O Testamento dos doze Patriarcas

O livro nos apresenta o momento em que cada Patriarca (Os doze filhos de Jacó) se reúne em torno de seus filhos e netos para falar-lhes sobre sua vida, sofrimento, glória, aventuras e dissabores.

O estilo de cada testamento é o mesmo: Na introdução diz-se que o Patriarca adoeceu e reuniu diante de si sua prole para lhes passar de forma resumida sua vda.

O objetivo de expor para nossos visitantes estes livros (e muitos outros que ainda serão transcritos nesta seção) não é, propriamente dito, um estudo de caráter histórico, apenas transcrevemos estas obras para que o estudante possa perceber como era florescente na época de Cristo e dos apóstolos, bem como no período imediatamente anterior e posterior à estes, literatura contendo material religioso.

Hoje mediante pesquisa e buscas arqueológicas, muitos destes materiais vão sendo descobertos, como este que ora apresentamos nesta seção.

A região que compreende o Egito, Pérsia, Israel e territórios adjacentes, estão fornecendo aos estudiosos do fenômeno religioso material que trás à tona verdadeiras relíquias do pensamento prevalecente nesta época, bem como documentos que de forma silenciosa denunciam as verdades que temos crido ao longo destes milênios.

Entendemos assim, que a preocupação de Cristo quanto ao silêncio profético nos tempos idos, revela-se hoje de forma clara e concisa na mente do observador, seja ele cristão ou leigo: "Digo-vos que se estes calarem, as próprias pedras clamarão". Luc. 19: 40.

Sim, as pedras estão nos abrindo os tesouros contidos nelas, e nos contando histórias que confirmam a exatidão do livro santo.

Deixamos abaixo, ao leitor, um pedaço do Testamento de José, contido no livro que ora estudamos.

 

...escutai, filhos, o vosso pai! em minha vida eu via inveja e a morte; nunca, porém, me afastei da verdade do Senhor.

Estes meus irmãos me odiaram, em contrapartida o Senhor me amava. Eles tencionaram matar-me, mas o Deus de meu pai protegeu-me. Atiraram-me numa cisterna, mas o Altíssimo tirou-me de lá. Fui vendido como escravo, o Senhor, porém, deu-me liberdade. Fui preso, mas amparou-me sua mão forte. Fui castigado pela fome, mas o próprio Senhor me alimentou. Estive só, e Deus ofereceu-me consolo, estive doente, e o Altíssimo visitou-me. Estive no cárcere e Deus demonstrou-me sua benevolência. Fui algemado, e ele libertou-me. Fui caluniado e ele esteve ao meu lado. Fui invejado pelos meus companheiros de prisão e Ele fortaleceu-me.

- "Então o cozinheiro-mor do Faraó confiou-me a sua casa. Lutei contra uma mulher despudorada, que me pressionava para pecar com ela. Mas o Deus de Israel, meu pai, resguardou-me dos ardores do fogo. Fui lançado ao calabouço, onde bateram e me vilipendiaram, mas Deus fez com que o guarda da prisão fosse benevolente para comigo.

O Senhor não abandona aqueles que O temem, seja na escuridão, seja nas algemas, seja na aflição, seja na necessidade. Deus não se peja à guisa do homem, não é hesitante como os humanos, e muito menos fraco como um nascido sobre a terra. Em toda a parte Ele está presente. Consola de muitas maneiras, mesmo quando se afasta por algum tempo, para pôr uma alma à prova. Ele provou-me em dez diferentes tentações, e em todas elas fui perseverante. A perseverança é uma força admirável; igualmente a paciência produz grande benefício.

Quantas vezes a egípcia ameaçou-me de morte! Quantas vezes ela mandava me chamar e infligia-me castigos e ameaças quando eu me recusava a satisfazer a sua vontade! Depois ela me dizia: "Tu serás o meu senhor, e tudo o que é meu será teu, contanto que te entregues a mim. Tu serás como nosso líder". Eu, porém, pensava nas palavras do meu pai Jacó, recolhia-me ao quarto e rezava a Deus.

