numa perspectiva sociológica e de gênero. São explícitas as injustiças cometidas pela tribo de Judá contra Tamar, mulher supostamente estrangeira num clã hebreu, valorizada apenas por sua fertilidade e procriação. 

 

Tamar foi abandonada à sua sorte por uma suposição de esterilidade, abusada sexualmente por três homens da mesma família, viúva repelida, enganada e indesejada na sua condição de membro do clã.  Considerada “prostituta” e adúltera foi exposta a um juiz impiedoso que a condena sem direito algum ao julgamento.

 

No contexto patriarcal  não há ainda uma imagem ou modelo feito por mulheres. Ela continua se olhando com os olhos dos homens. Mulher é símbolo de procriação, da mãe  fértil  e responsável em gerar  filhos homens, de obediência  a um macho que a proteja, o seu baal. Todas as mulheres da Bíblia carregam sobre seus ombros estes estígmas. Elas são invisíveis do ponto de vista cultural e político. O que não foi diferente no personagem de Tamar.

 

Alguns estudiosos a colocam  Cananéia, como pressuposto do local em que morava  Judá e pela sua primeira opção de  casamento. Contudo, o texto em si não nos leva a uma exata conclusão. A figura de Tamar, se objetiva na concretização  e no cumprimento ao “dever do cunhado”, o que posteriormente tornou-se legal como “lei do levirato” (Dt 25,5-10).  

 

Levirato vem do latim = levir (cunhado), traduzido como yabam no hebraico. É um direito antigo do israelita, incorporado dos assírios, hititas e cananeus. Entre esses povos, na falta do cunhado, o pai do morto podia substituir o filho na união, fato ocorrido com Tamar e Judá. Talvez como Cananéia, Tamar ao relacionar-se sexualmente com Judá, estivesse naturalmente colocando em prática um costume do seu povo.

 

O vocábulo Tamar tem uma enorme influência na narrativa. Vem da tamareira, uma palmeira de importante valor econômico no Oriente, entre todas as outras. Era empregada como marco geográfico (Jz 1,16), como fonte de sombra e alimento no deserto (Ex 15,27) e como material de construção de tendas, local sagrado da família (Ne 8,15). Era ainda considerado o símbolo da beleza, formosura, imponência (Ct 7,7s), de prosperidade e justiça (Sl 92,13).

 

Segundo o habitante do Oriente, na tamareira nada existia que não fosse aproveitado. Entre os povos da Mesopotâmia, era considerada uma árvore sagrada. O deus sol dos assírios possuía sua representatividade sobre a copa de uma tamareira. No Egito, leques de tamareira eram usados como símbolo de vida longa e permanente, razão pela qual eram levadas em procissão nos enterros e colocada suas palmas sobre o peito das múmias. Em moedas romanas, a palmeira simbolizava a Judéia.

 

A personagem Tamar, nos traz  alguns conflitos sociais a serem analisados sob o prisma da aliança de Javé com  a tribo de Judá:

-         o cumprimento da lei do cunhado como problema de vida ou morte.

 

-         A fertilidade da mulher como forma de permanência na beit`av.

 

-         A esterilidade e a não procriação como motivos de exclusão e

       expulsão da mulher.

 

-         A Monarquia e a memória familiar como forma de transformação.

 

-         A bênção de Javé, a descendência e a primogenitura como

       justificativas de prosperidade.

 

No pensamento patriarcal, a relação Tamar/Judá prioriza o papel da mulher apenas como geradora e meio usado para chegar-se aos fins. Ela é chamada de “mais justa” que Judá, o que supõe ser ele também um justo teoricamente falando.

 

Numa perspectiva sociológica, cultural, teológica e de gênero, Tamar personifica a mulher sábia e astuta, fato raro para a época. É a “heroína”, que vai desmascarar um falso líder. Premedita e organiza cada passo do plano. Passa-se por prostituta para conseguir seus objetivos. Torna-se seu próprio goel, em vista do desrespeito dos homens da casa de Judá. Não permite que o patriarca veja seu rosto, exigindo com convicção e determinação o penhor e esperando o momento certo para desmascarar o sogro. 

 

Tamar é duplamente abençoada por Javé, gerando duas vidas, dois caminhos no futuro das tribos de Judá.

