UM DEUS CANSADO?

 

            E disseram os hagiógrafos (escritores bíblicos) em seu poema da Criação: “Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nesse dia Deus descansou de toda a sua obra” (Gn 2,3). Será mesmo que Deus se cansa?

            A palavra hebraica para descanso é shabat, a qual pode vir de duas raízes distintas: sqt no sentido de: gozar de... ter paz, ou de shbt no sentido de: parar de alguma atividade ou abster-se de trabalhar. Daí o dia para o descanso judeu chamar-se shabat. Há ainda um outro sentido no qual o termo é amplamente utilizado: é quando se refere à morte (repousar, dormir, descansar).

            Estamos hoje refletindo o termo “descanso”, pelo fato de que Julho é para muitos de nós um período de descanso, de férias, de abster-se do trabalho, de desafogo da labuta de ensinar, de transmitir conhecimentos, seja ele de que forma for, portanto os catequistas se colocam também nessa categoria. Os ensinamentos bíblicos e eclesiais são a mola mestra que impulsiona a caminhada de fé, pois alguém só pode acreditar em Deus e em Jesus, se existirem aqueles que estejam dispostos a Deles falar, e os catequistas foram incumbidos desta missão: “... como crerão sem terem ouvido falar, e como ouvirão falar se não houver quem pregue?”. Rm 10, 14b.

            Quando o poema do Gênesis diz que Deus descansou, por certo não está afirmando que Deus se cansa como qualquer um de nós, mas que, como seus filhos e seres por ele criados, devemos imitá-lo em suas atitudes. Foi também nesse sentido que Jesus lavou os pés dos discípulos, para servir-lhes de exemplo “dei-vos o exemplo para que assim como vos fiz, assim também façais vós”. Jo 13, 15. Da mesma forma Deus descansou, embora Ele na verdade nunca se canse, como diz o profeta Isaias: “então não sabes? Ou não ouviste? Deus é eterno e Senhor, o criador dos confins da terra. Ele nunca se cansa e nem se fadiga, insondável é a sua inteligência” (40,28); portanto, não podemos jamais pensar no descanso de Deus nos moldes humanos.

            O vocábulo “descansar” na Bíblia, pode ainda referir-se a um sentido político como paz e segurança da Nação, estabelecida por Javé ao seu povo. O país descansa quando está em paz, sem guerra ou qualquer tipo de calamidade: “o país esteve em paz (em descanso) por quarenta anos” (Jz 3,11). “Percorremos a terra e a encontramos em paz (descansada) e tranqüila” (Zc 1,11).

            Mesmo com outra raiz, a palavra descanso para o povo antigo da Bíblia significava também a morte ou a situação após a morte... diz o sábio judeu sobre o descanso da morte: “...chora menos por um morto, pois encontrou o descanso...” (Eclo 22,11). É também nesse sentido que, ao saber da morte de alguém próximo, costumamos dizer: “descanse em paz”.

            No mesmo sentido, já no Novo Testamento, se dá o episódio da ressurreição da filha de Jairo, quando Jesus lhe diz: “Para que esse alvoroço e esse choro? A menina não está morta apenas dorme (repousa, descansa)”. Marcos 5,39b. Também na morte de Lázaro, Jesus se refere a ela como um descanso, um sono, quando afirma: “... Lázaro, nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo. Disseram-lhe os discípulos: se dorme, Senhor, é porque vai ficar bom. Jesus, porém, se referia à morte, mas eles pensavam que falasse do sono. Então Jesus lhes diz abertamente: Lázaro morreu!”. Jo 11, 11-15.

            Finalmente o “descanso” de Deus na criação (Gênesis) é contraposto por Jesus no evangelho de João (5,17). Aqui, o trabalho é colocado em oposição ao descanso, uma vez que Jesus busca mostrar o contra-senso do sentido radical empregado ao termo shabat: “Meu Pai continua até agora trabalhando e eu também trabalho”, referindo-se ao guardar o sábado, no sentido radical em que faziam. Disse mais uma vez Jesus: “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado” (Mc 2, 27). Assim, com muita dificuldade, os Judeus puderam entender que Ele lhes dizia que o Deus criador poderia “descansar”, mas, como Pai, estava continuamente ocupado em proteger, cuidar e amar seus filhos, portanto, jamais descansaria.

            Chegamos, então, à conclusão de que nós descansamos porque somos humanos e, conseqüentemente, fracos e pecadores, mas Deus está continuamente acordado e alerta às nossas necessidades, nossos gritos, nosso clamor. Ele nos conhece intimamente e sabe do que precisamos, antes mesmo de pedirmos “não chegou a palavra à minha língua, e tu, Senhor, já conheces toda”. (Sl 139, 4).