Durante aqueles sete anos eu praticava o jejum, e no entanto parecia aos egípcios como se estivesse vivendo regaladamente. Pois todos que jejuam por amor a Deus conservam uma face radiosa. Davam-me vinho para beber e eu não bebia; e por três vezes dei minha comida aos pobres e aos doentes. Levantava-me cedo todas as manhãs para orar ao Senhor e deplorava a egípcia de Menphis, pois ela me assediava constantemente. A pretexto de visita, procurava-me de noite. Assumia a princípio uma atitude maternal, tomando-me como filho, pois ela não tinha nenhum. Eu rezei ao Senhor, então ela depois deu à luz um filho. E ela abraçava-me longamente como a um filho, e eu não suspeitava de suas verdadeiras intenções. Por fim, procurava excitar-me para a luxuria. Quando percebi isto fiquei perturbado à morte. Quando ela se afastou, caí em mim e lamentei o ocorrido durante muitos dias; percebi o seu ardil e sua fraude. Procurei esclarece-la sobre as palavras do Altíssimo, tentando demove-la de seu desejo pecaminoso.

Quantas vezes também me lisonjeava como um homem santo, astutamente louvava a minha castidade diante do marido, unicamente para conquistar-me quando estivéssemos sós. Elogiava-me muitas vezes como um homem casto, e em segredo dizia-me: "Não tenhas receio do meu marido! Ele está convencido de tua pureza, a ponto de se alguém disse algo sobre nós ele não acreditará".

Em decorrencia disso, passei a dormir no chão nu, rezando a Deus que me protegesse contra as intrigas da mulher. Vendo que nada conseguia, procurou-me uma vez mais, agora com a desculpa de ser por mim instruída a aprender a palavra de Deus. Dizia-me: "Se queres que eu abandone os ídolos, então vem para o meu lado! Convencerei também o meu marido para que se afaste dos falsos deuses. Adotaremos então a lei do teu Senhor".

Respondi-lhe: "O Senhor não quer que aqueles que o temem se comportem impuramente; igualmente o adultério não é do seu agrado, principalmente em se tratando daqueles que O invocam com um coração puro e com uma boca sem mancha". Em vista disso, ela ficou algum tempo em silêncio. Em seguida, fez exigências para que eu satisfizesse seu desejo. Então jejuei e rezei mais ainda, para que o Senhor me livrasse dos seus laços.

Em outra ocasião, voltou a falar-me: "Se não desejas o adultério, então envenenarei o meu marido, depois casarei contigo segundo a lei". Ao ouvir isso, rasguei as minhas vestes e exclamei:"Mulher, tens temor a Deus! Não cometa este ato criminoso, para não caíres em completa ruína! Vou denunciar todas as tuas más intenções".

Então, ela suplicou-me cheia de medo, para que eu não revelasse seu plano. Com isso, ela se afastou, mas tentou conquistar-me com presentes, e mandava-me todos os regalos possíveis e imagináveis.

Em certa ocasião, mandou oferecer-me uma comida que continha feitiço. Quando apareceu o eunuco para fazer-me a entrega, eu vi, como que em visão, um homem terrível que me apresentava uma espada numa bandeja. Percebi que se tratava de um ardil visando iludir-me. Quando o eunuco se afastou, eu chorei, não toquei a comida nem as demais iguarias. No dia seguinte ela veio procurar-me uma vez mais e reparou nas comidas.Perguntou-me então: "Por que não te serviste deste alimento?". Respondi-lhe: "Tu introduziste nele a morte. E como chegaste a dizer: Nunca mais farei sacrifícios aos falsos deuses, mas unicamente ao Senhor?". Pois agora saiba que o Deus de meu pai, por intermédio de um anjo, revelou-me toda tua maldade! E assim não toquei na comida, para que tu, ao veres isso, fosses levada ao arrependimento. "Para que saibas, porém, que a iniqüidade dos maus nada pode contra aqueles que temem a Deus na castidade, comerei desta comida e comerei na tua presença". 