 

   

2. Conhecendo Judá

 

Judá também é peça chave no desenrolar do relato de Gn 38. Esta  se inicia com a sua separação da tribo. Ele abandona seus irmãos. Judá ludibria a tradição, tornando-se o herdeiro da bênção, que cabia ao seu irmão Ruben, o primogênito, fato que se repetirá com seu filho  Farés com Tamar. Apesar de ser  considerada uma narrativa fechada e independente, traz em si sinais  da anterior (Gn 37). Judá foge de seus irmãos, envergonhado por ter sido a peça chave na crueldade com seu irmão José, portanto deve pagar por isso.

 

Judá desce com seu rebanho às terras de Canaã, na cidade de Odolam, misturando-se às mulheres do lugar através do casamento. Culturas se juntam num ambiente não propício às bênçãos de Javé, a cidade. Lá não pode ser um  lugar onde o povo de Javé possa viver em paz. Odolam era o centro dos baals, deidades opostas ao projeto de Javé.

 

Em outros tempos quando os patriarcas buscaram as cidades se deram mal. Perderam sua própria identidade e o rumo da caminhada. Judá repete o feito, deixando a Tamar resolver o grave problema criado.

 

A narrativa nos revela um Judá amistoso, estabelecendo  contato com os cananeus e buscando a confederação das tribos. Casa-se com uma moça do lugar e mais tarde escolhe também para seu filho uma mulher dali. 

 

Culturas se misturam. Tradições, costumes, leis de proteção à mulher, cultos às divindades, formas de casamentos, proteção à família, raízes do povo, etc. Judá é o responsável para que tudo isso permaneça sob a  proteção de Javé, não permitindo o extermínio da família e nem da sua descendência. Cabe a ele decidir o futuro, a coesão, a unidade e o destino do seu povo.

 

O autor do texto continuamente demonstra sua preferência por Tamar, quando de uma forma implícita revela um Javé protetor dos  fracos e indefesos,  assumindo com ela seus objetivos em relação a casa de Judá. Do início ao fim do texto  Judá é o “vilão” da história, ele e todos os homens da família.

 

No clã de Judá, há de certa forma, uma  leve busca na observância às leis. Todavia, ele apresenta um comportamento de senhor absoluto da bet´ab. Lá não há espaço para o diálogo ou questionamento por parte dos filhos e de suas mulheres. É ele quem toma as decisões, quem escolhe a própria esposa  para o seu filho. Ordena ao seu segundo filho que cumpra com Tamar a “lei do cunhado”, culpa a nora pela morte dos dois filhos e finalmente, condena Tamar à morte sem nenhum direito a julgamento. Judá é o senhor da vida e da morte.  

 

 

3. Contextualizando Tamar

Cananéia ou Hebréia?

 

A preocupação com uma teologia diferente, faz surgir uma nova visão sobre esta história. Ela nos traz uma mulher  com aparência de submissão. Aceita ser  arrancada do seu povo, sua terra, sua gente, para viver numa cultura totalmente diversa, principalmente no que concerne  ao culto.

 

Sendo uma tradição javista, Deus é apresentado  como castigador daquele que desobedece a lei e não anda de acordo com a sua vontade. Tamar não se mostra amedrontada com a situação. Percebendo a  injustiça cometida em relação  a ela, concerta o erro dos homens daquele clã, torna-se o seu próprio goel, resgatando a vontade de Javé, a descendência da tribo de Judá. Tamar torna prática a teologia da revolta.

   

Um modelo de teologia  do século XX, serve como parâmetro para  a  que aparece na história de Tamar, a “teologia dos invisíveis”. Surge em meados do século passado intitulado, “a teologia dos excluídos”. Grandes nomes surgem  no  meio teológico  e social como, Gutierrez na América Latina e Metz na Alemanha. O segundo ainda se sentia sensibilizado pelo genocídio ocorrido na Segunda Guerra Mundial, a qual se caracterizava pelo esquecimento. Sua argumentação era de que a elite burguesa não tinha memória. Todos estavam preocupados apenas em reconstruir a Nação, esquecendo-se do recente passado sangrento e cruel. A teologia dessa forma, tenta resgatar as lembranças perdidas, tornando-se uma memória ativa e reagindo contra  a teologia abstrata do passado.

 

Dizia Matz, segundo Lieve Troch:  o sujeito da elite não deve apenas olhar o sofrimento do pobre e excluído, mas precisa perceber que este sofrimento foi causado pelo poder, a força e a arbitrariedade da elite, a qual procurava isentar-se de qualquer responsabilidade culpando apenas o governo.   

 

Quanto a Gutierrez, ele nos traz em sua teologia a figura do pobre como alguém “invisível” politicamente, sob a mão do opressor, o que na história atual volta a caracterizar-se pela dominação e exclusão, como aconteceu com Tamar e acontece com milhares de mulheres hoje.

 

A história a partir dos ricos e poderosos, ontem como hoje, não deve ser escrita e divulgada como um sinal de “ ordem e progresso” (lema da nossa bandeira), mas de dominação e exclusão. Gutierrez cria ou descobre a teologia da “não pessoa”, do ser “invisível”, a mesma teologia buscada pela valente Tamar.

 

O que vale para hoje não é apenas “olhar” a história e permanecer à margem, mas fazer parte dessa história; é “ouvir o clamor do outro”. Esse deveria ser o verdadeiro progresso do pensamento burguês de hoje. Perceber que a metanóia é dos pobres e que ele também é parte dessa história.

 

Prega-se aos “quatro cantos” da terra, a não violência, não só à mulher, mas a todo ser vivo do planeta. Essa talvez seja a maior bandeira dos últimos tempos e em quase todas as Nações. Movimentos feministas, de sindicatos, organizações particulares, comunidades eclesiais,  buscam soluções para injustiças e violência contra as mulheres.

 

Nós, as mulheres, não queremos ser dependentes dos homens aos quais estamos relacionadas. Queremos ser visíveis, ter o direito de expressão, não somente por obediência às leis, mas pela nossa participação no mundo, fazendo prevalecer os nossos direitos e reivindicar o nosso espaço.

 

A invisibilidade da mulher que faz teologia no mundo atual, ainda é uma realidade. Isso faz com que milhões delas, em todo o planeta, busquem estratégias que as tornem visíveis, participativas  e atuantes nesse mundo globalizado.

 

Segundo a Lieve Troch, o caminho talvez seja através da reflexão política, pelo fato de que sempre  contamos nossas histórias a partir dos ganhadores, e nós sempre fomos incluídas entre os perdedores. É necessário urgentemente fazermos uma “her-history”. Uma das formas encontradas  para  viabilizar a possibilidade de nos tornarmos  “pessoa”, foi estudar e pesquisar a mulher   na época patriarcal, nas narrativas bíblicas. Reconstruir a história na história da luta, astúcia e sabedoria de Tamar. Desconstruir a tradição patriarcal pela força de uma mulher  considerada “não pessoa” .

 

O que será que Tamar está nos dizendo? Em seu gesto de desespero, tentando uma última “cartada,” sem nenhuma segurança  legal, o que nos esclarece?

 

Relendo a história de Tamar numa perspectiva feminista e à luz dos acontecimentos atuais, vamos encontrar ao longo da história, diversos tipos de discriminação impostas à mulher. Todavia, é realidade  o despertar da busca crescente da consciência feminina de novas alternativas e caminhos.

 

Do ponto de vista sócio-jurídico, em nosso país, ainda hoje as mulheres não têm seus direitos respeitados, principalmente a mulher pobre, analfabeta, negra, que mora na periferia, nas favelas e cortiços. Tamar talvez seja a “chave hermenêutica”, que vai provocar nelas uma força maior na busca de seus ideais,  uma busca da preservação da vida, mesmo consciente dos riscos que correm, das influências contrárias, da pressão e do poder machista.

 

Como Tamar, as mulheres do nosso tempo estão aprendendo a conquistar seus espaços. Sabem que para manter o sistema organizado, leis são necessárias, mas estas  nunca  estão a favor do pobre e nem delas. O dilema é encontrar uma forma justa de caminhar e se relacionar socialmente, a partir da inserção da mulher nos espaços dominados pelos homens. Deve haver organização e justiça, reconhecimento dos valores humano independendo do sexo.