Depois destas palavras eu disse: " Comigo está o Deus de meus pais, e também o anjo de Abraão". e comi Então ela caiu com sua face no chão, aos meus pés, e chorou. Eu a ergui e conversei com ela. Prometeu nunca mais cometer este pecado.

Mas, seu coração estava totalmente possuído de luxúria em relação a mim. Suspirou profundamente e desfaleceu, embora não estivesse doente. Ao vê-la assim, o seu marido perguntou-lhe: "Por que está desfigurada a tua face?". Ela respondeu: "Sofri uma grande tristeza do coração, e os gemidos do meu espírito me sufocam". Então ele foi chamar um médico para que a examinasse, embora não tivesse doença nenhuma.

Enquanto seu marido ainda estava ausente, ela atirou-se sobre mim e disse: "Se te recusar a satisfazer meu desejo, enforco-me ou me lanço num abismo". Notei que ela estava profundamente transtornada pelo espírito de Belial. Orei ao Senhor, e disse: "Ó mulher infeliz, porquanto te perturbas e excitas, porque estás tão obcecada pelo pecado? Considera bem! Se te suicidares, imediatamente Setho,  concubina do teu marido e tua rival, ficará em teu lugar. Ela maltratará teus filhos e apagará teu nome da face da terra".

Nesse momento ela retrucou-me: " Portanto tu me amas. Fico consolado ao constatar que te preocupas com minha vida e com a vida dos meus filhos. Assim, resta-me ainda a esperança de poder sastisfazer o meu desejo". Ela não entendera que as minhas palavras foram ditas por amor a Deus  , não por amor a ela. Quando alguém está possuído por uma paixão doentia, e por ela totalmente subjugado, como no seu caso, tudo o que escuta de bom é colocado a serviço da ânsia daquela paixão.

"Digo-vos, meus filhos, que era pela hora sexta quando ela se afastou de mim. Prostrei-me de joelhos diante do Senhor durante todo o dia e depois durante toda a noite. Pela manhã, levantei-me em lágrimas e supliquei pela minha libertação daquela mulher. Finalmente, ela agarrou-me pelas vestes e procurou deitar-me comigo à força.

Ao perceber que ela agarrava alucinadamente às minhas roupas, consegui livrar-me e fugi nu. Então ela foi caluniar-me junto ao seu marido, e este lançou-me na prisão da casa. No dia seguinte mandou açoitar-me e depois enviou-me ao cárcere de Faraó. Enquanto eu jazia na prisão, a egípcia adoeceu de aflição. Ela chegou por perto e ouviu-me louvar a Deus na escuridão do calabouço com uma voz alegre, por ter me livrado dela e de sua louca paixão.

Inúmeras vezes mandou emissários para dizer-me: " Aceita satisfazer o meu desejo! Então te livrarei das tuas cadeias e tirar-te-ei da escuridão". Mas nem em pensamento eu estava disposto a concordar. Pois Deus ama muito mais aquele que jejua em castidade, num fosso escuro, do que aquele que se refestela num aposento. Pois àquele que vive casto, no desejo de alcançar a glória, o Altíssimo, sabendo que é para o seu bem, concede-lha, como a concedeu a mim.

Quantas vezes ela chegava perto de mim na calada da noite, levada por sua paixão, e escutava-me rezar. Eu, porém, calava-me quando ouvia seus suspiros. Quando eu ainda me encontrava em sua casa, ela desnudava seus braços, seu peito e suas pernas, no intuito de atrair-me. Ela era muito bonita, e enfeitava-se admiravelmente apenas para deixar-me alucinado. Mas, o Senhor protegeu-me dos seus atrativos......"

///////////////