 

O sonho da mulher do povo, hoje, é o mínimo que se possa imaginar. É um emprego decente, bom salário, alimentação farta e saudável, moradia, educação, reconhecimento como pessoa, manutenção e ordem familiar. Estas são as bandeiras da maioria das mulheres que buscam o seu espaço num mundo hostil  a elas. De certa forma usam sua inteligência, seu instinto forte e sabem magistralmente driblar as intempéries em busca de seus objetivos.

 

Como Tamar, essas mulheres tudo fazem para que seja defendida e preservada a vida, muitas vezes colocando a sua própria em perigo.  A fé e a garra de Tamar, servem como padrão e modelo a ser seguido. Mesmo que o texto reflita situações específicas, culturas e estruturas diferenciadas, as quais nem sempre condizem com a nossa, são relevantes.

 

Quantas Tamares existem em nossas comunidades? Milhares... são mulheres agricultoras, operárias, empregadas domésticas, esposas exploradas, abusadas sexualmente por pai, irmão, marido, esposas de alcoólatras, bandidos, marginais, mulheres viúvas, idosas, desamparadas, analfabetas, que se calam por não lhes permitirem falar e nem poderem expressar seus sentimentos, seus direitos e necessidades. São mulheres  mães de bandidos que defendem seus filhos, sofrendo todo tipo de violência  pelos maridos e pela sociedade. são mulheres com um incansável ideal de justiça. Visitam prisões, são voluntárias no combate  a violência contra a mulher, lutam pela terra e até muitas vezes por uma pequena herança.

 

  nos mais diversos cantos do país, movimentos  de mulheres  que aos poucos vão recuperando a sua dignidade, seu papel na sociedade. Conhecendo os mecanismos de opressão, essas mulheres tomam decisões sobre sua vida e seu corpo. Denunciam qualquer tipo de violência de gênero, classe ou etnia. Pesquisas recentes, principalmente nas  matrículas escolares, afirmam que mais 40% das famílias brasileiras são compostas de mãe e filhos.

 

Acredito que Tamar também sirva de modelo e incentivo a muitas mulheres, antes sem vontade alguma de mudar as coisas, achando que sozinhas jamais poderiam lutar contra o mundo dos homens. Hoje elas buscam o conhecimento dos seus direitos, vão a luta! Organizam-se, voltam aos bancos da escola,  reúnem-se nas comunidades religiosas, prefeituras e associações. Do conhecimento doméstico passam ao formal. O acesso a novos conhecimentos gera e possibilita nelas uma disputa igual e democrática com os homens, por espaços antes a elas negado.

 

Inúmeros “sinais” foram dados por mulheres marginalizadas pela sociedade, que abertamente não tinham o direito de expressão, falavam mas não eram ouvidas, e que portanto foram obrigadas a usarem da “linguagem corporal”. Seus corpos e suas vozes angustiadas transmitiram mensagens através de objetos, colocando  fontes diferentes como forma de reconstruir sua história. Sobre essas mulheres, foram expostos alguns exemplos  pela  professora Lieve, no curso “teologia e cultura” e que se me permite, exporei alguns:

 

No período de escravidão  nos USA, mulheres negras agricultoras não tinham nenhum valor como pessoa diante da sociedade de brancos e ricos. Buscando uma saída para essa situação elas enviam mensagens a outras plantações de uma forma bastante peculiar.  Através de suas vozes, cantam alto e forte sendo levado pelo vento a sua mensagem de dor e agonia. São canções de lamento, contos e “causos” de  clamor e queixa, virtude e dom que só elas possuíam.

 

 Ainda hoje se canta  a música da resistência dos negros nas igrejas, de uma forma litúrgica e agradável aos ouvidos.  Dessa forma elas conseguem fazer memória para adquirir resistência e sobreviver. Resgatam de uma maneira  própria o direito a elas negado. Na forma e análise androcêntrica, essa oposição foi considerada uma “mentira,” “fantasia” desvairada. Enquanto essas mulheres lamentavam seus infortúnios usando a  voz, buscavam  novas forças para a peleja tecendo uma “colcha de retalhos” patchcwork.

 

Era o retrato da pobreza mas não do desânimo. Esse trabalho feito em mutirão, e que ainda hoje faz parte da cultura americana, já foi uma mensagem de resistência das mulheres negras do campo. Cada pedacinho de tecido costurado  um no outro, possuía uma história. Muitas vezes os pedacinhos de tecido eram  tirados de suas próprias roupas ou de outras mulheres mortas, vítimas da violência, assassinadas, ou mandadas embora  de uma plantação para outra.

 

 O patcwork, era como uma carta, talvez a única forma de comunicação entre essas mulheres. O acabamento do trabalho cabia a toda comunidade, que se juntava numa forma bonita de união e de tentarem juntos reunir ali suas mensagens de boa sorte e felicidades, já que  essa colcha era presenteada a uma noiva, também como forma de sinalização e comunicação de uma plantação a outra. Um determinado desenho era exclusivo de cada plantação, o que diferenciava as mensagens. 

 

Essas mulheres de uma certa forma conseguiam levar a outras, suas intenções e ideologias, e mesmo a longas distâncias conseguiam construir uma resistência e um intercâmbio cultural e espiritual entre as comunidades.

 

Acredito que essas mulheres, como Tamar, se sentiam sós, sem apoio legal, sem voz e vez, sem o direito de serem ouvidas. Contudo, não se deixam levar pela falta de oportunidades, vão à luta da forma que podem, usando o seu corpo (suas mãos e voz), sua inteligência e astúcia e, dessa forma, questionam os homens brancos, a classe dominante e “superior”, sem medo das conseqüências, confiando no resultado da sua ação. O sofrimento, a mágoa e a ausência de justiça lhes dão incentivo e força para irem de encontro aos seus objetivos.

 

Com o corpo e o espírito, elas se tornam visíveis na comunidade. O fazer teologia para elas e a busca da divindade  vão muito além da busca, passam a ser,  agora, não apenas um fato para legitimar ou justificar uma situação, mas uma experiência de justiça e de preservação da vida.

 

Ela é mais justa que eu” (v. 26b), disse Judá a Tamar. Talvez o autor do texto não pensasse no tipo de justiça interpretada por nós as mulheres do século XXI. Contudo, a religiosidade de Tamar é gritante pela forma como se preocupa  que a aliança entre Javé e seu povo seja cumprida. A divindade que está em jogo e que talvez esteja do seu lado não pertence aos cananeus, mas ao israelita, Javé.

 

Javé, para Tamar, é movimento, é parceiro no sofrimento, é luta junto na resolução dos conflitos, não incorporando o ba´al, mas destruindo-o. Ela descobre que a única forma de encontrar a divindade é pela prática da justiça. Descobre como milhares de mulheres hoje,  que a fronteira é terra de ninguém e que estrangeiros, refugiados e mestiços, são pessoas que aprenderam a viver em “terra de ninguém”. Eles vivem por si mesmos sem uma cultura definida, pois identidade tem a ver com lugar definido.

 

Tamar passa por  momentos em que sua identidade cultural se confunde. É tirada de sua terra, é expulsa dessa terra, quer voltar, mas não é  aceita. A cena se repete continuamente no mundo. Pobres, negros, pessoas sem identidade cultural e, principalmente mulheres, são refugiados, são seres humanos sem fronteira. Hoje são consideradas as vítimas da globalização. De tantas mudanças, sua cultura vai morrendo aos poucos.  

 

Tamar avistou  longe, e descobriu que a cultura de Judá não poderia desaparecer pela sua intransigência e ignorância. Faz uso então de  sua própria justiça.

   

E perguntamos: que leis podem amparar essas mulheres? Quem as vai proteger? O personagem da Tamar vem trazer-lhes um novo ânimo  e permitir que descubram a existência  de mulheres semelhantes na Bíblia, buscando seu caminho de independência a duras penas,  mas com  persistência e a certeza de que são pessoas.

 

 

4.      Bibliografias Consultadas:

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 Jacques Audinet, “Fronteiras do corpo, fronteiras sociais” em: Concilium 1999/2, Petrópolis, Vozes, p.61.

Yves Cattin, “O ser humano, transgressor de fronteiras”, em: Concilium, 1999/2, Petrópolis, Vozes, p.15.

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 Ibid.